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EXCLUSIVO: idoso prensado por trator morre após ser liberado pelo HC Unicamp

Paciente de 68 anos passou por três unidades públicas antes de morrer por suspeita de embolia gordurosa.
EXCLUSIVO: alta precoce da Unicamp pode ter custado a vida de idoso prensado por trator

O mecânico Usadino José Vieira Filho, de 68 anos, morreu na noite de quarta-feira, 29 de outubro, em Bragança Paulista (SP). O idoso faleceu após ter sido internado por complicações decorrentes de um acidente com trator na cidade de Morungaba, onde prestava um serviço no dia 23 de outubro. No entanto, a trajetória de internação até seus últimos dias de vida foram conturbados. Segundo a filha, Bruna de Paiva, o pai foi submetido a dois processos de alta e três transferências em menos de 48 horas – sendo a primeira alta ratificada pelo Hospital das Clínicas da Unicamp (HC).

O acidente aconteceu quando o idoso realizava a manutenção em um trator que estaria engatado; a roda dianteira subiu sobre sua cintura, prensando parte da barriga. O socorro foi acionado por um caseiro que presenciou o incidente. 

A família narrou à reportagem do VTVNews que Usadino, morador de Tuiuti, foi encaminhado ao Hospital Municipal de Morungaba, onde recebeu medicação e o diagnóstico inicial de fratura. Segundo a nota da prefeitura, Usadino foi de fato atendido em Morungaba com “sinais vitais normais”, além de ter confirmado que o idoso passou por exames.

Família denuncia alta precoce

Segundo a família – após cinco horas de espera, e devido ao politrauma – Usadino foi transferido ao Hospital das Clínicas da Unicamp, em Campinas, com queixas de dores persistentes. 

Lá, passou por quatro exames de imagem e, segundo a família, recebeu uma possível alta precoce – o idoso foi liberado de volta à Morungaba mesmo com drenagem de sangue e necessidade de morfina para aliviar a dor. Apresentando sintomas graves como dor intensa e sangramento urinário, o idoso foi liberado para continuar os tratamentos em casa.

Bruna estranhou a liberação médica e solicitou um relatório formal da equipe da Unicamp, no qual foi descrito a “ausência de urgência” no caso de Usadino. Ainda no corpo do relatório, foi dada a orientação para que o idoso fosse transferido de volta à Morungaba.

Em nota, o HC Unicamp escreveu brevemente de que a alta médica foi discutida para o retorno à Morungaba: “foi acompanhado [o paciente] com todos os protocolos, com suporte de exames laboratoriais e de imagem. A alta médica foi discutida entre a equipe multidisciplinar para o retorno à unidade secundária de origem e com todas as orientações sobre as condutas conservadoras, inclusive a lesão extra peritoneal.”

O hospital não respondeu aos questionamentos acerca da liberação do paciente, mesmo diante do quadro de lesão extra peritoneal, nem sobre os critérios para avaliar a “ausência de urgência” no caso.

Relatório médico dado à família de Usadino cita a "ausência de urgência" e permissão para retornar ao hospital de origem
O relatório médico dado à família de Usadino cita a “ausência de urgência” e permissão para retornar ao hospital de origem (Foto: Arquivo pessoal)

Ao retornarem para Morungaba, a filha de Usadino solicitou um segundo relatório médico, que, segundo ela, foi negado. “Eles falaram que não iam fazer [o relatório] porque o da Unicamp já tinha dado. E disseram que ele já estava de alta, que a gente tinha que tirar ele de lá”, relatou Bruna.

Segundo a nota enviada pela prefeitura, a cidade de Morungaba seguiu as orientações da Unicamp para buscá-lo: “A Unicamp entrou em contato e, mesmo a despeito do paciente que residia em Tuiuti, solicitou que Morungaba – que referenciou o mesmo – enviasse ambulância para retira-lo, porque estava de alta da emergência. Informaram que ele então deveria ser levado ao seu município e, de lá, à sua referência [Tuiuti] para a continuidade dos trabalhos. Algo que foi prontamente feito por Morungaba.”

De volta à Morungaba, segundo os familiares, o hospital ratificou a alta da Unicamp, afirmando que não havia mais o que ser feito e recomendando repouso domiciliar. A filha, novamente, questionou a conduta diante do quadro clínico: “Repouso em casa, com um paciente idoso, cardiopata, com fratura, sangrando, usando sonda e morfina?”.

De Morungaba a Tuiuti, de Tuiuti a Bragança 

Antes de Usadino ser enviado à cidade natal, o vereador Haroldo Mariano, de Tuiuti, interveio em uma tentativa de auxiliar a filha do idoso. Segundo ele, o caso de Usadino merecia maior atenção do HC. O vereador afirmou ao VTVNews que tentou ligar para Unicamp a fim de explicar que a situação do senhor era delicada, além de que a cidade de Morungaba não tinha condições de tratar um caso com tamanha complexidade. 

“A médica [da Unicamp] se recusou a falar comigo, e mandou o idoso para o hospital de origem”, comentou o vereador. Haroldo se mostrou surpreso com a alta dada pelo HC da Unicamp e a pela falta de atenção do profissionais.

Para contornar a situação, Haroldo sugeriu ao hospital municipal de Morungaba que aguardasse uma noite com Usadino nas dependências do local, para no dia seguinte ser levado à Tuiuti.

Já pela manhã, Usadino foi levado à unidade de saúde de sua cidade natal, onde recebeu o quarto encaminhamento, agora para o Hospital Universitário São Francisco (Husf), em Bragança Paulista. Lá, segundo os familiares, os exames indicaram possível perfuração da bexiga, lesão nos rins e o início de um quadro de embolia gordurosa, com agravamento progressivo.

No domingo, 26 de outubro, passou a usar oxigênio. No dia seguinte, foi transferido à UTI por queda na saturação. Dois dias depois, sofreu uma parada cardiorrespiratória e, por fim, faleceu às 20h. O Instituto Médico Legal classificou o caso como “morte suspeita”, e uma biópsia pulmonar foi solicitada. A causa oficial da morte de Usadino será constatada nos próximos dias.

“O que não me conformo é o meu pai receber alta sem nenhuma observação maior. Os médicos sabiam das chances de embolia”, afirmou Bruna.

A filha finalizou, contestando a falta de documentação médica adequada e a recusa das unidades em que passaram inicialmente em manter o paciente sob observação. “Tudo isso se resume em doença da alma humana”, declarou.

Raio-X de Usadino tirado em Bragança Paulista no dia 25 de Outubro mostra revertério na pélvis do idoso
Raio-X de Usadino tirado em Bragança Paulista no dia 25 de outubro mostra um revertério na pélvis do idoso (Foto: Arquivo pessoal)

Detalhes dos exames de Usadino na Unicamp

  • Os exames de tomografia da própria Unicamp obtidos pela reportagem revelam que o hospital identificou múltiplas fraturas na bacia de Usadino e um rompimento da bexiga, com extravasamento de urina confinado à região pélvica.
    • Um raio-x feito mais tarde na Husf mostra com mais detalhes uma mancha escura na mesma região analisada (imagem acima).

  • A tomografia do tórax revelou contusões pulmonares (machucados no pulmão) compatíveis com “sequelas consolidadas”, porém, segundo o exame médico, sem evidências de colapso do pulmão (pneumotórax) ou de líquido ao redor dos pulmões (derrame pleural); 

Por outro lado, as tomografias do crânio e da coluna cervical não detectaram fraturas nem lesões neurológicas agudas, exibindo apenas sinais de alterações degenerativas.

Os exames de Usadino chamam atenção para os resultados da tomografia do abdome e do tórax
Os exames de Usadino chamam atenção para os resultados da tomografia do abdome e do tórax (Foto: Arquivo Pessoal)

O que diz a lei? Existe responsabilização?

O VTVNews procurou especialistas para comentarem sobre um possível grau de responsabilização do Hospital das Clínicas da Unicamp, da médica que concedeu a alta inicial e a transferência, ou até mesmo do Hospital Municipal de Morungaba, que reforçou a liberação.

Segundo o advogado cível, Ismael Pereira, há possibilidade de responsabilidade por parte dos hospitais que concederam a alta diante do quadro clínico de Usadino: “Tratando-se de hospital público, a responsabilidade é objetiva, nos termos do art. 37 da Constituição Federal. Basta a comprovação da conduta, seja de ação ou omissão, do dano e do nexo causal, sendo desnecessária a discussão de culpa da administração hospitalar.”

Segundo Ismael, a comprovação do nexo causal deve ser feita por meio de uma perícia médica, ou com base na análise de todos os prontuários médicos. Ele finalizou dizendo que o laudo pericial deverá atestar se o quadro clínico do paciente liberado era incompatível com a alta, o que configuraria imprudência.

Prefeitura de Morungaba alega cumprimento de protocolo

Em nota enviada pela Prefeitura de Morungaba, o paciente chegou consciente, com sinais vitais estáveis e que foi prontamente encaminhado à Unicamp, por se tratar de caso de politrauma. Leia a nota na íntegra:

O paciente Usadino José Vieira Filho, 66 anos [sic], foi recebido pelo resgate como vítima de queda de um trator. Estava lúcido, com sinais vitais normais, porém com queixa de dor pélvica.

Foram feitos vários RX da área e analgesia. Devido ao politrauma, foi removido e transferido rapidamente para a referência, Unicamp.

No dia seguinte, 24/10, a Unicamp entrou em contato e, mesmo a despeito do paciente informar que residia em Tuiuti, solicitou que Morungaba – que referenciou o mesmo – enviasse ambulância para lhe retirar, porque estava de alta da emergência.  Informaram que ele então deveria ser levado ao seu município e, de lá, à sua referência para a continuidade dos trabalhos. Algo que foi prontamente feito por Morungaba.

O paciente chegou no Hospital Municipal às 20h33 onde permaneceu até a manhã do dia seguinte, pois, Tuiuti informou que à noite não teria condições de buscá-lo.

Então, na manhã do dia 25 de outubro, o paciente foi levado para a sua cidade, quando se encerrou a participação da equipe hospitalar de Morungaba no caso.

Nota na íntegra da Unicamp

Em relação ao caso do paciente U.J.V.F a instituição esclarece que o paciente deu entrada dia 04/11 [sic] e foi acompanhado com todos os protocolos com suporte de exames laboratoriais e de imagem. A alta médica foi discutida entre a equipe multidisciplinar para o retorno à unidade secundária de origem e com todas as orientações sobre as condutas conservadoras inclusive a lesão extra peritonial [sic].


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Autores

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

  • Camila Borges dos Santos

    Jornalista formada pela Universidade Paulista em 2023, com experiência em apuração, produção de pautas, apresentação e cobertura de matérias jornalísticas em diferentes formatos.

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