Bruno Reis dos Santos, de 27 anos, morreu após desmaiar dentro de uma caixa-d’água subterrânea durante o trabalho em uma obra no bairro Vila Mathias, em Santos, no litoral de São Paulo. Outros dois trabalhadores também passaram mal depois de tentarem socorrê-lo. O caso aconteceu nesta terça-feira (1º).
Conforme apurado pelo VTV News, Bruno estava no primeiro dia de trabalho na construção realizada pela empresa De.sign Construções e Incorporações, na Rua Silva Jardim. À reportagem, o funcionário Tiago Matheus afirmou que Bruno entrou na estrutura por volta das 8h20, após uma ordem do mestre de obras.
Segundo Tiago, Bruno desmaiou pouco depois de entrar. O trabalhador relatou que a caixa-d’água fica no subsolo da obra e estava fechada, e afirmou que também passou mal ao tentar resgatar a vítima.
“O Bruno caiu e o ajudante dele me chamou, precisando de ajuda, para mim resgatar ele porque ele estava desmaiado dentro do poço. Foi quando eu fui lá, peguei a perna dele e consegui arrastar um pouco mais pra frente do poço, só que eu já estava passando mal por conta do gás e minha vista apagou”,
disse à repórter Eliane Antunes, da VTV SBT.
Ao sair do local, Tiago afirmou ter visto extensões sobre o corpo de Bruno e inicialmente imaginou que o colega tivesse sofrido uma descarga elétrica. Segundo o trabalhador, ele desligou a energia da obra e, na sequência, o ajudante de Bruno entrou na estrutura para tentar resgatá-lo, mas também desmaiou.
“Chamei o mestre de obras e ele mandou descer mais um [no poço]. Nessa que o moleque desceu, ele também desmaiou e ficou os três por cima do corpo do [Bruno]. Liguei para o resgate e conseguimos tirar os três”.
Bruno morreu, mas os outros dois foram socorridos e encaminhados para atendimento médico.

Falta de EPIs
Ainda em entrevista, Tiago denunciou que os trabalhadores da obra não contavam com equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras ou cilindros de oxigênio – equipamento de proteção respiratória adequados. Ele também pontuou que, apesar da Polícia Militar (PM) ter encontrado uma máscara dentro da caixa-d’água, o item não estava disponível para os funcionários durante a execução do trabalho.
“Não tinha máscara, não tinha nada. Isso daí é tudo mentira. Pra descer ali, tinha que ter pelo menos um técnico de segurança pra [antes] visitar o local e [ver] se podia descer ou não. E não tinha nada disso”,
afirmou.
Outro trabalhador ouvido pela VTV SBT, Adriano Coelho, também denunciou problemas relacionados à segurança na empresa. Ele afirmou que, desde o início da obra, teria presenciado situações em que equipamentos não eram fornecidos e os funcionários precisavam buscar os itens por conta própria.
“Muita coisa aí está irregular. Nós não ‘tem’ EPI, acho que para economizar. Não dá máscara, luva [o mestre de obras] dá, quando nós ainda pede fica negando. Pra nós pegar uma bota tem que insistir em muita coisa, a gente tem que trabalhar de sapato com bota rasgada. A luva, também, ele fala que tem que durar uns três mês” (sic).
Um terceiro funcionário, identificado como Matheus Allison, disse que o mestre de obras “não se importava” em fornecer equipamentos de proteção e que, quando precisavam, os funcionários tinham que “trazer de casa”. Segundo ele, os problemas teriam sido comunicados ao responsável pela obra, e recebia como resposta que os equipamentos chegariam. “Ele dizia: ‘não, é isso mesmo, vai chegar’ e nunca chegava”, afirmou à VTV SBT.

Matheus também avaliou que, antes da entrada na caixa-d’água, seria necessário abrir a estrutura e esperar pelo menos duas semanas para que ela fosse esvaziada e arejada, evitando a presença de gás no local.
Contraponto
As versões apresentadas pelos funcionários são diferentes da relatada pelo mestre de obras, de acordo com o boletim de ocorrência (BO) ao qual o VTV News teve acesso. Ele confirmou ter a função de determinar as atividades dos funcionários, mas afirmou que o combinado era que os trabalhadores primeiro realizassem a limpeza de uma laje e, só depois, trabalhassem nas três caixas-d’água subterrâneas, com orientação de um técnico de segurança.
Segundo o relato registrado no BO, os funcionários – Bruno e um amigo levado por ele para trabalhar na obra – foram diretamente para as caixas-d’água, que estavam lacradas, “sem seu conhecimento ou autorização do técnico, que ainda viria à obra para instruí-los”. Ele também afirmou à Polícia Civil que os operários tentaram resgatar a vítima por conta própria, sem que tivessem recebido sua autorização, e acabaram passando mal.
Ainda de acordo com o relato, o mestre de obras afirmou que “diariamente orienta os operários da obra a utilizarem todos os equipamentos de segurança, assim como os instrui a todos os procedimentos para realização dos serviços e que nesta data forneceu às vítimas botas e capacetes”.
Já o técnico em segurança que presta serviços à De.sign Construções e Incorporações disse que acompanha a obra cerca de duas vezes por semana, por aproximadamente três horas em cada visita, e verifica se os serviços estão de acordo com as normas da NR-18, do Ministério do Trabalho e Emprego, que estabelece diretrizes de segurança, planejamento e organização para a indústria da construção.
O técnico afirmou que as caixas-d’água estavam, de fato, lacradas e que, por permanecerem fechadas, poderiam “gerar gases”, que não foram especificados no documento policial. Por fim, declarou que não foi consultado antes da entrada dos trabalhadores na estrutura.
Família cobra respostas
Na manhã desta quarta-feira (2), familiares e amigos de Bruno se juntaram aos trabalhadores em frente à obra para cobrar respostas. Conforme apurado pela repórter Eliane Antunes, cerca de 15 pessoas participaram da manifestação. A irmã da vítima, Stephany Reis dos Santos, lamentou a morte do irmão.
“Menino sorridente, muito amado por todo mundo. Tem uma família superlinda, um filho de três [anos], uma menina de nove que fez nove [anos] no dia do ocorrido. […] A gente ficou sabendo por volta das 10h e falaram que estavam no hospital. [Só aqui], a gente descobriu que ele estava morto”,
disse.
Stephany pontuou que, até o momento, o Instituto Médico Legal (IML) de Santos só entregou à família o relógio, a aliança e os brincos de Bruno. O celular dele, porém, ainda não foi devolvido. “Falou que ia entregar hoje e a gente está na espera. Qual é o mistério de não ter entregado o celular?”, questionou.
Imagem: Thiago Prado/VTV SBT

A causa da morte de Bruno ainda não foi determinada. Segundo informações obtidas pelo VTV News, o primeiro laudo do IML foi inconclusivo, e novos exames foram solicitados para identificar o que provocou a morte. Uma das possibilidades investigadas é que Bruno tenha inalado algum gás ou produto químico dentro da caixa. A análise pericial deve ajudar a esclarecer se houve intoxicação e, se sim, qual substância pode ter a provocado.
Segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP), o caso foi registrado como morte suspeita no 3º Distrito Policial (DP) da Cidade.
O que diz a construtora
Por meio de nota à imprensa, a De.sign Construções e Incorporações SPE Ltda., responsável pela obra, informou que apura as circunstâncias do acidente e presta suporte às famílias das vítimas. A empresa também declarou estar colaborando com as autoridades responsáveis pela investigação.
*Com informações da repórter Eliane Antunes, da VTV SBT