Indicação visual de conteúdo ao vivo no site
Indicação visual de conteúdo ao vivo

Governo anuncia maior pacote de concessões ferroviárias da história recente

Plano prevê bilhões em investimentos , mas histórico de abandono ainda gera cautela
Plano prevê bilhões em investimentos , mas histórico de abandono ainda gera cautela

O governo federal anunciou a maior carteira de concessões ferroviárias da história recente do país, com oito projetos previstos entre 2026 e 2027, investimentos estimados em R$ 140 bilhões e a ampliação de cerca de 9 mil quilômetros de ferrovias. A proposta integra a primeira Política Nacional de Outorgas Ferroviárias e foi apresentada durante o roadshow Ferrovias Brasil.

O plano busca reduzir a dependência do transporte rodoviário, ampliar a participação das ferrovias na matriz logística e melhorar o escoamento da produção nacional. Na prática, o governo aposta em uma combinação de concessões tradicionais, chamamentos públicos e autorizações, incluindo projetos considerados estratégicos e outros que ainda enfrentam desafios de viabilidade econômica, ambiental e regulatória.

Para o diretor presidente do Instituto Brasileiro de Infraestrutura, o IBI, Mário Povia, o anúncio representa um avanço importante depois de um longo período de estagnação no setor ferroviário.
Bom, primeiro uma retomada, né, dos investimentos ferroviários no Brasil. Nos últimos anos. A gente já tem aí obras relevantes que já vinham sendo tocadas, algumas inclusive com orçamento da União, e que viraram concessões, com investimentos”, afirmou.

Cronograma ambicioso e concentração de leilões

O cronograma apresentado pelo Ministério dos Transportes prevê a publicação de editais e a realização de leilões de grandes corredores ferroviários entre 2026 e 2027. Estão na lista projetos como Corredor Minas Rio, Anel Ferroviário Sudeste, Malha Oeste, Corredor Leste Oeste, Ferrogrão e trechos da Malha Sul, com foco nas regiões Sul, Sudeste, Centro Oeste e Norte do país.

A concentração de leilões em um intervalo curto de tempo chama a atenção do setor e levanta dúvidas sobre a capacidade do mercado de absorver todos os projetos. Mesmo com o volume expressivo de recursos anunciados, há avaliação de que nem todos os trechos devem atrair interessados de imediato.

O ministro dos Transportes anunciou oito leilões para 2026, com investimentos de cerca de 140 bilhões em CAPEX, envolvendo 9 mil quilômetros de ferrovias. É um anúncio ousado, a gente fica otimista, mas é preciso acompanhar de perto para ver o que, de fato, vai sair do papel”, avaliou Povia.

Mario Povia – diretor presidente do IBI/ Imagens: Gabriel Almeida

Cargas e regiões mais beneficiadas

O pacote ferroviário mira principalmente cargas que hoje dependem quase exclusivamente das rodovias. Estão entre os principais produtos o agronegócio, com grãos, celulose, proteína animal e fertilizantes, além do transporte de minérios.

Segundo Povia, a migração dessas cargas para os trilhos é fundamental para reequilibrar a matriz logística do país.
As cargas tradicionalmente movimentadas nas rodovias serão as mais beneficiadas. Estamos falando de agronegócio, grãos, mas também celulose, proteína animal, fertilizantes e minérios”, destacou.

Estados com déficit histórico de ferrovias, como Bahia e os estados do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, aparecem entre os principais beneficiados. A expectativa é reduzir custos logísticos, aumentar a eficiência do escoamento e diminuir a pressão sobre as rodovias.

Um passado de retrocesso nos trilhos

Apesar do avanço no planejamento, o setor ainda convive com um histórico de abandono das ferrovias no Brasil. Para Mário Povia, o país perdeu parte significativa da sua malha ferroviária ao longo das últimas décadas ao priorizar quase exclusivamente o transporte rodoviário.

A gente andou para trás com as ferrovias, realmente. Desde os governos dos anos 60, no chamado milagre econômico, o Brasil foi muito para as rodovias e acabou deixando a questão ferroviária de lado. Isso muito em função de um modelo estatal que não deu certo e da interrupção abrupta das operações da rede ferroviária”, afirmou.

Segundo ele, esse passado precisa ser considerado no desenho das novas concessões, para evitar que trechos já existentes sejam novamente abandonados e para garantir que os investimentos tenham continuidade no longo prazo.

Novo modelo regulatório e autorizações

A Política Nacional de Outorgas Ferroviárias traz mudanças importantes no modelo regulatório. Além das concessões tradicionais, o governo amplia o uso do modelo autorizativo, inspirado na lógica dos terminais portuários privados, permitindo a implantação de ramais ferroviários por meio de chamamento público.

A Agência Nacional de Transportes Terrestres publicou a Resolução nº 6.058 de 2024, que estabelece regras para as chamadas Ferrovias Inteligentes. O modelo permite a revitalização de trechos ociosos, não implantados ou em processo de devolução, desde que haja interesse público e viabilidade técnica e econômica.

Alguns trechos vão ser viabilizados mediante chamamento. Se houver mais de um interessado, você faz uma espécie de leilão. Se houver um único interessado, você assina a outorga e permite a implantação dos ramais, as chamadas short lines, conectando trechos existentes”, explicou Povia.

Integração logística e novos usos da ferrovia

Outro ponto central do plano é a integração das ferrovias com portos, hidrovias e terminais multimodais. A lógica é concentrar grandes volumes de carga para tornar o transporte ferroviário competitivo.

Quando você viabiliza um trecho, você começa a pensar em multimodalidade. A carga precisa chegar nessa ferrovia, passar por terminais, descarregar em portos e depois seguir o caminho inverso. Esses investimentos são fundamentais”, destacou o diretor presidente do IBI.

O governo também sinaliza a retomada do transporte ferroviário de passageiros, principalmente em trechos onde a carga não apresenta viabilidade econômica imediata. A proposta envolve parcerias público privadas, receitas acessórias e possível aporte da União, mas ainda depende de regulamentação e estudos específicos.

Avanço no papel, execução decisiva

O pacote ferroviário representa um avanço importante no planejamento e na estrutura regulatória do setor. No entanto, especialistas avaliam que o sucesso do programa dependerá da execução dos projetos, da segurança jurídica e da capacidade de atrair investidores para todos os trechos previstos.

Para um país ainda fortemente dependente das rodovias, os trilhos voltam ao centro do debate. O desafio agora é transformar o planejamento anunciado em obras concretas e evitar que o Brasil volte a andar para trás quando o assunto é ferrovia.


Continua após a publicidade

Autor

  • Maycon Leão

    Correspondente da VTV em Brasília. Direto da capital federal, atualiza os bastidores da politica e as movimentações que afetam nossa região.

VEJA TAMBÉM

Foto: Raphael Silvestre /Guarani

Após três anos, Guarani volta a liderar uma competição nacional

Panorama urbano de Santos, cidade que apresenta um dos menores índices de desperdício de água tratada no Brasil.

Santos tem o 2º menor desperdício de água entre as maiores cidades do Brasil

Jogadores do Flamengo em campo, representando o elenco rubro-negro impactado pelas convocações para a Copa do Mundo de 2026.

Ranking de clubes com mais convocados para a Copa; veja os brasileiros

Eduardo Bolsonaro

STF libera para julgamento ação contra Eduardo Bolsonaro por atuação em tarifaço

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com

Gostaria de receber as informações da região no seu e-mail?

Preencha seus dados para receber toda sexta-feira de manhã o resumo de notícias.