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Em Terras Lusas – Bento tem razão

Entre ressentidos e feridos, o fato é que há, entre Brasil e Portugal, um passado histórico de desavenças que está longe de ser resolvido

O tema da coluna dessa semana foi inspirado em um post do ator e humorista Bento Ribeiro que declarou, apesar de sua nacionalidade portuguesa, que não gosta dos portugueses e de Portugal. E pior, disse que os portugueses detestam os brasileiros.

Não é preciso dizerque o post viralizou, quer com comentários de brasileiros que se sentem maltratados em Portugal, como de portugueses que confirmam a tese de Bento.

Se por um lado, há portugueses que criam situações embaraçosas aos brasileiros pela forma inculta como falam a língua portuguesa; por outro, muitos brasileiros fazem questão de ressaltar o passado colonizador de Portugal, causando desconforto, aos portugueses, com a hashtag #devolve o meu ouro.

Entre ressentidos e feridos, o fato é que há, entre Brasil e Portugal, um passado histórico de desavenças que está longe de ser resolvido. E a cada dia que se passa, mais lenha arde nessa fogueira de vaidades e soberania.

Morando há quase dez anos por aqui, já vi praticamente de tudo. Desde brasileiros que que tentam falar com sotaque português e aplicam as regras do português nacional, até brasileiros que continuam falando a sua língua natal sem se  preocupar com essa “guerra linguística”.

Se o primeiro grupo acredita que mimetizar o idioma português é uma forma mais eficaz de aceitação; o segundo não só não se submete à essa imposição linguística, como também faz questão de preservar a sua língua materna.

Convivendo praticamente com portugueses, acabo percebendo,para o bem e para o mal (expressão lusa), a visão que a maioria dos portugueses têm sobre os brasileiros. E, nem sempre, essa percepção é agradável ou mesmo real.

Para começar, as mulheres brasileiras, muitas vezes, levam a pecha de serem mulheres fáceis de se conquistar, libertinas e que estão à caça de um visto de residência.

Essa imagem é fruto de um movimento denominado “Mães de Bragança’, comandado por um grupo de mulheres casadas que visava expulsar 300 prostitutas brasileiras, que haviam se instalado na cidade, e que trabalhavam numa casa de prostituição, onde muitos portugueses casados,volta e meia, a frequentavam.

Assim, ao invés de culparem seus maridos por suas libertinagens sexuais, foram as brasileiras, os bodes expiatórios dessa situação, enquanto a má fama da mulher brasileira corria o país, e o movimento ganhava até a capa da Revista Time.

Há também que se falar da imagem pouco confiável do homem brasileiro, e do espírito sempre disposto a levar vantagem em situações comerciais. Dizem alguns portugueses que essa fama se propagou, porque há alguns anos, muitos brasileiros não pagavam corretamente as contas das casas que alugavam.

E quando eram acionados para quitar suas dívidas, ou fugiam ou já haviam voltado para o Brasil, deixando os proprietários portugueses com um enorme prejuízo. Como diz o velho ditado: “Quem tem fama, deita-se na cama”.

Se a prostituição brasileira e a deslealdade comercial estão no imaginário português há décadas, a situação atual dos imigrantes brasileiros não ajuda muito a mudar esse quadro e só tende a piorá-lo.

Enquanto escrevo essa coluna, os jornais portugueses noticiam o assassinato de uma jovem portuguesa de 26 anos esfaqueada por um imigrante brasileiro de 23 anos, que por não se conformar com o término do namoro, também esfaqueou o namorado atual da vítima (que corre risco de morte). O criminoso tentou fugir do país, mas foi preso no aeroporto de Lisboa.

Um caso pontual entre tantos outros, mas que vai ser superestimado pela direita radical anti-imigração.

Se o post de Bento viralizou e expõe sentimentos não tão amigáveis, chega a ser risível, e até distópica, a tentativa de muitos brasileiros, em privilegiar o português de Portugal, com todas as suas nuances linguísticas, como uma forma de não se equiparara outros brasileiros que ocupam as páginas dos jornais pelos piores motivos.

Infelizmente, Bento tem razão e não é para menos.


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Autor

  • Paulo Visani Rossi

    Paulo Visani Rossi é advogado especializado em Direito Autoral e assessor de imprensa, atua como consultor de marketing na Europa e vive há 9 anos em Portugal

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