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ONG revela estrutura informal e atuação paralela do STF em prisões após o 8 de Janeiro

Um relatório inédito sobre os desdobramentos jurídicos do 8 de Janeiro mostra atuação do gabinete de Moraes entre o STF e TSE.
Alexandre de Moraes (Foto: Ton Molina/STF)

Um relatório inédito sobre os desdobramentos jurídicos do 8 de Janeiro, revelado pela Civilization Works — ONG americana em defesa do liberalismo —  mostra que uma estrutura paralela, operada por assessores e colaboradores externos ligados ao gabinete do ministro Alexandre de Moraes, do STF, foi responsável por conduzir prisões em massa à margem dos protocolos legais.

O documento aponta que a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) extrapolou os limites constitucionais e comprometeu garantias fundamentais previstas no ordenamento jurídico brasileiro. (Leia completo aqui)

O relatório detalha como, à época presidente das duas cortes, Moraes centralizou decisões e utilizou-se de mecanismos informais, inclusive um grupo de WhatsApp denominado “Audiências de Custódia”, para gerir ações judiciais com características de força policial.

A condução das prisões teria se apoiado em certidões internas elaboradas sem amparo legal, com base em dados sigilosos de sistemas como GestBio, bCPF e RENACH, além de monitoramento em redes sociais.

Audiências de custódia esvaziadas

As audiências, que por lei devem ocorrer em até 24 horas para garantir a legalidade das prisões, teriam funcionado apenas como formalidade burocrática. Juízes de primeira instância foram deslocados exclusivamente para homologar flagrantes, sem autoridade para conceder liberdade provisória, conforme determina o Código de Processo Penal. A decisão final sobre cada preso — incluindo a liberação ou manutenção da prisão — partia diretamente de Moraes, que exigia verificações adicionais em redes sociais mesmo quando a Procuradoria-Geral da República recomendava a soltura.

Segundo o relatório, além de servidores do STF e do TSE, acadêmicos, agências de checagem e ativistas foram mobilizados como colaboradores externos para fornecer material sigiloso à força-tarefa. Esses atores, desprovidos de função pública, infiltraram-se em grupos de mensagens e produziram relatórios que subsidiaram decisões de censura e restrição de liberdade. A ausência de qualquer controle institucional sobre essas contribuições reforça, segundo os autores do documento, o caráter extralegal da operação.

Quem é Eduardo Tagliaferro que aparece nas mensagens?

Tagliaferro atuou como assessor-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), entre agosto de 2022 e julho de 2023, período em que Alexandre de Moraes presidia a Corte Eleitoral. De acordo com a Polícia Federal, ele seria o responsável por repassar à imprensa informações internas do gabinete do ministro.

Recentemente o Banco Central (BC) informou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que bloqueou as contas bancárias, ativos financeiros, cartões e chaves Pix de Eduardo Tagliaferro, ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes. A medida atendeu a uma decisão do próprio ministro, no âmbito das investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre vazamentos de informações confidenciais do gabinete de Moraes.

Eduardo Tagliaferro ao lado do ministro Alexandre de Moraes (Foto: redes sociais)

A investigação resultou no indiciamento de Tagliaferro por violação de sigilo funcional com prejuízo à Administração Pública. Em manifestações públicas, o ex-assessor nega a acusação, mas insinua ter em seu poder documentos que comprometeriam o ministro. “Tenho bastante coisa. Aquilo lá é só a pontinha do iceberg. Tem algumas coisas fraudulentas que foram feitas. A ordem era deletar e, como sou uma pessoa prevenida, sempre guardei”, afirmou, em declaração registrada pela PF.

O conteúdo das declarações e o possível acervo de documentos armazenados por Tagliaferro ainda são objeto de apuração. O processo corre sob relatoria de Alexandre de Moraes, que adotou a medida cautelar de bloqueio patrimonial com o objetivo de evitar movimentações financeiras durante o andamento das investigações.

Juristas apontam sistema de justiça seletiva

Encerrando a investigação, o relatório reúne pareceres de juristas como Richard Campanari, André Marsiglia e Enio Viterbo, que identificam violações ao princípio do juiz natural, ao devido processo legal, à LGPD e à independência do Ministério Público. As críticas se concentram na criação de provas sem contraditório, no uso do GestBio como ferramenta de vigilância, e na adoção de critérios ideológicos para determinar a privação de liberdade.

O diagnóstico geral dos especialistas é de que se consolidou um sistema de justiça seletiva, alheio aos marcos constitucionais e incompatível com a lógica de um Estado Democrático de Direito. A centralização decisória, o esvaziamento de garantias processuais e o uso de estruturas informais, segundo o relatório, representaram uma inflexão institucional que desconfigura os limites legais da atuação do Poder Judiciário.

Procurados, o STF não se pronunciou até o fechamento desta matéria.


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Autor

  • Iago Yoshimi Seo

    Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.

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