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Maria da Penha: a lei que mudou a luta contra a violência doméstica no Brasil

Legislação criada após condenação internacional do Brasil se tornou um dos principais instrumentos de proteção às mulheres e segue influenciando políticas públicas e debates sobre direitos humanos
Representação do combate à violência doméstica e proteção dos direitos humanos das mulheres no Brasil.

A violência doméstica é uma das formas mais persistentes de violação de direitos humanos no Brasil. Ao longo das últimas décadas, o país avançou na criação de mecanismos legais para proteger mulheres vítimas de agressão. Nesse contexto, um dos marcos mais importantes desse processo foi a criação da Lei Maria da Penha.

Sancionada em 2006, a legislação estabeleceu novos parâmetros para o enfrentamento da violência doméstica e familiar, ampliando a proteção às vítimas e responsabilizando agressores de forma mais rigorosa. Desde então, a norma passou a orientar políticas públicas, decisões judiciais e campanhas de conscientização em todo o país.

Mais do que uma norma jurídica, a Lei Maria da Penha tornou-se símbolo de uma transformação social. Seu nome homenageia a farmacêutica e ativista Maria da Penha Maia Fernandes, cuja história de violência e busca por justiça expôs falhas no sistema judicial brasileiro e impulsionou mudanças legislativas profundas.

Quase duas décadas após sua criação, a legislação continua sendo referência no enfrentamento da violência contra a mulher. Ao mesmo tempo, o tema permanece no centro do debate público, sobretudo diante dos desafios para garantir proteção efetiva às vítimas e combater a desinformação sobre o caso que deu origem à lei.

A história de violência que mudou a legislação brasileira

A origem da lei está ligada a um caso que marcou a história dos direitos das mulheres no país.

Em 1983, Maria da Penha sofreu duas tentativas de homicídio cometidas por seu então marido, Marco Antônio Heredia Viveiros.

No primeiro ataque, ela levou um tiro nas costas enquanto dormia. A agressão provocou lesões irreversíveis na coluna e na medula, deixando-a paraplégica.

Na época, o agressor alegou que o disparo teria ocorrido durante uma tentativa de assalto à residência do casal. Posteriormente, perícias desmentiram essa versão.

Meses depois, quando Maria da Penha voltou para casa após um longo período de recuperação hospitalar, sofreu uma nova tentativa de assassinato. Segundo relatos do processo, o marido a manteve em cárcere privado e tentou eletrocutá-la durante o banho.

Esses episódios revelaram um ciclo de violência doméstica que se desenvolveu ao longo de anos de relacionamento.

Uma luta por justiça que durou quase duas décadas

Após as agressões, Maria da Penha iniciou uma longa batalha judicial.

O primeiro julgamento ocorreu apenas em 1991 — oito anos depois do crime. Na ocasião, a Justiça condenou o agressor, mas ele permaneceu em liberdade após apresentar recursos.

Um novo julgamento aconteceu em 1996 e resultou em uma pena de 10 anos e seis meses de prisão. Ainda assim, novos recursos prolongaram o processo judicial.

Diante da demora, o caso ganhou repercussão internacional.

Em 1998, Maria da Penha levou a denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão vinculado à Organização dos Estados Americanos.

Três anos depois, em 2001, a comissão responsabilizou o Estado brasileiro por negligência e omissão no combate à violência doméstica.

A decisão representou um marco histórico e pressionou o país a adotar medidas mais eficazes para proteger mulheres vítimas de violência.

Como surgiu a Lei Maria da Penha

A condenação internacional levou o Brasil a reformular sua legislação.

Após debates entre organizações feministas, juristas e especialistas em direitos humanos, foi elaborado um projeto de lei específico para combater a violência doméstica.

O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a proposta em 2006, criando oficialmente a Lei nº 11.340.

A legislação trouxe mudanças importantes. Entre elas estão a criação de medidas protetivas de urgência, a possibilidade de prisão preventiva do agressor e a implantação de juizados especializados.

Além disso, a norma estabeleceu que a violência doméstica deve ser tratada como um problema público e não apenas como um conflito familiar.

O que diz a Lei Maria da Penha?

A Lei Maria da Penha estabelece mecanismos para prevenir, punir e erradicar a violência doméstica e familiar contra a mulher.

  • A legislação reconhece cinco tipos principais de violência:
  • Violência física
    Agressões que causem dano ou sofrimento corporal.
  • Violência psicológica
    Ameaças, humilhações, manipulação emocional e controle da vida da vítima.
  • Violência sexual
    Qualquer prática sexual sem consentimento.
  • Violência patrimonial
    Destruição ou retenção de bens, documentos ou recursos financeiros da vítima.
  • Violência moral
    Calúnia, difamação ou injúria.

Entre as principais medidas previstas estão as chamadas medidas protetivas de urgência, que podem incluir:

  • afastamento imediato do agressor
  • proibição de contato com a vítima
  • suspensão do porte de armas
  • proteção policial
  • encaminhamento da vítima para serviços de apoio psicológico e jurídico

Além disso, a lei prevê a criação de delegacias especializadas, juizados de violência doméstica e redes de atendimento para mulheres em situação de risco.

A trajetória de Maria da Penha como ativista

Após sobreviver às tentativas de homicídio e enfrentar anos de disputa judicial, Maria da Penha passou a atuar como ativista na defesa dos direitos das mulheres.

Em 1994, publicou o livro Sobrevivi… posso contar, no qual relata sua história e denuncia as dificuldades enfrentadas por vítimas de violência doméstica no Brasil.

Posteriormente, ela fundou o Instituto Maria da Penha, organização dedicada à promoção de políticas públicas de prevenção à violência contra mulheres.

Desde então, a ativista participa de campanhas educativas, debates e iniciativas voltadas à conscientização sobre o problema.

Cronologia do caso que deu origem à lei

  • 1974
    Maria da Penha conhece Marco Antônio Heredia Viveiros durante o mestrado na Universidade de São Paulo.
  • 1976
    O casal se casa e passa a viver em Fortaleza.
  • 1983
    Maria da Penha sofre duas tentativas de homicídio.
    Na primeira, leva um tiro nas costas enquanto dormia.
    Na segunda, o marido tenta eletrocutá-la durante o banho.
  • 1991
    A Justiça condena o agressor no primeiro julgamento, mas ele permanece em liberdade após recursos.
  • 1994
    Maria da Penha publica o livro Sobrevivi… posso contar.
  • 1996
    Novo julgamento condena o agressor a mais de 10 anos de prisão.
  • 1998
    O caso chega à Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
  • 2001
    O Brasil é responsabilizado internacionalmente por negligência no combate à violência doméstica.
  • 2006
    O país sanciona a Lei Maria da Penha.
  • 2009
    Maria da Penha funda o Instituto Maria da Penha.

Caso recente reacende debate

Nos últimos dias, a história de Maria da Penha Maia Fernandes voltou ao centro do debate público após a Justiça do Ceará aceitar denúncia do Ministério Público do Estado do Ceará contra quatro pessoas acusadas de promover ataques e divulgar conteúdos considerados falsos sobre o caso que deu origem à Lei Maria da Penha.

Entre os denunciados está o ex-marido da ativista, Marco Antônio Heredia Viveiros, condenado pelas tentativas de homicídio ocorridas em 1983. Segundo o Ministério Público, ele e outros envolvidos teriam participado da produção e divulgação de materiais na internet que questionam a versão judicial do caso e tentam desacreditar a vítima.

A investigação começou após a divulgação de um documentário que apresenta uma narrativa alternativa sobre os acontecimentos. De acordo com a denúncia, o material utiliza documentos e interpretações contestadas para sustentar a tese de que a história teria sido distorcida.

Entre os elementos analisados está um exame de corpo de delito apresentado no documentário. Perícia realizada pela Perícia Forense do Estado do Ceará apontou indícios de manipulação no documento.

Também foram denunciados o influenciador digital Alexandre Gonçalves de Paiva, o produtor audiovisual Marcus Vinícius Mantovanelli e o editor Henrique Barros Lesina Zingano.

Em nota, o Instituto Maria da Penha afirmou que campanhas de desinformação sobre o caso representam uma tentativa de distorcer fatos já analisados pela Justiça e por organismos internacionais, além de contribuir para desacreditar vítimas de violência doméstica.

Uma lei que continua moldando políticas públicas

Quase 20 anos após sua criação, a Lei Maria da Penha segue sendo considerada um dos principais instrumentos de combate à violência doméstica no Brasil.

Especialistas apontam que, embora a legislação tenha ampliado a proteção às vítimas e fortalecido políticas públicas, ainda existem desafios importantes. Entre eles estão a ampliação da rede de atendimento e o combate à cultura de tolerância à violência.

Nesse contexto, a trajetória de Maria da Penha demonstra como uma experiência individual de violência pode se transformar em um movimento coletivo por justiça e provocar mudanças estruturais na forma como a sociedade enfrenta a violência contra mulheres.

Denúncia e apoio às vítimas

Casos de violência doméstica podem ser denunciados gratuitamente pelo telefone 180, canal nacional de atendimento à mulher que funciona 24 horas por dia em todo o país. O serviço oferece orientação, encaminhamento para redes de proteção e registro de denúncias, inclusive de forma anônima. Especialistas reforçam que a denúncia é uma ferramenta essencial para interromper ciclos de violência, proteger vítimas e responsabilizar agressores. Quanto mais cedo a violência é denunciada, maiores são as chances de garantir segurança e acesso à rede de apoio prevista na Lei Maria da Penha.


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Autor

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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