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Atibaia: do campo à capital do morango no Brasil

Tradição familiar, inovação no campo e turismo rural ajudam a consolidar a cidade como um dos principais polos de produção de morango do país
Morangos frescos de Atibaia, símbolo da agricultura e história da cidade no interior de São Paulo.

Entre propriedades rurais, estufas de cultivo e barracas de venda à beira de estrada, o morango se tornou parte inseparável da paisagem e da história de Atibaia, no interior de São Paulo. Ao longo de décadas, a fruta deixou de ser apenas uma cultura agrícola para se transformar em símbolo da cidade, responsável por movimentar a economia local, atrair turistas e sustentar famílias que dedicam a vida ao cultivo.

A cerca de 60 quilômetros da capital paulista, o município reúne condições naturais favoráveis para a agricultura: clima subtropical ameno, solo fértil e localização estratégica próxima a importantes rodovias. Esse conjunto de fatores ajudou a consolidar Atibaia como referência nacional na produção de morangos e também como um dos principais polos agrícolas do estado.

Hoje, junto com o município vizinho de Jarinu, a região reúne aproximadamente 200 produtores que cultivam cerca de 2,5 milhões de pés de morango, com produtividade média de um quilo por planta a cada safra. Entre as variedades mais presentes nas lavouras estão Camino Real, Fênix, Sabrina e San Andreas, conhecidas pela qualidade e resistência.

Segundo especialistas do setor, esse volume de produção, aliado à qualidade da fruta, foi determinante para que Atibaia conquistasse reconhecimento nacional como capital do morango.

Uma tradição construída no campo

O sucesso da cultura do morango em Atibaia é resultado direto da persistência de agricultores que, geração após geração, mantiveram viva a tradição do cultivo.

Na Fazenda Santa Isabel, no bairro Rio Abaixo, a produtora Claudenice Maria da Silva acompanha essa história desde a década de 1990. A trajetória começou de forma simples, mas se transformou em um projeto de vida.

“Cheguei aqui em 1995 e comecei vendendo frutas em uma barraca na rodovia. No ano seguinte plantamos 10 mil pés de morango, mesmo sem experiência nenhuma. A gente foi perguntando aqui e ali, aprendendo com outros produtores, e acabou dando certo”, conta.

Desde então, a família segue dedicada ao cultivo da fruta.

“Hoje temos mais experiência, mas seguimos com os pés no chão. O morango ainda é nossa principal fonte de sustento”, afirma a produtora.

Ao longo dos anos, o setor passou por mudanças importantes, principalmente relacionadas às variedades cultivadas e às técnicas de produção.

“As variedades hoje são muito modernas. Mudou bastante em relação ao passado e a produção também mudou”, explica Claudenice.

Entre os desafios atuais, ela destaca a dificuldade para encontrar mão de obra no campo.

“Hoje a maior dificuldade é mão de obra. Está cada vez mais difícil encontrar trabalhadores e por isso, ano após ano, precisamos diminuir a quantidade de pés plantados”, relata.

Apesar das dificuldades, o vínculo com a cultura do morango permanece forte.

“O morango, para mim que sou nordestina raiz, foi e continua sendo um presente de Deus. Já estou mais velha e cada dia fico mais encantada com essa fruta”, diz, com bom humor.

Plantação de morangos da produtora Claudenice Maria da Silva na Fazenda Santa Isabel em Atibaia, SP.
Plantação de morangos da produtora Claudenice Maria da Silva, na Fazenda Santa Isabel, em Atibaia (SP)

Modernização e tecnologia no cultivo

Se por um lado a tradição é um dos pilares da produção em Atibaia, por outro a modernização também ganhou espaço nas propriedades rurais da região.

Desde 2006, parte dos produtores passou a adotar o sistema de Produção Integrada de Morangos (PIMo), desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O método trouxe avanços importantes, como redução do uso de defensivos agrícolas, rastreabilidade da produção e maior controle de qualidade.

Com o tempo, o sistema evoluiu para o programa Brasil Certificado, ampliando as práticas de sustentabilidade e segurança alimentar no cultivo.

Além disso, alguns produtores têm apostado em modelos alternativos de produção, que utilizam estufas e técnicas de cultivo sem contato direto com o solo.

Esse é o caso do produtor Keiji Takebayashi, responsável pelo Orquidário Takebayashi, que há cerca de oito anos decidiu incluir o morango entre as atrações da propriedade voltadas ao turismo rural.

“Nossa produção é diferente do sistema tradicional. O cultivo é feito em estufas, no sistema de semi-hidroponia, elevado e sem contato com o solo. Dessa forma conseguimos produzir morangos sem resíduos de agrotóxicos”, explica.

A ideia surgiu após um curso de turismo rural promovido pelo Sebrae, quando a família decidiu investir em uma experiência inspirada em modelos comuns no Japão.

“Nós já tínhamos produção de orquídeas e recebíamos visitantes interessados em flores. Durante um curso de turismo rural surgiu a ideia de produzir morangos no sistema ‘colha e pague’, como existe no Japão. Assim os visitantes podem colher a fruta diretamente da estufa”, conta.

Hoje a propriedade conta com quatro estufas e cerca de oito mil mudas, voltadas exclusivamente para os visitantes.

“O morango veio para agregar opções para quem visita o sítio e também contribui bastante para o nosso faturamento”, afirma.

Vista detalhada da plantação de morangos na Fazenda Santa Isabel, Atibaia, cultivada por Claudenice Silva.
Morangos cultivados em sistema de semi-hidroponia nas estufas do Orquidário Takebayashi, em Atibaia (SP).

Desafios para o futuro da produção

Apesar da tradição e da importância econômica da cultura do morango, os produtores ainda enfrentam desafios importantes.

Entre eles estão o custo das mudas e a dependência de variedades importadas.

“Hoje uma das maiores dificuldades é adquirir mudas de qualidade. Muitas ainda são importadas e cotadas em dólar, o que aumenta os custos para os produtores”, explica Takebayashi.

Ele destaca, no entanto, que pesquisas da Embrapa têm contribuído para reduzir essa dependência.

“A Embrapa lançou recentemente a variedade Fênix, que é nacional e tem apresentado excelente qualidade. Muitos produtores já estão adotando essa cultivar”, diz.

Outro desafio apontado por agricultores é a necessidade de ampliar a produção local para atender à demanda crescente do mercado.

Vista detalhada da plantação de morangos na Fazenda Santa Isabel, Atibaia, cultivada por Claudenice Silva.
Plantação de morangos da produtora Claudenice Maria da Silva, na Fazenda Santa Isabel, em Atibaia (SP)

Morango impulsiona economia e turismo

A produção de morango movimenta diversos setores da economia de Atibaia. Estima-se que a atividade gere cerca de 500 empregos diretos e indiretos, especialmente ligados à agricultura familiar.

Além da produção agrícola, a fruta também se tornou um importante atrativo turístico.

Todos os anos, milhares de visitantes viajam até o município para conhecer as plantações, experimentar produtos derivados do morango e participar de eventos gastronômicos e culturais.

Entre os principais destaques estão duas festas tradicionais que celebram a produção local.

A Festa do Morango de Atibaia e Jarinu, realizada entre junho e julho pela Associação dos Produtores de Morangos e Hortifrutigranjeiros da região, reúne produtores, restaurantes e visitantes interessados na gastronomia à base da fruta.

Já a Festa de Flores e Morangos de Atibaia, realizada em setembro, promove não apenas o morango, mas também a floricultura, outra atividade que coloca o município em destaque nacional.

Somados, os dois eventos recebem mais de 200 mil visitantes por ano e registram o consumo de mais de 120 toneladas de morango durante o período das festividades.

Cultivo de morangos semi-hidropônicos em estufas modernas no Orquidário Takebayashi, Atibaia, interior de SP.

Morangos cultivados em sistema de semi-hidroponia nas estufas do Orquidário Takebayashi, em Atibaia (SP).

Muito além do morango

Embora o título de capital do morango seja o mais conhecido, Atibaia também se destaca em outras áreas da produção agrícola.

O município é responsável por cerca de 25% da produção nacional de flores, com aproximadamente 600 produtores atuando no setor. Entre os principais produtos cultivados estão rosas, crisântemos, orquídeas, petúnias, begônias e diversas plantas ornamentais.

Grande parte dessa produção é destinada a centros de comercialização importantes do país, como a CEAGESP, o CEASA de Campinas e o Veiling de Holambra, um dos maiores mercados de flores da América Latina.

Essa diversidade agrícola reforça o papel de Atibaia como um importante polo rural no estado de São Paulo.

Um símbolo que atravessa gerações

Para quem vive no campo, o morango representa mais do que uma cultura agrícola. Ele carrega histórias de famílias, desafios superados e sonhos construídos ao longo de décadas.

Mesmo diante das transformações do setor agrícola, produtores seguem apostando na fruta como símbolo da cidade e fonte de desenvolvimento para a região.

“Espero um futuro brilhante para Atibaia e para todos os produtores de morango. Somos guerreiros e seguimos trabalhando com fé para que essa produção continue crescendo”, afirma Claudenice.


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Autor

  • Luana Gasparetto

    Jornalista e radialista, com experiência em produção de conteúdo multiplataforma, elaboração de pautas, entrevistas e cobertura jornalística, com foco em informação de interesse público, comunicação digital e jornalismo investigativo. É autora do livro-reportagem “Borboletas de Concreto: desvelando as marcas deixadas nos corpos de ex-detentas e suas metamorfoses” e pós-graduanda em Gestão de Rádio e Mídias Audiovisuais.

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