No Dia Internacional da Visibilidade Trans, celebrado em 31 de março, a atenção se volta para os direitos e a realidade da população trans no Brasil.
Com estimativa de 4 milhões de pessoas transgêneras ou não binárias no país, segundo dados do Banco Mundial, a população enfrenta altos índices de violência, exclusão social e desigualdade no mercado de trabalho.
Apesar de avanços recentes, como decisões do Supremo Tribunal Federal que garantem a alteração de nome e gênero sem cirurgia e a criminalização da transfobia, a implementação de políticas públicas e a proteção legal ainda apresentam lacunas significativas.
Centros de referência em cidades como Campinas, São Vicente, Guarujá e Bragança Paulista oferecem atendimento de saúde, apoio psicológico e programas de inclusão, enquanto iniciativas como a TransEmpregos promovem a inserção laboral de pessoas trans.
Avanços jurídicos e reconhecimento social
Nos últimos anos, decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) têm garantido direitos essenciais à população trans, especialmente diante da ausência de uma legislação federal específica.
Em 2018, o STF reconheceu o direito de pessoas trans alterarem nome e gênero no registro civil sem necessidade de cirurgia ou laudos médicos. Em 2019, a Corte equiparou atos de transfobia ao crime de racismo, reforçando a proteção legal contra discriminação.
Para a advogada Nair Zuchini, especialista em direito administrativo e membro da Comissão OAB Vai à Escola, em entrevista à VTV News, “a ausência de legislação expressa deixa direitos fundamentais dependentes do Poder Judiciário, o que gera insegurança jurídica. O STF tem assumido papel garantista, mas ainda há necessidade de uma lei federal que consolide a proteção da população trans”.
Apesar das decisões judiciais, dúvidas sobre direitos persistem. O acesso à saúde integral, o uso do nome social em instituições públicas e privadas, e a responsabilização legal por transfobia ainda são mal compreendidos, refletindo uma lacuna informacional que compromete a efetividade dos direitos reconhecidos.
“Ainda há muita desinformação sobre direitos que já são reconhecidos juridicamente, como alteração de nome e gênero em cartório, uso do nome social, acesso à saúde integral e proteção contra discriminação em ambientes de trabalho”, acrescenta.
| Nº / Ano | Lei / Decisão | Efeito principal | Impacto para pessoas trans |
|---|---|---|---|
| Constituição Federal, 1988 | Artigos 1º, 3º, 5º e 7º | Princípios de igualdade, dignidade da pessoa humana e não discriminação | Fundamenta juridicamente a proteção contra qualquer forma de discriminação, incluindo identidade de gênero |
| Lei nº 7.716/1989 | Lei dos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça ou cor | Base legal para criminalização da transfobia e homofobia pelo STF | Permite punição legal de atos discriminatórios, com penas de 2 a 5 anos de reclusão |
| Provimento nº 73/2018 (CNJ) | Permite alteração de prenome e gênero em registros civis | Facilita o reconhecimento legal da identidade de gênero sem necessidade de cirurgia ou laudos médicos | Reduz barreiras institucionais e fortalece o direito à identidade e dignidade |
| STF, 2019 (ADO 26 e MI 4.733) | Equipara transfobia e homofobia ao crime de racismo | Determinou aplicação da Lei nº 7.716/1989 até que haja lei específica | Protege juridicamente pessoas LGBTQIA+ contra práticas discriminatórias |
| Política Nacional de Saúde Integral LGBT (PNSI-LGBT), 2011 | Política do Ministério da Saúde | Garante acesso a serviços de saúde integral para pessoas LGBT+, incluindo atenção à população trans | Amplia atendimento em saúde, hormonização e acompanhamento multidisciplinar |
| Decreto nº 8.727/2016 | Regulamenta uso do nome social no serviço público federal | Permite uso do nome social em documentos e cadastros de órgãos federais | Reconhecimento administrativo da identidade de gênero no serviço público |
| Lei nº 13.146/2015 (Estatuto da Pessoa com Deficiência) | Inclui pessoas trans em políticas de inclusão e acessibilidade (quando aplicável) | Proteção adicional contra discriminação e promoção de direitos civis e sociais | Garante suporte institucional e direitos em diferentes áreas, inclusive educação e trabalho |
Violência e expectativa de vida
O Brasil mantém um dos maiores índices de violência contra pessoas trans no mundo.
Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) apontam que 122 pessoas trans foram assassinadas em 2024, sendo a maioria negras, carentes e do Nordeste. Esses números colocam o país como o que mais mata pessoas trans pelo 16º ano consecutivo.
A expectativa de vida da população trans no país continua abaixo da média nacional, consequência direta da violência, do estigma e da dificuldade de acesso a serviços básicos de saúde e educação.
Políticas públicas e atenção à saúde
Cidades como Campinas, São Vicente e Guarujá implementaram serviços de referência para atendimento da população trans, oferecendo suporte multidisciplinar que inclui acompanhamento médico, terapias hormonais, apoio psicológico e assistência social.
O Ambulatório Transcender, em Campinas, registrou 3,1 mil atendimentos em 2024, número 7,1% superior ao ano anterior. Michele Cristina Leardini, coordenadora da unidade, atribui o crescimento ao “maior acesso às informações e à organização dos usuários através de comunicação orgânica”.

Em São Vicente, o maior ambulatório da Baixada Santista oferece atendimento integrado desde acompanhamento terapêutico até acesso à documentação civil e empregabilidade. Guarujá inaugurou em 2025 o primeiro ambulatório trans da cidade, denominado TRANSforma – O Respeito Transforma, oferecendo atendimento multidisciplinar com psicologia, psiquiatria, endocrinologia, enfermagem e assistência social.
Em Bragança Paulista, a Secretaria de Saúde reforçou cuidados integrais para pessoas trans na Atenção Primária, incluindo hormonização, rastreio de cânceres e acompanhamento psicológico. Mariana Quilici, coordenadora do Programa Municipal de IST, HIV/AIDS e Hepatites Virais, explica que “o cenário de estigmas impacta diretamente o acesso a bens e serviços de saúde, e políticas de acolhimento são fundamentais para a inclusão social”.

Inserção no mercado de trabalho
O acesso ao emprego formal ainda é limitado para pessoas trans. Um estudo do Ipea de 2025 identificou 38,7 mil pessoas trans em registros oficiais, mas apenas 25% tinham vínculo formal de trabalho, taxa inferior à média nacional.
Mulheres trans apresentaram menor participação (20,7%) em relação aos homens trans (31,1%), refletindo desigualdades estruturais.
Os rendimentos também são desiguais: pessoas trans ganham em média R$ 2.707 mensais, 32% menos que a média nacional, mesmo com escolaridade equivalente. A concentração em setores de menor prestígio (comércio, serviços administrativos e alimentação) evidencia barreiras persistentes à ascensão profissional.
Márcia Rocha, idealizadora do projeto TransEmpregos, afirma que “não buscamos vagas exclusivas para pessoas trans, mas um mundo inclusivo, onde currículos sejam analisados sem preconceito. A empregabilidade é um caminho para a dignidade e a cidadania plena”.
Educação, conscientização e futuro das políticas públicas
A inclusão de pessoas trans depende também da educação e conscientização da sociedade. Organizações como a ABRAT e projetos educativos promovem campanhas sobre identidade de gênero, diversidade e combate à transfobia.
A capacitação de profissionais de saúde, educação e segurança pública é destacada como medida prioritária para reduzir estigmas e melhorar o atendimento.
Segundo especialistas, o avanço legislativo deve ser acompanhado por políticas públicas estruturadas, com investimentos em saúde integral, oportunidades de emprego, coleta de dados confiáveis e ações de proteção contra a violência.
Serviços e canais de apoio
- Campinas: Ambulatório Transcender – Centro de Saúde Santos Dumont, Rua José Pinto da Silva, 81, Jardim Itatinga. Tel: (19) 3735-9220.
- São Vicente: Ambulatório Trans – Rua José Bonifácio, 404, Centro. Email: [email protected] / Tel: (13) 3569-2220.
- Guarujá: TRANSforma – Centro de Especialidades de Vicente de Carvalho, Rua Guilherme Guinle, 42 – Pae Cará.
- Bragança Paulista: Serviço de Assistência Especializada – Rua Dr. Freitas, S/N, Lavapés. Tel: (11) 4034-6555.
- Empregabilidade: TransEmpregos – plataforma gratuita de inserção laboral e cursos de formação.
O Dia Internacional da Visibilidade Trans reforça que a garantia de direitos não depende apenas de decisões judiciais ou políticas públicas isoladas, mas de um esforço coletivo da sociedade para reduzir desigualdades históricas, proteger vidas e promover inclusão.