A maior pesquisa já realizada no Brasil sobre valores e atitudes revelou um retrato multifacetado da sociedade brasileira, marcada por fé, conservadorismo, orgulho cultural e contradições profundas. Com base em quase 10 mil entrevistas, o livro Brasil no Espelho, do cientista político Felipe Nunes, lançado pela Globo Livros, sintetiza um país em transformação — dividido entre crenças tradicionais e anseios modernos, entre insegurança institucional e discursos punitivistas.
O estudo foi conduzido pela consultoria Quaest e estruturado em 137 indicadores distribuídos em 11 dimensões temáticas que vão da religiosidade à confiança nas instituições, passando por temas como família, honestidade, meritocracia e ideologia.
Segundo o autor, o resultado é um painel empírico e inteligível da alma brasileira, com desdobramentos para a formulação de políticas públicas e estratégias de comunicação mais adequadas ao perfil real da população.
“O livro revela em detalhe que não há um único Brasil, há vários”, afirmou Felipe Nunes. “Convivem aqui um país tão conservador quanto o Zimbábue e outro tão liberal quanto a Suécia — e é nessa tensão que vivemos”.

A pesquisa indica que o brasileiro médio continua pautado por valores como fé e família, expressando preferência por ideias conservadoras mesmo em meio a contradições morais e sociais. A população apresenta elevado orgulho cultural, mas carrega ressentimentos com o presente e desconfiança em relação ao futuro. Elementos como o punitivismo — a crença de que a punição severa ao outro é uma forma legítima de resolução — aparecem com força em diversos estratos da sociedade.
Para além da coleta de dados, a obra propõe dois novos eixos analíticos para compreender a identidade nacional. O primeiro classifica os brasileiros em nove segmentos ideológicos e comportamentais com base em suas “bolhas” de valores e aspirações: militantes de esquerda, extrema direita, conservador-cristãos, liberais sociais, progressistas, o agro, a classe DE, empresários e empreendedores individuais — a categorização rompe com os rótulos tradicionais da política e revela nuances no comportamento do eleitorado e do cidadão comum.
O segundo eixo reorganiza a população brasileira a partir de quatro gerações históricas, nomeadas conforme os contextos políticos e culturais em que foram formadas.
- A Geração Bossa Nova (1945–1964) carrega os traços da primeira democracia e do pós-Estado Novo;
- Geração Ordem e Progresso (1965–1984) foi moldada pela ditadura militar e pelo milagre econômico;
- Geração Redemocratização (1985–1999) cresceu sob o ideal do “Brasil do futuro”;
- Geração.Com (2000–2009), composta pelos primeiros nativos digitais, expressa valores mais fluidos e visão fragmentada de mundo. Cada grupo manifesta respostas distintas — e por vezes inconciliáveis — a temas como religião, política, trabalho e projetos de país.
A proposta é a de espelhar a sociedade brasileira tal como ela se enxerga — ou evita se enxergar:
“Este não é um livro sobre o que eu acho que é o Brasil ou como ele deveria ser. É um espelho objetivo sobre o Brasil que capturamos”, afirmou o autor.