O motorista que avançou um semáforo vermelho e se envolveu em um acidente fatal com um jovem motociclista em Santos, na Baixada Santista, está prestes a ser levado a julgamento popular. João Pedro Donatone, de 19 anos na época do acidente, responderá pelo caso que resultou na morte de Caetano Ribeiro Aurungo, de 21 anos (assista ao vídeo abaixo).
Após meses de investigação e duas audiências de instrução, o juiz Bruno Nascimento Troccoli, da Comarca de Santos, decidiu pela pronúncia do réu para responder por homicídio com dolo eventual. Isso quer dizer que há indícios suficientes para levá-lo a julgamento, pois, mesmo sem a intenção direta de matar, ele agiu assumindo o risco de causar a morte.
Conforme noticiado anteriormente, o caso ocorreu na madrugada de 19 de outubro de 2024, no cruzamento das ruas Álvaro Alvim e Conselheiro Lafayette, no bairro Embaré. João Pedro cumpre medidas cautelares, incluindo o uso de tornozeleira eletrônica. Em mensagens após o acidente, ele chegou a mencionar estar “20 minutos antes da merda” acontecer.
A informação foi confirmada ao VTV News pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) nesta quinta-feira (18).
Laudo aponta conversas antes e depois do acidente fatal
Depoimentos colhidos pela Justiça apontaram que João Pedro dirigia em alta velocidade e teria consumido álcool antes do acidente. Embora o exame clínico realizado no Instituto Médico Legal (IML) tenha dado negativo para embriaguez, mensagens no celular do réu indicam o uso de bebida naquela noite.
No laudo pericial, feito pelo Instituto de Criminalística (IC) a pedido da Polícia Civil, foi constatada a atividade de João nas redes sociais entre os dias 18 e 19 de outubro. Ele trocou mensagens com pelo menos quatro amigos, alguns instantes antes e depois do acidente fatal.
As conversas, obtidas pela equipe de reportagem, mostram que João esteve em uma casa noturna e falava sobre o uso de álcool. Em um trecho, um amigo comenta que levaria água para o “álcool cair”. Após o impacto, João teria assumido que furou o sinal vermelho e pediu segredo sobre o ocorrido (leia a seguir).
Trocas de mensagens incluem álcool, alta velocidade e “a merda” anunciada
Em uma das conversas analisadas é possível ler que João recusou um convite para ir a São Paulo, explicando que já havia reservado um camarote em uma casa noturna de Santos. A troca de mensagens ocorreu em 18 de outubro, um dia antes do acidente. No mesmo diálogo, ele combinou com o amigo um encontro na cidade para o dia seguinte.

Outra conversa revelou que João e um amigo estavam dirigindo em trajetos semelhantes pouco antes da colisão. Durante a troca de mensagens, os dois comentaram sobre o acidente, chegando a atribuir a responsabilidade ao motociclista atropelado. Foi nesse momento que o amigo mencionou levar água para ajudar no efeito do álcool.

Após o impacto, João enviou uma foto com a legenda “eu 20 min antes da merda”, referindo-se ao próprio estado antes do acidente. Depois disso, pediu ao amigo que mantivesse segredo sobre a imagem e o ocorrido. Em outra conversa, admitiu ter avançado o sinal vermelho e colidido com a motocicleta.

O que dizem os advogados?
Os advogados e assistentes de acusação Yuri Cruz e Matheus Miranda, que representam a família de Caetano, consideraram a decisão do juiz “correta e necessária”. Segundo eles, as provas indicam que o réu agiu com dolo eventual, assumindo o risco de causar a morte do jovem motociclista.
Em nota enviada, a defesa destacou ainda que a conduta do acusado, que avançou o sinal vermelho em alta velocidade e sob efeito de álcool, demonstra indiferença à vida humana. Para os advogados, a submissão do caso ao Tribunal do Júri é fundamental para garantir a justiça.
Procurada, a defesa de João Pedro Donatone não se manifestou até a publicação desta reportagem. Segundo fontes jurídicas, a defesa pode recorrer da decisão em recurso em sentido estrito, o que pode adiar a data do júri até o julgamento desse recurso pelo Tribunal de Justiça. Caso a decisão seja mantida, o júri popular será então pautado.
Saiba quem era Caetano
Caetano Ribeiro Aurungo era estudante de Engenharia da Computação e morava com os avós paternos no bairro Aparecida, junto com seus dois irmãos mais novos, de 14 e 11 anos. Em entrevista à VTV, afiliada do SBT, a avó contou que tinha a guarda legal das crianças, mas que todos mantinham contato frequente com os pais biológicos, mesmo morando com ela.
O pai de Caetano faleceu em agosto após adoecer, mas semanas antes já havia voltado a morar com a mãe, o que permitiu maior convívio com o jovem. Segundo a avó, Caetano estava feliz com essa aproximação, que acabou interrompida pela doença e pela tragédia que se seguiu.