Antes de Hérculis Santiago ser morto a tiros e sua companheira, Beatriz Correia de Lacerda dos Santos, ser baleada dentro de um haras em Campinas, um conflito envolvendo a propriedade já havia chegado à Justiça e gerado registros policiais. O processo, que tramita na 5ª Vara Cível de Campinas, envolve uma disputa pela posse do imóvel e reúne relatos de ameaças e desentendimentos entre Hérculis e o vizinho Abdias Nogueira Ramos, de 73 anos, apontado pela Polícia Civil como principal suspeito do ataque.
O crime aconteceu na manhã de quinta-feira (1º), no Haras São Miguel de Arcanjo, na região do bairro Bosque das Palmeiras, na divisa entre Campinas e Jaguariúna. Hérculis morreu no local após ser atingido por um disparo na região do olho esquerdo. Beatriz foi baleada no abdômen enquanto estava com o filho de 1 ano nos braços e foi encaminhada ao Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp.
A Polícia Civil ainda investiga a autoria e a motivação do crime. Segundo informações apuradas pela equipe do VTV News junto ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a possível desavença entre os vizinhos é uma das linhas consideradas pelos investigadores.
Disputa envolvia uso da propriedade e cultivo de alimentos
Segundo informações do processo judicial, Hérculis teria firmado em 2021 um acordo verbal de arrendamento com Abdias. O caseiro alegava que passou a realizar melhorias no imóvel e a desenvolver atividades rurais no local.
Com o passar do tempo, porém, o relacionamento entre as partes se deteriorou. A ação apresentada por Hérculis envolve a posse da propriedade, além de pedidos relacionados ao reconhecimento de uma parceria rural e indenização.
A documentação também registra alegações de ameaças, dificuldades para permanecer no imóvel e problemas que teriam afetado o desenvolvimento das atividades realizadas pela família.
Entre os pontos investigados pela polícia está justamente a natureza do conflito entre os dois. Conforme relatado pela equipe da VTV que esteve no DHPP, pessoas ouvidas pelos investigadores mencionaram uma desavença relacionada ao espaço utilizado para o cultivo de alimentos. Entre as plantações havia mandioca.
Essa informação, porém, faz parte da linha de investigação e ainda não comprova que o conflito envolvendo a propriedade tenha sido a motivação do homicídio.
Relembre o caso:
- Homem é morto a tiros e mulher é baleada enquanto amamentava bebê em haras no interior de SP
- BO revela detalhes de ataque que matou caseiro e baleou mulher em haras em Campinas
Conflito também gerou boletins de ocorrência
A disputa não ficou restrita ao processo judicial. Documentos anexados à ação registram ocorrências policiais envolvendo as duas partes.
Hérculis registrou boletins em novembro e dezembro de 2025 relatando problemas relacionados à permanência da família na propriedade, ameaças e dificuldades para exercer as atividades rurais.
Em dezembro daquele ano, quando Beatriz estava grávida de oito meses, um novo episódio relacionado ao conflito teria provocado uma situação de emergência. Segundo as informações apresentadas no processo, ela precisou ser atendida no Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp.
Já em julho de 2026, foi Abdias quem procurou a polícia. O vizinho registrou uma ocorrência contra Hérculis por ameaça e posteriormente apresentou o documento no processo judicial, acompanhado de um pedido de medida de urgência para afastar o caseiro da propriedade.
Poucos dias depois, Hérculis fez um novo registro. Ele relatou o desaparecimento de um cachorro e afirmou que o cadeado do portão principal havia sido trocado, o que teria impedido a entrada da família no imóvel.
Polícia trata vizinho como principal suspeito
Depois do ataque, Abdias passou a ser considerado pela Polícia Civil como o principal suspeito. Ele deixou o local em um veículo e, até a última atualização, não havia sido localizado.
O delegado Rui Pegolo, responsável pela investigação, esteve no haras após o crime e também acompanhou a apuração no DHPP. Segundo informações repassadas pela equipe da VTV, os investigadores ainda não têm elementos conclusivos que comprovem a participação do vizinho nos disparos.
A polícia também tenta esclarecer se o ataque foi cometido diretamente por quem tinha o conflito com Hérculis ou se outras pessoas participaram da ação.

Beatriz ainda não conseguiu prestar depoimento
Uma das tentativas da investigação é ouvir Beatriz, que sobreviveu ao ataque. De acordo com informações obtidas pela equipe da VTV no DHPP, o delegado chegou a ir ao Hospital de Clínicas da Unicamp na tentativa de conversar com a vítima.
A intenção era descobrir se Beatriz conseguiu identificar alguma característica dos autores ou perceber o que aconteceu no momento em que os atiradores chegaram ao imóvel.
Entretanto, ela ainda não tinha condições de prestar depoimento e não apresentava lembranças suficientes sobre o ataque naquele momento.
A polícia aguarda, portanto, a evolução do quadro da vítima para tentar obter novas informações sobre a dinâmica do crime.
Investigação trabalha com diferentes possibilidades
Embora o conflito entre Hérculis e Abdias seja uma das linhas investigadas, a Polícia Civil ainda não estabeleceu que essa tenha sido a causa do ataque.
A investigação também busca descobrir quem efetuou os disparos, se houve participação de outras pessoas e qual teria sido a função de cada envolvido. A possibilidade de existência de mandantes, por exemplo, também não é descartada pelos investigadores neste momento.
Essa hipótese não significa que a polícia tenha identificado ou confirmado a existência de um mandante. Trata-se de uma possibilidade considerada dentro da investigação enquanto a dinâmica do crime ainda é apurada.
O caso é investigado pelo DHPP como homicídio consumado e tentativa de homicídio.
O que o processo pode esclarecer
Com a morte de Hérculis, a disputa judicial pela propriedade ganha uma nova dimensão. O processo poderá ajudar a esclarecer qual era exatamente a relação jurídica entre as partes, quais direitos cada uma reivindicava e quais decisões já haviam sido tomadas pela Justiça antes do ataque.
A ação também pode indicar se existiam medidas judiciais pendentes relacionadas à permanência da família no imóvel ou ao uso da propriedade.
Já a investigação criminal terá de estabelecer se esse conflito tem relação direta com o ataque ou se a motivação foi outra.
Até o momento, a existência da ação judicial, dos boletins de ocorrência e da desavença entre os vizinhos não comprova, isoladamente, a motivação do homicídio. A Polícia Civil ainda trabalha para reunir elementos que permitam esclarecer o crime e identificar todos os responsáveis.




