A morte da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada com um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava com o marido, em São Paulo, passou a ser investigada como feminicídio. A mudança ocorreu após decisão da Justiça que determinou nova linha de investigação com base em laudos periciais recentes.
Inicialmente, o caso havia sido registrado como suicídio, mas a versão começou a ser questionada pela família da vítima, e um novo exame necroscópico (realizado após a exumação do corpo) identificou lesões no rosto e no pescoço da policial. De acordo com os peritos, há indícios de que Gisele pode ter desmaiado antes do disparo e não apresentou sinais de defesa.
Com a nova determinação judicial, o marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, passou à condição de investigado. Ele estava no apartamento no momento da morte e foi quem acionou os serviços de emergência na manhã de 18 de fevereiro.
Contradições chamam atenção
Depoimentos de socorristas e testemunhas levantaram dúvidas sobre a versão apresentada pelo oficial. Uma vizinha relatou à polícia ter ouvido um estampido por volta das 7h28, cerca de meia hora antes da primeira ligação feita pelo marido ao serviço de emergência, registrada às 7h57, quando ele afirmou que a esposa havia tirado a própria vida.
Minutos depois, às 8h05, ele entrou em contato com o Corpo de Bombeiros dizendo que a mulher ainda respirava. As equipes chegaram ao local às 8h13.
Socorristas também relataram estranhamento com a cena encontrada no apartamento. Um dos profissionais afirmou que a arma estava “bem encaixada” na mão da vítima, algo incomum em casos de suicídio, o que fez com que ele registrasse uma foto.
Outro ponto citado foi o estado do marido. O tenente-coronel afirmou que estava no banho quando ouviu o disparo, mas bombeiros disseram que ele estava completamente seco e que não havia marcas de água no chão do apartamento. O chuveiro estava ligado, mas não havia sinais de que alguém tivesse acabado de sair do banho.
Além disso, socorristas relataram que o oficial aparentava calma incomum diante da situação e não apresentava marcas de sangue no corpo ou nas roupas, o que indicaria que ele não teria tentado prestar socorro à esposa.
Outras circunstâncias sob análise
Investigadores também analisam uma ligação feita pelo tenente-coronel para o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do Tribunal de Justiça de São Paulo. Segundo a defesa da família da vítima, o magistrado teria sido uma das primeiras pessoas acionadas após o disparo.
Imagens de câmeras de segurança do prédio ainda mostram a entrada de três policiais militares femininas no apartamento cerca de dez horas após a morte da policial. Segundo testemunhas, elas teriam ido ao local para realizar a limpeza do imóvel. As agentes devem ser ouvidas durante a investigação.
Defesas se manifestam
A defesa do tenente-coronel afirma que ainda não teve acesso aos novos laudos periciais e sustenta que se trata de um caso de suicídio, não de feminicídio. Os advogados também destacaram que não há pedido de prisão contra o oficial até o momento.
Já a Secretaria da Segurança Pública informou que o caso segue sendo investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM, sob sigilo judicial.
Uma reunião entre investigadores, peritos e integrantes do Ministério Público deve analisar novos laudos e a partir dessa etapa, a polícia poderá decidir se pedirá ou não a prisão do tenente-coronel.