A delicadeza do desenho e o significado de transformação fizeram da borboleta uma das tatuagens mais populares entre mulheres nas últimas décadas – e continuariam sendo, se não fosse pela nova interpretação que ganhou nas redes sociais. Para muitos homens, a imagem passou a ser apontada como um “sinal de alerta”.
Em plataformas como TikTok, Instagram e X, influenciadores da chamada machosfera (comunidades baseadas em visões extremas, rígidas e, muitas vezes, agressivas sobre o que é ser homem) vêm relacionando a tatuagem a características como instabilidade emocional, promiscuidade e dificuldade para manter relacionamentos.
Entre as surpreendidas pela tendência está a estudante Ana Beatriz Coelho de Andrade, de 22 anos. Dona de diversas tatuagens, ela conta que a borboleta foi a primeira que decidiu eternizar na pele, há quatro anos, no ombro esquerdo. A escolha, segundo ela, teve uma motivação completamente diferente da atribuída.

Beatriz explica que escolheu o desenho pela relação com o chamado “efeito borboleta”, teoria popularizada pela ciência que sugere que pequenas ações podem gerar grandes consequências ao longo do tempo.
“Eu já ouvi ‘nossa, mas por que você fez logo essa tatuagem?’ e ‘com essa aí tem que ter cuidado’. Hoje eu sei o que pensam sobre ela, mas, na época em que fiz, não sabia. Foi minha primeira tatuagem, aos 18 anos”, disse ao VTV News. A jovem afirma que não se arrepende da escolha e que pretende, inclusive, continuar se tatuando.
O que está por trás
Para entender de onde vem esse pensamento, é preciso conhecer o termo red pill. A expressão surgiu em fóruns da internet inspirados no filme Matrix, dentro da lógica de que “tomar uma pílula vermelha” significaria despertar para uma suposta realidade escondida sobre relacionamentos e dinâmicas entre homens e mulheres.
Segundo a socióloga e cientista política Bruna Camilo, doutora e pesquisadora em gênero e misoginia, todos os grupos masculinistas podem ser entendidos como um “grande guarda-chuva da misoginia”, pois giram em torno da ideia de que o avanço dos direitos das mulheres teria reduzido o espaço e o poder dos homens na sociedade.
“O masculinismo incorpora essa ideia de enfrentamento ao que entendem como o sistema atual. Nesse contexto, o movimento red pill ganha força porque trabalha numa lógica muito específica, próxima da figura do coach, que aconselha e acolhe. Ele acolhe o ressentimento desses homens, justifica esse sentimento e oferece uma explicação para ele”, disse ao SBT News.
Entenda alguns termos do universo red pill
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Red Pill | Expressão inspirada no filme Matrix. Para os integrantes do movimento, significa “enxergar a verdade” sobre as relações entre homens e mulheres. Na prática, costuma ser usada para defender a ideia de que os homens estariam sendo prejudicados por mudanças sociais e pelo feminismo. |
| Blue Pill | Termo usado para se referir a quem não compartilha das crenças red pill. Essas pessoas seriam, segundo o grupo, “alienadas” ou incapazes de perceber a suposta realidade que eles dizem existir. |
| Machosfera | Conjunto de comunidades, fóruns, influenciadores e grupos online voltados a temas ligados à masculinidade. Nem todos os grupos são iguais, mas muitos compartilham críticas ao feminismo e visões rígidas sobre os papéis de gênero. |
| Red Flag | Expressão em inglês que significa “bandeira vermelha” ou “sinal de alerta”. É usada nas redes sociais para indicar comportamentos, características ou situações consideradas problemáticas em relacionamentos. Em grupos red pill, o termo também é empregado para apontar supostos traços femininos que, segundo eles, deveriam ser evitados pelos homens. |
| Alfa | Homem visto como dominante, confiante, bem-sucedido e capaz de atrair mulheres com facilidade. É tratado como um modelo ideal dentro desses grupos. |
| Beta | Homem considerado menos dominante, mais sensível ou submisso. Em comunidades red pill, o termo costuma ser usado de forma pejorativa. |
| Sigma | Figura popular na internet descrita como um homem independente, reservado e bem-sucedido, que não precisa liderar grupos para ter status. É uma adaptação recente da lógica “alfa e beta”. |
| Hipergamia | Teoria muito difundida entre grupos red pill segundo a qual as mulheres buscariam sempre parceiros com mais dinheiro, poder, status ou influência. Pesquisadores apontam que a ideia simplifica excessivamente as relações humanas. |
| MGTOW | Sigla para Men Going Their Own Way (“Homens seguindo seu próprio caminho”). Movimento formado por homens que defendem se afastar de relacionamentos sérios, casamento e, em alguns casos, da convivência com mulheres. |
| Incel | Abreviação de involuntary celibate (“celibatário involuntário”). Refere-se a homens que afirmam não conseguir estabelecer relações afetivas ou sexuais. Alguns grupos incel desenvolveram discursos de ressentimento e hostilidade contra mulheres. |
| Chad | Estereótipo do homem considerado extremamente atraente, popular e desejado pelas mulheres. É frequentemente citado em fóruns incel e red pill. |
| Coach de masculinidade (pick-up artists) | Influenciador que oferece conselhos sobre relacionamentos, autoestima e comportamento masculino. Muitos conteúdos red pill são difundidos por criadores que adotam esse formato de aconselhamento. |
| Valor de mercado sexual (SMV) | Conceito utilizado para classificar homens e mulheres com base em atributos como aparência física, idade, renda e status social. Especialistas criticam o termo por transformar relações humanas em uma lógica de mercado. |