Muitos amigos e familiares me perguntam, quase que cotidianamente, qual a maior diferença entre viver em terras lusas e no Brasil.
Morando há praticamente 11 anos por aqui, posso afirmar, categoricamente, que a maior diferença é a percepção de escala entre um país com quase 220 milhões de habitantes e um país com pouco mais de 11 milhões.
Para que a questão de escala fique ainda mais evidente, é bom relembrar ao leitor que a cidade de São Paulo conta com praticamente 12 milhões de habitantes — a mesma quantidade de habitantes de todo Portugal. Ou seja, sempre vivi em uma cidade com 18 vezes mais população que todo o país luso.
Dito isso, é natural que a adaptação a uma vida menos tumultuada tenha sido um desafio enfrentado com surpresa e estranhamento.
Portugal tem um ritmo completamente diferente. Não que não haja pressa ou correria — nem tudo é perfeito por aqui, muito pelo contrário —, mas o ritmo é mais lento, mais cadenciado. Diria eu que o ritmo europeu tende ao slow motion e prioriza o viver no aqui e agora.
Esqueça atropelar os outros — e a nós mesmos — com demandas, muitas vezes desnecessárias e que não mudariam em nada se as tivéssemos realizado com mais calma e de forma menos atabalhoada. Precisei desacelerar para me adaptar e me alinhei ao fluxo da cidade e do país.
Tive algumas experiências interessantes e engraçadas que traduzem um pouco essas diferenças culturais e de estilo de vida.

A primeira delas foi a dicotómica batalha entre o barulho e o silêncio. Logo que cheguei por aqui, em um dia comum, andando a pé pela cidade, apercebi-me de que a buzina de um automóvel quebrou o silêncio de quase todo um dia.
A regra é o silêncio quase absoluto — ou, pelo menos, na grande maioria das vezes. A exceção é o barulho. Em São Paulo, nem é preciso dizer que a inversão desse conceito é a regra: o barulho impera e o silêncio quase não existe.
Se os decibéis da cidade te ajustam a um mundo mais sereno e te permitem ouvir o som do mundo que te cerca, a dependência das pessoas das redes sociais por aqui é bastante diferente. Tirando os profissionais do mercado, que são obrigados, por ossos do ofício, a estarem atrelados aos seus celulares como um apêndice do próprio corpo para promoverem seus projetos e trabalhos, os portugueses não fazem parte desses dependentes crônicos.
Esqueça estar em um restaurante e se deparar com alguém tirando fotos dos pratos do cardápio, fazendo fotos com o chef de cozinha ou na porta do restaurante estrelado. Aqui, a sensação de vergonha alheia é coisa séria. Aliás, sigo alguns amigos e familiares no Brasil e, muitas vezes, tenho a nítida impressão de que lhes faltam amigos e senso crítico que os impeçam de passar vergonha. Voilá: serão eles vítimas de um sistema ou já nem ligam em serem ridicularizados?

Por fim, e não menos importante, é muito comum encontrar as mesmas pessoas andando pela cidade. Esses encontros aleatórios dão a sensação de proximidade, muitas vezes perdida nas grandes cidades. Ora no seu bairro, ora no centro histórico, ou num restaurante ou ginásio, a escala diminuta de certa forma aproxima, reconforta e nos humaniza. Assim seja.