O jovem de 21 anos que escondeu um celular em um banheiro feminino para filmar mulheres em um prédio corporativo de Santos, no litoral de São Paulo, aproveitou o intervalo do estágio para cometer o crime. O caso aconteceu no início deste mês e é investigado pela Polícia Civil após a denúncia de duas vítimas.
Conforme apurado pelo VTV News junto à Polícia Civil, o suspeito estagiava em uma empresa de consultoria empresarial instalada no edifício, que está localizado no bairro da Aparecida. O complexo reúne diversas salas comerciais e informou, em nota, que o jovem foi “conduzido à delegacia pelas autoridades responsáveis”.
À reportagem, o delegado responsável pela investigação, Wagner Camargo Gouveia, informou que o jovem cumpria uma jornada de seis horas, com expediente iniciado pela manhã e encerrado à tarde. Foi durante o intervalo, por volta das 13h, que ele se dirigiu ao banheiro feminino adaptado para pessoas com deficiência.
Imagens do circuito interno de segurança mostram o momento em que o suspeito caminha até o banheiro com um celular nas mãos e entra no local sem levantar suspeitas (veja abaixo). O VTV News também apurou que ele retornou ao banheiro mais de uma vez para verificar se o aparelho permanecia registrando imagens.
A empresa onde o suspeito prestava serviço foi procurada pelo VTV News nesta sexta-feira (17) para informar se adotou alguma medida em relação ao caso, mas não se manifestou até a última atualização desta reportagem.
Denúncia
De acordo com o relatório de investigação, elaborado pelo 3º Distrito Policial (DP) de Santos, duas mulheres – que terão as identidades preservadas – encontraram o celular escondido embaixo da pia do banheiro feminino, próximo à parede e com a câmera apontada diretamente para o vaso sanitário. O caso ocorreu em 3 de julho.
- Primeira vítima: relatou que, ao perceber o aparelho no local, fotografou e gravou vídeos da cena para preservar as provas e apresentá-las à Polícia Civil. Em depoimento, afirmou que a forma como o celular estava posicionado evidenciava a “intenção deliberada de registrar imagens íntimas” das mulheres.
- Segunda vítima: declarou que havia utilizado o banheiro pouco antes da descoberta do aparelho e acredita ter sido filmada sem consentimento. Ela também informou que o celular apresentava sinais de funcionamento recente e estava aquecido, “reforçando a convicção de que permanecera em operação por período significativo”.
Ainda não se sabe por quanto tempo o aparelho permaneceu gravando nem quantas mulheres podem ter sido vítimas da ação. Segundo o documento, porém, as duas denunciantes manifestaram interesse na responsabilização criminal do autor, que foi identificado e abordado pela Polícia Civil 11 dias após o crime.
Mandados
A partir da denúncia, a Polícia Civil obteve acesso às imagens do circuito interno de segurança do edifício e reconstituiu, de forma cronológica, a movimentação do suspeito. Com as diligências, os investigadores conseguiram identificá-lo “de forma segura”, conforme consta no relatório da investigação.
Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP), policiais civis cumpriram, na terça-feira (14), mandados de busca e apreensão no prédio comercial, onde o jovem foi localizado e conduzido à delegacia, e também na casa dele, na Rua Barão de Paranapiacaba, no bairro Encruzilhada. Em depoimento, o investigado reconheceu que era o homem registrado pelas câmeras e confirmou ser o proprietário do celular encontrado no banheiro.
Durante as buscas, foram apreendidos um celular, um computador, um notebook e outros dispositivos eletrônicos que passarão por perícia para verificar a existência de possíveis outros crimes. Os policiais também localizaram quatro simulacros de arma de fogo, sendo dois deles sem a ponteira laranja obrigatória de identificação.

De acordo com a Polícia Civil, o investigado forneceu as senhas dos equipamentos apreendidos, autorizando a extração dos dados. O caso foi registrado como crime de registro não autorizado da intimidade sexual, previsto no artigo 216-B do Código Penal. Como a infração é considerada de menor potencial ofensivo, ele foi liberado após prestar depoimento, e o procedimento foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal (Jecrim).
Outro crime
Conforme apurado, o suspeito já havia sido indiciado pelo mesmo crime há pouco mais de dois anos, quando, na ocasião, segundo o boletim de ocorrência (BO), ele tentou captar imagens íntimas de uma criança ao filmá-la por baixo da porta de um banheiro feminino em um restaurante de fast-food, no bairro Gonzaga.
Ao saber do ocorrido, a avó da menina cobrou providências do estabelecimento. Uma funcionária chegou a chamar o jovem para que saísse do banheiro, mas, em um primeiro momento, não obteve resposta. Quando deixou o local, ele alegou que havia entrado para vomitar porque estava passando mal. Ele não foi preso.
Segundo o advogado criminalista Renan Lourenço – que não atua no caso – o crime de registro não autorizado da intimidade sexual normalmente não resulta em prisão, já que a pena prevista varia de seis meses a um ano de detenção, além de multa. “O investigado responde ao processo em liberdade, salvo se houver circunstâncias excepcionais que justifiquem a prisão, como o descumprimento de medidas cautelares”, explicou.

Comportamento voyeurístico
O jovem afirmou à Polícia Civil que desenvolveu um “comportamento voyeurístico” – prazer sexual em observar pessoas em situações íntimas sem consentimento – após anos de consumo excessivo de pornografia. Esse seria o motivo pelo qual faz acompanhamento psicológico e psiquiátrico para controlar os impulsos.
“[O suspeito] confessou que acoplou o celular para que pegasse as imagens das mulheres no vaso sanitário, só que ele alega que era para satisfazer a própria lascívia. É um prazer dele verificar as mulheres naquele momento íntimo no banheiro, não para vender mas para uso próprio”,
disse o delegado.
O investigado também declarou fazer uso de medicamentos psiquiátricos que podem provocar lapsos de memória e episódios de amnésia parcial. Por isso, afirmou não se lembrar de como o celular foi parar no banheiro. A defesa dele ainda não foi localizada pelo VTV News, mas o espaço permanece aberto.
O que é voyeurismo?
De acordo com a psicóloga Marina Tranzillo, o voyeurismo é caracterizado pela busca de excitação sexual ao observar pessoas em situações íntimas sem que elas tenham conhecimento ou deem consentimento.
A especialista explica que não existe uma causa única para esse tipo de comportamento, e o voyeurismo pode estar relacionado a uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como dificuldades no controle dos impulsos, padrões de aprendizagem sexual, busca por novidades e distorções cognitivas.
Sobre a possibilidade de tratamento, Marina afirma que existem abordagens capazes de controlar os impulsos e reduzir o risco de novos episódios. “O tratamento é baseado em evidências, combinando a psicoterapia e, em alguns casos, a parte medicamentosa com acompanhamento psiquiátrico”, explicou. Segundo ela, os resultados dependem do reconhecimento do problema, da motivação do paciente e da adesão ao tratamento.
A psicóloga também ressalta que o consumo de pornografia, isoladamente, não explica esse tipo de crime. De acordo com ela, estudos indicam que o uso compulsivo pode funcionar como fator de risco em pessoas vulneráveis, mas não estabelece uma relação direta de causa e efeito. “A grande maioria das pessoas que consome pornografia nunca desenvolverá comportamentos criminosos ou invasivos”, concluiu.
