Há algo que sempre me chama a atenção quando observo a relação das pessoas com a informação atualmente. Nunca tivemos tantos dados disponíveis e com tamanha facilidade de acesso. Sabemos em segundos como está o trânsito, qual é a previsão do tempo, quanto choveu, como está uma apuração eleitoral e uma infinidade de outras informações que antes dependiam de diferentes fontes para chegar até nós. Basta olhar para o celular, abrir um aplicativo ou acessar um portal de notícias. Só que essa abundância de dados parece produzir também uma necessidade cada vez maior de explicação. O dado está ali, acessível e muitas vezes atualizado em tempo real, mas queremos entender o que ele significa, quais são seus impactos e como aquilo se relaciona com a nossa realidade.
As eleições são um ótimo exemplo disso. Hoje os principais portais de notícias conseguem apresentar uma apuração praticamente em tempo real, com percentuais, votos computados, mapas, desempenho por cidades e estados e uma enorme quantidade de informações que chegam ao público por meio de integrações automatizadas. Não precisamos mais esperar alguém anunciar um resultado para saber como está determinada disputa. Podemos acompanhar a evolução diretamente pela tela. Mas uma coisa interessante acontece justamente quando esses números começam a aparecer: cresce também a procura pelo rádio. Foi exatamente esse movimento que conseguimos enxergar no último domingo (4), durante a apuração do primeiro turno das Eleições 2026.
Como mostramos nesta semana no tudoradio.com, o interesse pelo termo “rádio” no Google atingiu seu nível máximo justamente por volta das 17h, faixa em que começava a apuração. Também observamos um crescimento expressivo no próprio tudoradio.com, que registrou avanço de 240% em sua audiência no domingo eleitoral. E esse comportamento é particularmente interessante porque o pico não aconteceu durante a manhã ou no período de votação, apesar de o rádio permanecer bastante movimentado ao longo de todo o dia com prestação de serviço, informações dos locais de votação, entrevistas e entradas ao vivo. O movimento ganhou força justamente quando os primeiros resultados começaram a aparecer.
Para mim, aí está uma das partes mais interessantes dessa história. Ao mesmo tempo em que milhões de brasileiros passaram a ter os números diante dos olhos, aumentou a procura pelas rádios. Não vejo esses dois comportamentos como concorrentes. Pelo contrário. A facilidade de acompanhar a apuração parece caminhar junto com a necessidade de compreender aquilo que está aparecendo na tela. O eleitor vê que determinado candidato está crescendo, mas quer entender de onde vêm esses votos. Quer saber quais regiões já foram apuradas, o que explica determinada vantagem, como aquele resultado está repercutindo e quais são as leituras possíveis daquele cenário. E muitas vezes procura essas respostas junto aos comunicadores e às emissoras com os quais já mantém uma relação cotidiana.
Isso não é exclusividade desta eleição. É um comportamento que percebemos a cada ciclo eleitoral e que naturalmente ganha ainda mais força nas disputas municipais. Quando estão em jogo prefeitos e vereadores, a proximidade é enorme e o interesse pela cobertura local fica ainda mais clara. Mas isso também acontece nas eleições gerais. Deputados estaduais e federais possuem bases regionais, a disputa pelo governo interessa diretamente à população de cada estado e até uma eleição presidencial, por mais nacional que seja, desperta uma série de questões locais. Como minha cidade votou? Como minha região se comportou? O candidato que liderou nacionalmente também venceu aqui? Por que determinada região apresentou um resultado diferente? Um acontecimento pode ser nacional, mas a maneira como ele afeta e interessa às pessoas continua tendo um componente fortemente local.
E esse raciocínio não vale apenas para eleições. Temos hoje aplicativos capazes de mostrar o trânsito praticamente em tempo real. Temos a previsão do tempo disponível na tela do celular e em vários outros dispositivos conectados. Recebemos alertas meteorológicos, vemos mapas de chuva, sabemos onde existe congestionamento e conseguimos acessar uma quantidade enorme de informações sem depender de uma emissora para obter o dado inicial. Só que saber que uma avenida está congestionada não necessariamente explica o que aconteceu, quais são as alternativas ou como aquela situação está afetando determinada região. Da mesma forma, saber que existe previsão de chuva não encerra o interesse pelo assunto quando há risco de temporais, alagamentos, queda de temperatura ou qualquer situação capaz de interferir diretamente na rotina das pessoas.
É justamente por isso que vejo esses componentes ganhando uma importância diferente dentro da programação do rádio. Não porque sejam novos. Meteorologia, trânsito, eleições, prestação de serviço e informação local sempre fizeram parte da história do meio. O que mudou foi a relação do público com o dado. A tecnologia facilitou enormemente o acesso à informação e, ao fazer isso, acabou ressignificando o valor da explicação. Se o ouvinte já sabe que determinada via está congestionada, a rádio pode ajudá-lo a entender o motivo e as alternativas. Se ele já viu a previsão de uma tempestade, a emissora pode mostrar o que está acontecendo nos diferentes pontos da cidade. Se acompanha os percentuais de uma eleição pela tela, pode recorrer ao rádio para compreender o que aqueles números representam.
Isso também reforça uma característica que considero fundamental para o rádio: o localismo. E não estou falando apenas de emissoras com uma programação 100% local. Uma afiliada de rede também tem a possibilidade de combinar conteúdos nacionais com informações, prestação de serviço, comunicadores e análises relacionadas diretamente à região em que está inserida. É justamente essa capacidade de aproximar grandes acontecimentos da realidade cotidiana das pessoas que ajuda a explicar por que determinados assuntos continuam tão importantes dentro da programação. O dado pode estar disponível para todos e até ser nacional, mas a pergunta de quem está ouvindo muitas vezes continua sendo bastante próxima: o que isso significa para mim, para minha cidade e para a minha região?
Há ainda outro aspecto interessante nos números que observamos durante a eleição. O comportamento que conseguimos medir com maior precisão é o digital. Conseguimos enxergar as buscas no Google, os acessos ao tudoradio.com e a procura pelas rádios através das plataformas conectadas. É claro que isso não significa que possamos transportar automaticamente um percentual de crescimento observado na internet para o dial, já que são métricas e formas de medição diferentes. Mas considero bastante razoável entender esse movimento digital como parte de um comportamento mais amplo de interesse pelo rádio, que provavelmente também se manifesta através da recepção terrestre.
É justamente aí que essa discussão também conversa com aquilo que temos chamado de Rádio 3.0. Digital e dial não precisam ser tratados como universos separados. O streaming, os aplicativos, os agregadores, os sites das emissoras e outras formas de distribuição conectada ampliam os caminhos para chegar ao mesmo conteúdo e às mesmas marcas que também estão presentes no dial. Em momentos de grande interesse informativo, isso fica ainda mais claro. O ouvinte procura a rádio que conhece, o comunicador em quem confia ou a cobertura que considera relevante e chega a esse conteúdo pelo caminho que estiver mais conveniente naquele momento.
Talvez essa seja uma das imagens mais interessantes deixadas pelo primeiro turno das Eleições 2026 para o nosso setor. Às 17h, os números começaram a ocupar as telas e, junto com eles, cresceu a procura pelo rádio. Quanto mais acessível ficou o dado, mais evidente parece ter ficado a necessidade de compreendê-lo. E vejo nisso uma oportunidade importante para o meio. A abundância de informação não diminuiu necessariamente o espaço para assuntos que historicamente fazem parte da programação radiofônica. Em muitos casos, ela ressignificou esse espaço. O dado chega cada vez mais rápido. Explicá-lo, contextualizá-lo e aproximá-lo da realidade das pessoas passou a ter ainda mais valor.




