A cidade de Santos receberá, no próximo sábado (14), um evento dedicado à literatura e à cultura palestina. A jornalista e pesquisadora Soraya Misleh participa do lançamento do livro Uma história das mulheres palestinas, em atividade que integra o Sarau Palestina Livre. O encontro será realizado às 16h, na Livraria Realejo, espaço tradicional da cena cultural santista.
Organizado pelo Coletivo Palestina Livre da Baixada Santista, o sarau propõe uma tarde de leituras, debates e troca de reflexões sobre a produção literária palestina. Além da apresentação da obra, o público poderá participar de uma conversa com a autora e contribuir com leituras de textos da tradição literária do país.
A proposta do encontro é destacar a riqueza da literatura palestina, marcada pela forte presença da poesia, dos contos e dos romances, além de promover um espaço aberto para a participação do público interessado no tema.
Literatura como forma de resistência
No livro, Soraya Misleh investiga a trajetória histórica das mulheres palestinas e sua participação nos processos de resistência cultural e política diante da colonização. A obra aborda tanto o período da dominação britânica quanto o contexto do conflito envolvendo Israel, que já ultrapassa sete décadas.
A autora analisa como a literatura se tornou um instrumento de expressão e resistência para diferentes gerações de mulheres palestinas. Em meio a contextos políticos adversos, escritoras, jornalistas e intelectuais construíram espaços de debate e produção cultural que atravessaram diferentes momentos da história da região.
De acordo com Misleh, já no século XIX existiam círculos literários organizados por mulheres, conhecidos como salons, onde eram discutidos temas como feminismo, colonialismo e transformações sociais. Esses encontros reuniam intelectuais e artistas interessados em debater questões políticas e culturais que impactavam o Oriente Médio.
Pesquisa reúne escritoras e intelectuais palestinas
A obra é resultado da pesquisa de doutorado da autora em Estudos Árabes na Universidade de São Paulo (USP). O estudo percorre um período que vai da segunda metade do século XIX até a década de 1960, reunindo histórias de escritoras e intelectuais que contribuíram para a formação da literatura palestina moderna.
Entre as figuras analisadas estão autoras como May Ziadeh, responsável por um influente salão literário que reunia pensadores e artistas para discutir literatura e política. O espaço ficou conhecido por incentivar debates sobre questões sociais e culturais da época.
Outros nomes destacados são Samira Azzam, conhecida por sua produção de contos e romances realistas, e Najwa Kawar Farah, autora de textos que transitam entre poesia, autobiografia e narrativa ficcional.
A pesquisa também resgata trajetórias menos conhecidas, como a da jornalista e escritora Sadhij Nassar, considerada a primeira mulher palestina enviada a um campo de prisioneiros britânico durante a revolta árabe de 1936 a 1939.
Memória preservada em registros históricos
Outro destaque apresentado no livro é a trajetória de Karimeh Abbu, considerada a primeira fotógrafa palestina. Conhecida como “Dama Fotógrafa”, ela registrou imagens de comunidades e paisagens da Palestina no início do século XX.
Segundo a autora, muitos desses registros ganharam relevância histórica décadas depois, já que parte dos locais fotografados deixou de existir em decorrência das transformações provocadas pelos conflitos e deslocamentos populacionais.
As fotografias, que haviam sido perdidas durante a saída forçada da artista da região, foram posteriormente redescobertas e resgatadas, tornando-se documentos importantes para a preservação da memória cultural palestina.
Protagonismo feminino em meio ao conflito
A autora também aborda o papel contemporâneo das mulheres palestinas em meio ao contexto de guerra e crise humanitária. Mesmo diante das dificuldades, Misleh destaca que elas continuam desempenhando funções fundamentais na manutenção da vida social e cultural da comunidade.
Segundo a pesquisadora, além de atuarem em atividades cotidianas de sobrevivência, muitas mulheres continuam produzindo arte, literatura e jornalismo, buscando registrar e compartilhar a realidade vivida pela população.
Nesse cenário, a literatura permanece como uma forma de resistência e preservação da memória coletiva, conectando as experiências atuais às trajetórias históricas das mulheres que marcaram a cultura palestina ao longo dos séculos.
Trajetória da autora
Soraya Misleh é jornalista palestino-brasileira, especialista em Globalização e Cultura e doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo. Ela também atua como coordenadora da Frente Palestina de São Paulo.
Entre suas obras está o livro Al Nakba – um estudo sobre a catástrofe palestina, que analisa os acontecimentos de 1948, quando centenas de milhares de palestinos foram deslocados de seus territórios durante a criação do Estado de Israel.
Filha de palestinos, Misleh relata que sua família foi diretamente impactada pelos acontecimentos históricos da região. Seu pai, por exemplo, tinha 13 anos quando foi obrigado a deixar a aldeia onde vivia durante o episódio conhecido como Nakba, termo árabe que significa “catástrofe”.

Serviço
Evento: Lançamento do livro Uma história das mulheres palestinas
Data: Sábado, 14 de março
Horário: 16h
Local: Livraria Realejo – Av. Marechal Deodoro, 2, Santos (SP)
Entrada: Evento aberto ao público