Quem passou pela orla de Santos, na Baixada Santista, nos últimos dias, foi surpreendido por uma cena inusitada: faixas espessas de ‘espuma’ se formaram no calçadão da praia. O fenômeno ocorreu após uma forte ressaca atingir o litoral paulista. Entretanto, apesar de curiosa, a espuma tem origem conhecida e pode oferecer riscos.
Segundo a mestre em Geociências e especialista em Oceanografia, Regina de Souza, a espuma aparece quandoondas com grande energia movimentam a areia do fundo do mar, especialmente a camada mais fina. “Em Santos, a água do mar contém alta carga de matéria orgânica, resultado de diversos fatores urbanos e naturais. Quando essa matéria se mistura com a areia, forma-se a espuma”, explica.
De aspecto grosso e amarelado, ela se acumula na faixa de areia após a onda recuar, deixando para trás o material orgânico e a areia sem a presença da água. “Embora pareça inofensiva, não é recomendado o contato com esse resíduo. Além de prejudicar a balneabilidade, a substância pode afetar organismos marinhos”, complementa.
Risco para o mar e para os peixes
Além de modificar a paisagem da praia, o acúmulo da espuma pode gerar impactos ecológicos. “Em alguns trechos, o material orgânico entrou pelos canais de drenagem urbana, reduzindo a entrada de luz e oxigênio na água. Isso ameaça diretamente a vida de microorganismos e peixes que habitam esses locais”, afirma Regina.
Com a espuma cobrindo a superfície da água, a fotossíntese de algas microscópicas é dificultada, afetando toda a cadeia alimentar aquática. Em situações mais graves, a mortandade de peixes pode ocorrer em canais e áreas fechadas. Algumas espécies já foram vistas por moradores próximas à superfície, em busca de oxigênio.
Por isso, a recomendação é evitar o contato direto com a espuma, já que a mistura de areia fina e matéria orgânica pode conter agentes contaminantes. Embora não haja risco grave para quem apenas passeia pela orla, a exposição prolongada pode causar irritações ou desconfortos, especialmente em crianças e animais.
Evento foi provocado por ciclone extratropical
A espuma surgiu após a passagem de uma frente fria que trouxe ventos intensos para a região. A força das ondas foi suficiente para remexer grandes volumes de sedimentos, o que torna esse evento, até agora, o mais intenso de 2025, segundo o Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH) da Unisanta. O pico da ressaca foi registrado na terça-feira (29).
A combinação de ventos, maré alta e fases da Lua potencializa o fenômeno, como explica a oceanógrafa. O período do inverno é o mais comum para ocorrências de ressaca, pois é quando há mais frentes frias e ciclones extratropicais atuando na costa brasileira. Com isso, as ondas ganham mais energia.
No caso desta semana, o evento foi provocado por um ciclone extratropical que passou pela costa Sul-Sudeste. Esse tipo de sistema meteorológico também é capaz de gerar ressacas severas, sem a necessidade de ligação com tremores de terra ou tsunamis. Portanto, a espuma é um dos efeitos colaterais mais visíveis dessas condições extremas.

Ondas causam crateras e queda de muretas em Santos
A Defesa Civil Estadual emitiu um alerta de ressaca na última segunda-feira (28). Segundo a Marinha do Brasil, o mar deve continuar agitado até quinta-feira (31), entre Iguape (SP) e Macaé (RJ), com ondas de até 3,5 metros. A recomendação é evitar a faixa de areia e áreas próximas ao mar.
Na terça-feira (29), a orla de Santos registrou alagamentos e interdições após ondas de quase 4 metros. Já na manhã de quarta-feira (30), novas ondas de mais de 3 metros atingiram a costa, reforçando o risco. Os alagamentos afetaram a rotina de motoristas, ciclistas e pedestres.
De acordo com a Prefeitura de Santos, a ressaca causou queda de muretas, buracos nas calçadas e danos a equipamentos públicos (veja acima). Os estragos foram mais intensos entre os bairros Boqueirão e Ponta da Praia. A limpeza envolve 208 trabalhadores, 16 caminhões e uma pá carregadeira.
Ressaca não é tsunami! Entenda a diferença
O fenômeno da ressaca tem causado confusão com outro termo bastante conhecido: o tsunami. Ambos envolvem o avanço do mar, mas têm origens completamente diferentes. A recente ressaca em Santos, por exemplo, não tem nenhuma relação com o terremoto registrado na Rússia, que gerou ondas gigantes no outro lado do planeta.
Enquanto as ressacas são causadas por ventos fortes associados a frentes frias ou ciclones, os tsunamis têm origem sísmica. Isso significa que, geralmente, são provocados por terremotos no fundo do mar, que deslocam grandes massas de água de forma abrupta. No Brasil, a ocorrência de tsunamis é considerada extremamente remota.
Regina explica que o litoral brasileiro está distante das bordas das placas tectônicas, as grandes estruturas que se movimentam sob a crosta terrestre. Por isso, o risco de terremotos ou maremotos capazes de gerar tsunamis por aqui é mínimo (veja mais a seguir). Já a ressaca, especialmente no inverno, é bem mais frequente.