A cena é conhecida: jogo tenso, mesa cheia de petiscos, cerveja na mão. Parece só diversão, e é. Mas enquanto você torce, seu organismo está respondendo a tudo isso de um jeito que vai além do prazer do momento.
Quando o jogo aperta, seu sistema nervoso entra em estado de alerta. O corpo libera cortisol, o hormônio do estresse, como se estivesse diante de uma ameaça real. E uma das respostas automáticas a esse estado é buscar comida.
Não qualquer comida, o cérebro sob estresse quer açúcar, gordura e sal. Alimentos que geram prazer rápido.
Isso é um mecanismo neurobiológico. O cortisol ativa o sistema de recompensa do cérebro e cria uma demanda real por alimentos palatáveis, mesmo quando você não está com fome de verdade.
O problema é o que esse excesso faz no organismo. Sob estresse, a resposta à insulina fica amplificada, a glicose sobe mais rápido e o corpo tende a armazenar o excesso calórico, especialmente como gordura visceral, a mais associada a risco metabólico e cardiovascular.
E o álcool?
Já o que o álcool faz no seu metabolismo vai além da ressaca, o fígado trata o álcool como prioridade absoluta.
Quando você bebe, ele para tudo o que estava fazendo, incluindo regular a glicose, para metabolizar o álcool primeiro. Toda a gordura consumida junto com a bebida vai, preferencialmente, para o estoque.
O álcool reduz a sensibilidade à insulina nas primeiras horas após o consumo, eleva os triglicerídeos, aumenta marcadores de inflamação no sangue, como a proteína C-reativa. Em doses repetidas ao longo de semanas, como acontece durante a copa do mundo, esses efeitos se somam. E isso acontece mesmo em pessoas sem nenhum histórico de prejuízo hepático.
Há ainda outro efeito do álcool, ele reduz o funcionamento do córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável pelo autocontrole. Na prática, isso significa que sob efeito do álcool você tende a comer mais, escolher alimentos mais calóricos e perceber menos o que está consumindo.
O total da noite quase sempre é maior do que parece no momento.
O estresse
O estresse da partida gera vontade de buscar alimentos não saudáveis, o álcool reduz o freio. O excesso eleva a inflamação e prejudica o sono. No dia seguinte, o organismo está mais irritável, mais inflamado e mais vulnerável ao estresse, justo a tempo do próximo jogo.
Uma Copa dura quase um mês. Quatro semanas desse ciclo deixam marcas metabólicas reais.
Aproveite os jogos para entender o que está acontecendo e para fazer escolhas com mais consciência.
- Comer algo com proteína antes da partida reduz a vontade de comer durante o jogo.
- Alternar bebida álcool com água diminui a absorção e o volume total consumido.
- Reconhecer que aquela vontade de beliscar no segundo tempo pode ser cortisol, e não fome, já muda a relação com o comportamento.
E que no final, a taça venha para o Brasil!