Na COP 30, em Belém, o IBI Social levou para o maior evento climático do mundo um problema ainda desconhecido pela maior parte do país: o escalpelamento. O acidente acontece quando o cabelo das meninas ribeirinhas se enrola no motor das pequenas embarcações usadas como transporte escolar ou familiar.
“Como elas têm o cabelo comprido, ele prende no motor do barquinho… e arranca o cabelo e a pele. São danos para a vida inteira” explicou a presidente do Instituto, Eliane Cotovio Sammarco. Ela destacou que o tema é pouco visível para quem vive longe da realidade amazônica.

O IBI Social alerta que, apesar das iniciativas já existentes, a solução ainda não chegou às famílias. A Marinha distribuiu capas protetoras para os motores, mas a medida não se mostrou eficaz. “Não adianta só a capa. Eles tiram o motor, tiram a capa, voltam, não colocam de novo. É tudo muito informal. A gente precisa de uma solução estruturante… e é aí que entra o IBI” avaliou a presidente.
A proposta apresentada em Belém é desenvolver um novo modelo de motor, já projetado para impedir o contato com partes móveis. A tecnologia está sendo discutida com o Senai Simatec da Bahia, que possui um estudo técnico inicial para adaptar o equipamento à rotina ribeirinha.
“O Senai Simatec já desenvolveu um pré-projeto. Eu estou com eles aqui na COP para desenhar um protótipo. A gente quer um motor novo, seguro, que elimine o risco. Não é só colocar uma capa… é resolver de verdade” reforçou Eliane.

O Instituto articulou um grupo que reúne Marinha do Brasil, Ministério de Portos, Antaq, Ministério das Cidades, Casa Civil e entidades que acompanham vítimas. A iniciativa culmina, durante a COP, no anúncio de um acordo de cooperação técnica envolvendo Ministério de Portos, Ministério Público e órgãos reguladores para transformar o tema em prioridade nacional.
“A gente percebe que cada órgão tem um pedaço da solução. O IBI está aqui para juntar as partes. Quando todo mundo trabalha sozinho, nada acontece. Mas agora estamos conseguindo alinhar esforços” afirmou a presidente, destacando a necessidade de integração entre governo e setor privado.
O modelo que está sendo desenvolvido deve ser financiado por linhas de crédito verde e entregue às comunidades ribeirinhas junto com ações de geração de renda e conscientização. A vulnerabilidade social, explica Eliane, é um dos fatores que agravam o problema e dificultam a prevenção.
A agenda do IBI na COP inclui visitas a casas de acolhimento e encontros com especialistas em Cultura Oceânica. O objetivo é ampliar políticas de proteção às comunidades e impedir que novas crianças sofram acidentes que poderiam ser evitados com engenharia, planejamento e política pública.
“O IBI não vem para reinventar nada. Vem para fazer funcionar o que já deveria existir. Se já tentaram vários projetos e nada avançou, agora é o momento de unir forças e finalmente resolver” concluiu Eliane Sammarco.
