Pela primeira vez desde que o conceito de limites planetários foi estabelecido, a acidificação dos oceanos foi oficialmente classificada como fora da zona segura para a manutenção da vida marinha e do equilíbrio climático.
Com isso, sete dos nove sistemas fundamentais que regulam a estabilidade da Terra já foram transgredidos. Os dados constam no novo relatório do Planetary Boundaries Science Lab, vinculado ao Instituto de Pesquisas sobre Impacto Climático de Potsdam (PIK), divulgado nesta semana.
- O que é acidificação? — A acidificação do oceano ocorre principalmente pela queima de combustíveis fósseis — agravada pelo desmatamento e pelas mudanças no uso da terra.
- Como sabemos disso? — Desde a Revolução Industrial (século 18), o pH da superfície marinha caiu em 0,1 unidade, elevando em até 40% o nível de acidez.
- Quais as consequências? — O fenômeno compromete a sobrevivência de espécies sensíveis como corais, pterópodes (micro-moluscos essenciais à cadeia alimentar) e a fauna do Ártico, além de ameaçar a pesca global e a segurança alimentar humana.
“Estamos nos movendo na direção errada. O oceano está mais ácido, com menos oxigênio e sob ondas de calor mais frequentes”, afirmou Levke Caesar, uma das autoras do estudo.

Sete sistemas essenciais já foram comprometidos
Além da acidificação oceânica, também estão fora da zona de segurança:
- Mudanças climáticas;
- Integridade da biosfera;
- Alterações no uso da terra;
- Uso de água doce;
- Fluxos biogeoquímicos;
- Presença de entidades novas (como plásticos e produtos químicos sintéticos).
Segundo os pesquisadores, todos os sete limites apresentam tendências de piora — um sinal de que os mecanismos de autorregulação do planeta estão sendo desestabilizados.
“Mais de três quartos dos sistemas que sustentam a vida na Terra já foram ultrapassados. Estamos avançando além do espaço operacional seguro para a humanidade”, advertiu Johan Rockström, diretor do PIK.
Reações internacionais destacam urgência
O relatório também destaca que há caminhos possíveis de reversão — como demonstraram os avanços em relação ao ozônio e à poluição por aerossóis. Esses dois limites, únicos ainda dentro da zona de segurança, foram beneficiados por décadas de ação internacional coordenada, incluindo o Protocolo de Montreal.
“Sem oceanos saudáveis, não há planeta saudável”, alertou a oceanógrafa Sylvia Earle. “A acidificação é um sinal vermelho piscando no painel da estabilidade terrestre. Ignorá-la é arriscar a fundação do nosso mundo vivo.”
O ex-presidente da Colômbia, JM Santos, classificou o cenário como uma “chamada moral à ação”, enquanto a ativista Hindou Oumarou Ibrahim destacou que a ciência apenas confirma o que povos indígenas sempre souberam: ultrapassar os limites naturais ameaça toda a vida na Terra.