Toda terça e quinta-feira, a Câmara de Santos, no litoral de São Paulo, realiza sessões ordinárias, nas quais são debatidos e votados assuntos de interesse do município. A sessão da tarde desta quinta-feira (15) foi marcada, entre outras coisas, pela manifestação de movimentos sociais contra uma homenagem proposta à Eduarda Campopiano (PL), eleita deputada estadual por São Paulo com mais de 1,9 milhão de votos.
Os votos de congratulações, como são chamadas as manifestações de reconhecimento feitas no parlamento, foram propostos pelo vereador Sérgio Santana (PL) em sessão realizada no último dia 8, quando ele argumentou que a eleição de Eduarda representou um avanço para a participação política da Baixada Santista.
“Com apenas 23 anos de idade, Eduarda alcançou a marca histórica de mais de 1,9 milhão de votos, sagrando-se a candidata mais votada para uma cadeira na Alesp. Esse resultado demonstra um enorme reconhecimento público e a confiança depositada pela população paulista”,
afirmou o vereador na justificativa.
Na mesma sessão, o vereador Benedito Furtado (PSB) criticou a homenagem devido a declarações atribuídas a Eduarda sobre feminicídio e violência contra as mulheres. “Esse requerimento tem que sair daqui, isso é uma vergonha para o nosso Parlamento. Duvido que os companheiros que são de direita pensem dessa forma”, disse.
O requerimento seria votado, mas provocou reações contrárias por parte dos vereadores Marcos Caseiro (PT) e Débora Camilo (PSOL). Débora, que também foi eleita deputada estadual, afirmou que Eduarda foi eleita com um “discurso de ódio e de extrema direita” e que “vai contra tudo aquilo que nós mulheres lutamos”.
Manifestação
Diante da possibilidade de Eduarda Campopiano, atualmente vereadora em Praia Grande, ser homenageada, lideranças da esquerda convocaram um ato de repúdio na Câmara de Santos, aderida por organizações como a União da Juventude Socialista (UJS) de São Paulo, a União Municipal dos Estudantes Secundaristas (UMES) de Santos e o Centro dos Estudantes da Baixada Santista (CES), além de partidos políticos de esquerda.

A reportagem apurou que cerca de 200 pessoas participaram do ato. O Plenário Dr. Oswaldo de Rosis, onde ocorreu a sessão ordinária, tem capacidade para 116 pessoas, segundo a Câmara de Santos. Por conta disso, a Casa Legislativa distribuiu senhas para controlar a quantidade de pessoas no espaço, em respeito ao Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB).
Segundo o secretário de comunicação do PT em Santos, Luís Henrique Fernandes, de 24 anos, algumas pessoas precisaram acompanhar a sessão do lado de fora do plenário porque não conseguiram entrar. “Sentimos um incômodo por parte de alguns vereadores por parecer que é melhor quando o plenário está vazio”, disse.
Os possíveis votos de congratulações a Eduarda Campopiano também foram alvo de críticas dos manifestantes. Ao VTV News, Luís Henrique classificou a homenagem como “um retrocesso enorme”.
“É ver a repercussão de falas criminosas como positivas. Se, Deus me livre, acontecesse algo com a filha ou a mulher de um desses vereadores, ele não compartilharia um vídeo da Eduarda Campopiano. É repugnante, nojento, grave e não faz sentido”,
afirmou.
Luís Henrique também criticou o que considera uma estratégia de representantes políticos para “fortalecer a extrema direita”. Imagens feitas pelo representante do PT mostram a mobilização dos manifestantes, que levaram cartazes – um deles diz que “a violência virou piada e a dor das mulheres virou deboche” (veja acima).
Homenagem retirada
Antes mesmo do início da 60ª sessão ordinária, o vereador Sérgio Santana retirou os votos de congratulações da pauta, impedindo que a homenagem fosse votada. Sem apresentar um motivo publicamente, ele também deixou a sessão. O VTV News procurou o vereador, mas não recebeu resposta até a última atualização deste texto.
Débora Camilo, por sua vez, publicou nas redes sociais que a retirada da proposta ocorreu após a “mobilização popular”. Para ela, “homenagear esse tipo de discurso é desrespeitar a luta histórica das mulheres”.
“Em um país em que quatro mulheres são mortas por dia, não podemos aceitar retrocessos na luta das mulheres nem a normalização de discursos machistas que reforçam a violência e a submissão. Homenagear esse tipo de discurso é desrespeitar a luta histórica das mulheres por dignidade, igualdade e pelo direito de viver sem violência”,
escreveu.

Quem é Eduarda Campopiano
Nascida em Campinas, em 22 de julho de 2003, Eduarda Campopiano (PL) é influenciadora digital e ganhou notoriedade com publicações de pautas conservadoras, alinhadas ao bolsonarismo. Ela entrou na política eleitoral em 2024, quando foi eleita vereadora de Praia Grande com 3.583 votos, aos 21 anos.
Na campanha para deputada estadual em 2026, Eduarda usou as redes sociais para defender posições como a valorização da família tradicional, princípios cristãos na política e o direito ao porte de armas. Também se posicionou contra o feminismo contemporâneo, políticas de cotas raciais e pautas da “cultura woke”.
A campanha foi marcada pelo uso da comunicação digital e recebeu cerca de R$ 755 mil, sendo mais de 90% do diretório nacional do PL, segundo dados da Justiça Eleitoral. Eduarda foi eleita com mais de 1,9 milhão de votos, tornando-se a candidata mais votada para a Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Durante a disputa, fez dobradinha com Lucas Pavanato (PL), eleito deputado federal com a maior votação da história do estado.




