Quem me conhece sabe que a minha infância não foi influenciada pelo futebol nacional. De ascendência italiana, o máximo que o meu avô materno e o meu pai conseguiram foi incutir nos seus netos e filhos que torcessem pelo Palmeiras, na época em que o jogador Ademir da Guia era um craque reconhecido e o clube prestigiado pela colônia italiana de São Paulo.
Mas, como diz o ditado, “pau que bate em Chico também bate em Francisco”: dos filhos do meu pai, a idolatria pelo Palmeiras acabou em menos de um ano. Já dos 8 netos do meu avô, apenas 3 continuaram a sua saga palmeirense, mas confesso que, como não os vejo há tempos, talvez essa paixão já tenha se dissipado, como acontece com todas as paixões.
Se a saga futebolística nacional era quase desprezada na família, o mesmo não se podia dizer quando a seleção brasileira entrava em campo. Como todo bom torcedor, juntávamos os amigos em casa ou no clube para torcer pela seleção, e não havia encontro que não terminasse numa grande festa.
Como era de se esperar, as copas sempre foram motivo de orgulho, festa e euforia, mas a de 1982 tornou-se motivo de decepção, horror e bullying (mesmo que essa expressão ainda não fosse usada com tanta frequência) para mim.
E tudo por conta de ser eu um homônimo do jogador italiano Paolo Rossi, que marcou 3 gols contra os 2 do Brasil na final do campeonato mundial e levou a Itália ao tricampeonato.
Contas feitas, se o jogador Paolo Rossi era considerado o carrasco do Brasil, eu mesmo (homônimo mais que provável) também sofri e tive a minha cota do rescaldo do ódio nacional.
Na época, fazia o cursinho Anglo, na rua Sergipe, e fui alvo, várias vezes, do famoso “corredor polonês”. Ou seja, socos e tapas na cabeça até entrar na sala de aula. Isso sem contar os inúmeros “dedos do meio” quando me viam e as vaias que recebia nos intervalos.
Se o clima era raivoso no cursinho, no colégio Dante Alighieri – de origem italiana –, onde terminava o terceiro ano colegial, virei quase uma subcelebridade. Todos batiam nas minhas costas em tom festivo e alguns, mais entusiasmados, diziam que eu fui o talismã da seleção italiana, porque quando me perguntavam se iria jogar bem, eu respondia, em tom de brincadeira: “Esperem pra ver”.
Profecia realizada e lições aprendidas, as outras copas foram ficando, pelo menos para mim, cada vez menos interessantes. Se havia algo de bom quando o país parava para ver o jogo era nadar no clube e encontrar uma piscina absolutamente deserta. Já os meus pais iam ao supermercado nessa hora.

Ou seja, nada de jogo, nada de torcida e, quando muito, alguns encontros pontuais, de preferência nas semifinais. Hoje, ouso dizer e confessar que, considerando a geopolítica mundial, a soberba dos EUA e de alguns presidentes que acreditam que mandam em tudo isto, o meu único desejo é que esta copa seja um retumbante fracasso. Na verdade, virei o Grinch da Copa.