A ansiedade não afeta apenas os humanos, os animais também podem apresentar esse tipo de comportamento, principalmente quando são separados de seus tutores, com quem mantêm uma rotina diária. O problema se intensificou nos últimos anos, já que muitos pets passaram longos períodos ao lado dos donos durante o home office na pandemia. Com a retomada da rotina presencial de seus donos, os animais sentiram o impacto da mudança, especialmente na saúde e no bem-estar.
Para cães e gatos, o estresse causado pela separação se manifesta de maneiras diferentes. Os cães costumam demonstrar ansiedade por meio de comportamentos como destruição de objetos, latidos excessivos e tentativas de fuga. Já os gatos, por terem um perfil mais reservado, tendem a apresentar sinais mais sutis, como perda de apetite, isolamento e até o desenvolvimento de problemas físicos.
O estresse crônico pode causar impactos físicos significativos nos animais. Entre os efeitos mais recorrentes está a imunossupressão, condição que deixa o organismo mais vulnerável e favorece o surgimento de infecções frequentes e outros problemas de saúde. “ Nos gatos, a cistite idiopática felina é um exemplo clássico: a bexiga inflama sem nenhuma causa bacteriana, puramente por estresse”, explica Maria Eduarda Fischer, Médica- Veterinária .
Para a análise do quadro, devem ser consideradas as mudanças recentes na dinâmica familiar, além da avaliação de fatores como saúde física, comportamento e estado mental do animal. Antes da confirmação de qualquer diagnóstico, também é fundamental descartar possíveis causas orgânicas por meio de exames clínicos.
Foi assim que a professora de inglês Giulia Maurissens percebeu mudanças no comportamento de Getúlio, cão da raça Corgi, de 18 anos. Após ser levado para avaliação clínica, surgiu a hipótese de que a dermatite recorrente tinha origem emocional. A partir disso, o tratamento passou a considerar não apenas os problemas de pele, mas também o estado emocional do animal de forma integrada.
“Foi um processo. No começo achei que era coisa pontual, percebi uma queda de pêlo mais acentuada e ele comendo mais devagarzinho, mas o sinal que realmente me acendeu um alerta foi a dermatite. Toda vez que a rotina saía do eixo, ele começava a se lamber compulsivamente nas patas e na barriga, e a pele ficava irritada, vermelha. A veterinária foi quem conectou os pontos pra mim”, relata a professora de inglês.
Rotina e cuidado
O enriquecimento ambiental é uma das estratégias indicadas para animais que sofrem com esse tipo de problema, principalmente por estimular o gasto de energia física e mental. Tapetes de forrageamento, por exemplo, incentivam o instinto natural de busca por alimento e promovem uma fadiga mental saudável. Já para os gatos, brinquedos de caça, como varinhas e bolas, ajudam na liberação de endorfinas e na satisfação de instintos naturais que, quando reprimidos.
“A rotação dos brinquedos é tão importante quanto tê-los. O animal se acostuma rapidamente ao que está sempre disponível. Trocar semanalmente mantém a novidade e o interesse. No fim das contas, um animal mentalmente estimulado é um animal equilibrado e isso vale muito mais do que qualquer espaço físico grande”, esclarece a veterinária

O ambiente também exerce papel importante no bem-estar animal. A presença de um espaço reconhecido como seguro contribui para que o animal tenha um local de refúgio em momentos de sobrecarga. Para os gatos, o acesso a locais altos costuma favorecer essa sensação de segurança, enquanto, para os cães, caminhas posicionadas em áreas mais tranquilas da casa podem cumprir essa função.
A rotina também está entre os fatores que influenciam diretamente o comportamento dos animais. Por serem guiados por hábitos, a previsibilidade tende a proporcionar maior segurança emocional. Horários regulares para alimentação e passeios contribuem de forma significativa para o equilíbrio e o bem-estar.
“Comecei com o enriquecimento ambiental com brinquedos recheados, petiscos congelados, esconder petiscos pela casa antes de sair. Isso ajudou muito no dia a dia, porque ele fica ocupado e mentalmente cansado de um jeito positivo” , relatou a dona do Getúlio