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Mutirão: a solução que não resolve a vida de quem precisa do INSS

A estratégia pode aliviar momentaneamente as filas, mas não enfrenta o problema e nem traz solução definitiva
Atendimento de perícia médica do INSS para redução da fila de espera e avaliações sociais de segurados.

O anúncio de mais de 21 mil vagas para perícias médicas e avaliações sociais, realizadas nos dias 25 e 26 de abril, é relevante. Mas não pode ser vendido como solução estrutural para o fim da espera a que segurados são submetidos.

Quem busca o INSS tem pressa. Seja para um pedido de aposentadoria ou para um afastamento do trabalho, o segurado precisa ver seu requerimento analisado o quanto antes. Em muitos casos, a espera se arrasta por meses, tempo incompatível com quem depende do benefício para sobreviver.

Mutirão do INSS é solução temporária

Mutirão, portanto, é providência emergencial; não é política pública permanente. Afinal, ninguém quer ser indefinidamente avaliado, reavaliado e submetido a novas etapas burocráticas.

Ainda assim, esse tem sido o principal recurso utilizado para aparentar resposta rápida do sistema desde 2023.

O resultado é conhecido: as filas persistem e retiram a chance de oferecer eficiência e dignidade a quem procura o Estado porque precisa de uma resposta: conceder, indeferir ou indicar, de forma clara, o que ainda falta.

Mas será que é tão difícil encontrar saídas? Em países como Austrália, Países Baixos e Reino Unido, o desempenho público é medido por acesso, eficiência administrativa, equidade e tempo de resposta, não pelo número de etapas intermediárias.

A própria Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) acompanha esses sistemas por indicadores de qualidade, acesso e tempo de espera. Porque fila também é forma de negação de direito.

Modelo atual prioriza avaliação, não decisão

O INSS precisa avançar para mutirões de conclusão e não apenas de avaliação. Isso exige triagem inteligente dos processos, integração efetiva com bases do SUS, CadÚnico e vínculos previdenciários, presunção documental qualificada nos casos simples, prazos internos com responsabilização administrativa e decisão automática quando a prova já for suficiente.

No Brasil, entretanto, ainda se celebra a ampliação de “avaliações” como se o problema central fosse apenas marcar perícias. Não é.

O problema não está em avaliar mais, mas em decidir. O ponto central é concluir requerimentos com pragmatismo, diligência, técnica e responsabilidade social.

O modelo de gestão utilizado visa proteger o erário, evitar fraudes e preservar a sustentabilidade da Previdência. Mas essa proteção não pode se fragmentar em tantos filtros e exigências a ponto de transformar o caminho administrativo em obstáculo à própria proteção social.

O cidadão vulnerável não vive de protocolo, senha ou status “em análise”. Vive de renda, tratamento, alimento, remédio e dignidade. 

Quando a espera se prolonga, a Previdência deixa de ser amparo e passa a ser ausência; incapaz de proteger justamente quem dela mais depende.


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Autor

  • Cleiton Leal

    Advogado | Mestre em Direito Ambiental
    Professor de Direito do Trabalho e Previdência Social e Complementar
    Presidente da Comissão de Prerrogativas da OAB – Câmara Trabalhista
    Especialista em assuntos do mundo do Trabalho e da Seguridade Social

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Foto: Reprodução / X / @realmadrid

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