Por muito tempo, falar em carbono no campo esteve associado principalmente à redução de emissões e às metas climáticas. Mas uma nova possibilidade começa a ganhar espaço: transformar a capacidade de armazenar carbono no solo em um ativo capaz de ajudar a financiar uma agricultura mais regenerativa no Brasil. A lógica é simples, embora sua execução esteja longe de ser. Se determinadas práticas agrícolas conseguem aumentar o carbono armazenado no solo, melhorar sua estrutura, ampliar a retenção de água e contribuir para a produtividade, por que o produtor não poderia também ser remunerado por esse serviço ambiental?
Uma análise do Rabobank aponta justamente nessa direção. O Brasil reúne características que podem colocá-lo entre os principais mercados mundiais de créditos de carbono no solo. Dados da Embrapa citados pelo banco indicam que o país possui cerca de 177 milhões de hectares de pastagens, dos quais aproximadamente 28 milhões de hectares apresentam algum nível de degradação e poderiam ser recuperados por meio de práticas regenerativas.
É uma dimensão que chama atenção. Mais do que uma oportunidade ambiental, existe aí uma questão econômica: como transformar a recuperação do solo em investimento e, ao mesmo tempo, criar mecanismos para que o produtor tenha retorno financeiro por essa mudança?
A agricultura regenerativa não se resume ao carbono. Plantio direto, cobertura permanente do solo, rotação de culturas, integração entre atividades, uso adequado de matéria orgânica e recuperação de áreas degradadas podem produzir uma série de efeitos positivos sobre o sistema produtivo. Uma pesquisa da Embrapa baseada em dez anos de acompanhamento de sistemas de rotação milho-soja com diferentes plantas de cobertura mostrou que o manejo influencia diretamente a dinâmica do carbono no solo. O estudo encontrou diferenças importantes entre as coberturas utilizadas e identificou o sorgo como o tratamento com maior acúmulo de carbono no período analisado.
Isso ajuda a colocar a discussão em uma perspectiva mais prática. Não se trata apenas de afirmar que a agricultura regenerativa pode sequestrar carbono. É preciso descobrir quanto carbono está sendo acumulado, em quais condições, durante quanto tempo e com quais práticas de manejo. E essa talvez seja uma das maiores chaves para o futuro desse mercado.
Uma revisão internacional da FAO, que reuniu evidências de 120 estudos publicados entre 2000 e 2025, também encontrou resultados associados a práticas regenerativas como plantio direto, manutenção de resíduos, plantas de cobertura, rotação de culturas, agroflorestas e integração lavoura-pecuária. A revisão aponta efeitos positivos sobre carbono orgânico e diferentes indicadores de qualidade do solo, embora os resultados variem conforme o sistema produtivo e as condições ambientais. Ou seja: o potencial existe, mas não existe uma fórmula única para todos os solos e propriedades. É justamente aqui que a discussão sobre crédito de carbono ganha importância. A transição para sistemas regenerativos pode exigir investimento, conhecimento técnico, alteração de práticas e um período de adaptação até que os resultados apareçam. Para o produtor, portanto, não basta saber que determinada prática é ambientalmente desejável. É necessário saber se ela também é economicamente viável. É nesse ponto que o carbono pode funcionar como uma espécie de ponte entre sustentabilidade e financiamento.
O produtor que recupera uma área degradada, aumenta o estoque de carbono no solo e adota práticas capazes de gerar benefícios ambientais poderia, em determinadas condições e dentro de metodologias reconhecidas, transformar parte desse resultado em receita adicional. Isso poderia acontecer por diferentes caminhos: créditos de carbono, pagamentos por serviços ambientais, melhores condições de financiamento, contratos com cadeias produtivas interessadas em reduzir sua pegada ambiental ou até mesmo prêmios comerciais associados a produtos de menor intensidade de carbono.
A FAO, por meio da iniciativa RECSOIL, destaca a necessidade de criar mecanismos técnicos e econômicos que permitam ampliar a adoção de práticas sustentáveis de manejo do solo, incluindo sistemas de medição, monitoramento e verificação do carbono e acesso a financiamento climático. Existe, porém, um cuidado fundamental. O mercado de carbono no solo só terá credibilidade se conseguir provar que o carbono realmente foi armazenado, que o resultado é mensurável e que permanece no solo pelo período considerado. É preciso evitar que uma boa ideia seja transformada em uma corrida por certificados sem correspondência ambiental consistente.
O próprio debate técnico brasileiro reconhece que ainda existem diferenças metodológicas e desafios relacionados à contabilização dos créditos de carbono no solo. Uma publicação técnica da Embrapa sobre o tema defende que esses créditos sejam entendidos como mais uma alternativa dentro de uma cesta de produtos e serviços ambientais, e não como uma solução isolada para o problema climático. Essa talvez seja a maneira mais realista de enxergar o futuro. O produtor não precisa escolher entre produzir alimentos e cuidar do clima. O desafio é construir sistemas em que uma coisa fortaleça a outra.
Uma oportunidade que combina com o Brasil
Poucos países possuem uma combinação tão expressiva de área agrícola, diversidade de sistemas produtivos, disponibilidade de áreas para recuperação e capacidade tecnológica para desenvolver soluções tropicais. Por isso, o Brasil tem a oportunidade de construir não apenas um mercado de créditos de carbono, mas um modelo próprio de agricultura de baixo carbono apoiado em ciência, tecnologia e remuneração por serviços ambientais.
Mas essa oportunidade não será automática. Será necessário ampliar a adesão dos produtores, desenvolver metodologias confiáveis, reduzir os custos de medição e monitoramento, criar segurança jurídica, aumentar a demanda por créditos e, principalmente, garantir que o benefício financeiro chegue de fato ao campo. Se isso acontecer, o carbono poderá assumir um papel que vai muito além de uma métrica ambiental. Pode se transformar em uma nova linha de financiamento da regeneração do solo brasileiro.
E talvez essa seja uma das grandes mudanças de paradigma do agro nos próximos anos: o solo deixa de ser visto apenas como o lugar onde se produz e passa a ser reconhecido também como um ativo ambiental capaz de gerar valor. No fim das contas, a agricultura regenerativa poderá ganhar força não apenas porque preservar o solo é necessário, mas porque cuidar melhor da terra poderá também fazer parte da conta econômica da propriedade.




