O evento internacional, que será sediado pelo Brasil em abril de 2027, no Rio de Janeiro, deve reunir estudiosos, governos, organismos internacionais e representantes do setor produtivo para discutir a preservação dos oceanos, a biodiversidade marinha e os impactos das mudanças climáticas.

A COP dos Oceanos acontece em um momento estratégico. O mundo vive a chamada Década dos Oceanos, iniciada em 2021 e que vai até 2030, um período definido pela Organização das Nações Unidas para ampliar pesquisas, políticas públicas e ações voltadas à proteção dos mares. A meta global de neutralidade de carbono até 2050 também passa, diretamente, pela saúde dos oceanos.

Segundo Eliane Sammarco, presidente do IBI Social, o tema é central para o futuro do planeta. Ela explica que cerca de 70% da dinâmica ambiental da Terra depende dos oceanos, o que torna urgente ampliar o olhar sobre esse ecossistema.
“Quando a gente fala de oceano, é como se o planeta fosse uma grande empresa em que quase 70% depende de um único departamento. Se esse departamento não funciona bem, todo o resto entra em risco”, explica.
Tratado do Alto Mar entra em vigor
Um dos pilares desse debate é o Tratado do Alto Mar, conhecido pela sigla BBNJ em inglês, que entrou em vigor em janeiro de 2026. O acordo trata da biodiversidade em áreas marinhas que não pertencem à jurisdição de nenhum país, regiões onde até então havia pouca regulação ambiental.
De acordo com Eliane, o tratado é essencial para proteger áreas oceânicas que ficam além dos limites territoriais dos países e que, por isso, estavam mais vulneráveis à exploração desordenada.
“Cada país tem um limite de jurisdição sobre o mar. Mas existe uma área enorme que não é de ninguém. O tratado veio justamente para tratar da biodiversidade nessas regiões e criar regras de proteção”, afirma.
O que é a COP dos Oceanos
A COP dos Oceanos segue um formato semelhante ao das conferências climáticas já conhecidas, como a COP do Clima, mas com foco exclusivo nos mares. A edição que será realizada no Brasil está prevista para acontecer entre os dias 7 e 9 de abril de 2027, na Marina da Glória, no Rio de Janeiro.
O encontro deve servir como espaço para apresentação de estudos científicos, definição de estratégias globais, cooperação entre países e debate sobre financiamento de projetos ligados à preservação marinha e à economia azul.
“O Brasil foi escolhido porque tem um papel relevante nesse tema. Já avançamos muito em estudos, educação oceânica e projetos estruturantes, mas ainda temos muito a fazer”, avalia Eliane.
Educação oceânica e protagonismo brasileiro
Um dos pontos destacados é o avanço da chamada cultura oceânica, que envolve educação ambiental e conscientização desde a escola. O Brasil é considerado pioneiro nesse campo, com iniciativas como as Escolas Azuis, voltadas à formação de crianças e jovens sobre a importância dos oceanos.
A presidente do IBI Social cita o trabalho de pesquisadores brasileiros reconhecidos internacionalmente e ressalta que o país tem se destacado dentro da UNESCO nesse tema.
“A gente pode dizer com orgulho que o Brasil está bem encaminhado em relação à cultura oceânica. Temos reconhecimento internacional, mas a COP dos Oceanos vai servir justamente para ampliar esse debate e atrair investimentos”, afirma.
Preparação e articulação institucional
O IBI Social, por meio de articulações com diferentes setores, já se prepara para participar do evento. Segundo Eliane, a pauta exige integração entre ministérios, instituições científicas, setor portuário, Marinha, empresas e imprensa.
Um dos exemplos é a participação no Planejamento Espacial Marinho, que envolve estudos sobre o uso sustentável das áreas oceânicas, incluindo pesca, exploração de petróleo, navegação e preservação ambiental. O projeto conta com a participação da Marinha, da Fundação Getulio Vargas e apoio do BNDES.
“Da mesma forma que a gente planeja o uso da terra, precisa planejar o uso do mar. É fundamental saber o que pode ser explorado, onde e de que forma”, explica.
Contagem regressiva até 2027
A expectativa é que, até a realização da COP dos Oceanos, o Brasil intensifique debates, estudos e ações práticas. A ideia é fazer uma espécie de contagem regressiva, acompanhando os avanços e os desafios ao longo dos próximos anos.
“O evento de 2027 é um marco, mas o mais importante é o que vai ser construído até lá. A COP é um ponto de encontro, um catalisador de ações para que a gente chegue ao final da Década dos Oceanos com resultados concretos”, conclui Eliane.
A realização da COP dos Oceanos no Brasil coloca o país no centro de uma das discussões mais estratégicas do século. Em jogo, está não apenas o futuro dos mares, mas o equilíbrio ambiental e econômico do planeta.