Mais de três meses depois de uma ocorrência policial terminar com duas mortes em Bragança Paulista, perguntas importantes sobre aquela noite ainda permanecem sem resposta. O VTV News teve acesso a documentos do inquérito e identificou pontos que ainda precisam ser esclarecidos para reconstruir a sequência dos acontecimentos.
O caso ocorreu em 9 de junho, na Rodovia Alkindar Monteiro Junqueira, quando uma perseguição policial terminou em acidente e troca de tiros. Morreram Antonio Marcos Civitanova, de 53 anos, que não tinha relação com a perseguição, e Matheus Marcos Ferreira Moreira Santos, de 26 anos, motorista do veículo perseguido.
Documentos analisados pelo VTV News apontam que, entre os principais pontos ainda apurados, estão a dinâmica da colisão, a sequência dos disparos, a atuação dos policiais e as circunstâncias que levaram às duas mortes.
O caso também é acompanhado pela Corregedoria da Polícia Militar. Segundo informações da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP), dois policiais envolvidos foram transferidos de unidade e afastados das atividades operacionais. O Inquérito Policial Militar (IPM) continua em andamento.
Uma perseguição que terminou em acidente
A ocorrência começou quando policiais do Batalhão de Ações Especiais de Polícia (BAEP) localizaram um Hyundai i30 que, segundo o boletim de ocorrência, era procurado por suspeita de envolvimento com crimes.
Os agentes deram ordem de parada, mas o motorista não teria obedecido e iniciou a fuga.
Em seguida, a perseguição passou pela Rodovia Dom Pedro I e chegou à Rodovia Alkindar Monteiro Junqueira, em Bragança Paulista.
Na altura do km 44, o Hyundai perdeu o controle e colidiu com um GM Astra conduzido pelo professor Antonio Civitanova.
O professor voltava para casa depois de passar por atendimento médico e acabou envolvido na ocorrência. Ele não era o alvo da perseguição.
A morte de Antonio ampliou as dúvidas sobre a ocorrência. Além de esclarecer o que aconteceu durante a abordagem ao veículo perseguido, as autoridades precisam determinar como o professor foi atingido em meio à ação policial.
O que aconteceu depois da colisão?
É justamente a sequência dos acontecimentos após o acidente que concentra uma das principais dúvidas do caso.
Segundo os relatos dos policiais registrados no inquérito, uma situação de baixa visibilidade, provocada por poeira e fumaça, ocorreu no local. Os agentes afirmaram ter ouvido disparos e reagido.
Os documentos analisados pelo VTV News registram que quatro policiais efetuaram 17 disparos durante a ocorrência: quatro com fuzis calibre 7,62 e 13 com pistolas calibre .40.
A perícia encontrou os estojos correspondentes aos disparos e também identificou vestígios de tiros no Astra conduzido por Antonio.
No entanto, os peritos não conseguiram reconstruir integralmente a dinâmica dos disparos.
Esse é um dos pontos que impedem, até o momento, uma conclusão definitiva sobre a sequência dos fatos.

O que a investigação ainda precisava esclarecer
Em julho, a Polícia Civil solicitou ao Instituto Médico Legal (IML) exames complementares sobre as duas mortes.
Com isso, os investigadores buscavam esclarecer tecnicamente o papel dos diferentes elementos da ocorrência nos óbitos.
Entre os questionamentos estavam a quantidade de ferimentos provocados por arma de fogo, a possibilidade de utilização de arma de alta energia e se os ferimentos relacionados aos disparos foram determinantes para as mortes.
Além disso, a Polícia Civil questionou se as lesões provocadas pela desaceleração decorrente do acidente poderiam, isoladamente, ter causado os óbitos.
O VTV News opta por não reproduzir detalhes dos exames necroscópicos que não sejam necessários para a compreensão do caso. O ponto relevante é que a própria Polícia Civil solicitou esclarecimentos complementares ao IML.
Família de Matheus contesta versão registrada no inquérito
Outro ponto que permanece marcado por versões diferentes é a participação de Matheus na ocorrência.
A versão apresentada pelos policiais é de que o jovem teria efetuado disparos contra a equipe depois da colisão, provocando a reação dos agentes.
Segundo os registros policiais, uma arma de fogo e drogas foram apreendidas durante a ocorrência. A investigação também registrou que parte da droga teria sido dispensada durante a fuga.
Familiares de Matheus, porém, contestam essa versão e afirmam que ele não estaria armado nem envolvido com o tráfico de drogas. A família também apresentou uma explicação diferente para a fuga, relacionada à falta de habilitação e ao receio diante da abordagem policial.
As alegações da família e os relatos dos policiais são versões distintas que precisam ser confrontadas com as demais provas produzidas durante a apuração.
Antonio estava no caminho da ocorrência
A situação de Antonio é outro elemento central para entender a dimensão do caso.
O professor de 53 anos não era o alvo da perseguição e dirigia seu próprio veículo quando acabou envolvido na ocorrência.
Segundo informações registradas no início da apuração, ele retornava para casa após passar por atendimento médico.
A perícia posteriormente analisou os veículos e a dinâmica da colisão. Os documentos apontaram que o Hyundai teria perdido o controle e atingido o Astra durante o movimento.
Ao mesmo tempo, os próprios peritos registraram que os elementos encontrados não permitiam reconstruir completamente toda a dinâmica do acidente.
A circunstância tornou a morte de Antonio um dos pontos que ainda precisam de esclarecimento.

Câmeras corporais: o que os documentos registram
O documento de instauração do IPM registra que quatro Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) vinculadas aos policiais foram recolhidas e encaminhadas à sede do batalhão para o upload das imagens.
Por outro lado, o registro documental do boletim de ocorrência daquela noite informa que o uso das câmeras corporais foi negado. O mesmo documento aponta que, naquele momento, ainda não era possível analisar diretamente a dinâmica da ocorrência por meio das gravações.
Dessa forma, os documentos consultados pelo VTV News não permitem afirmar que houve gravação da ação nem qual conteúdo, eventualmente, ficou registrado nas câmeras.
Investigação segue em andamento
Os documentos aos quais o VTV News teve acesso permitem reconstruir parte da noite de 9 de junho: houve uma perseguição, uma colisão, disparos efetuados por policiais e duas mortes. No entanto, a sequência exata dos acontecimentos ainda não está totalmente esclarecida.
Exames complementares, depoimentos e vestígios encontrados nos veículos devem ajudar a responder às questões que permanecem em aberto. Além disso, a perícia não conseguiu determinar completamente a dinâmica da ocorrência.
Procurado, o Ministério Público de São Paulo informou que o caso segue em fase de inquérito e que não há, no processo, registro sobre o afastamento dos policiais. A Polícia Militar confirmou a transferência dos agentes e o afastamento das atividades operacionais.
Segundo a corporação, o Inquérito Policial Militar (IPM) continua sob responsabilidade da Corregedoria, com acompanhamento do Poder Judiciário. Paralelamente, a Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Bragança Paulista também apura o caso.
A SSP-SP informou, por fim, que os laudos periciais ainda estão em elaboração.




