Melissa Lisboa cresceu na Região Bragantina, que abrange Atibaia e Bragança Paulista, duas das cidades mais seguras do Brasil segundo a MySide, localizadas no interior de São Paulo. Ela concluiu o ensino médio no ano passado, e aos 18 anos zarpou rumo à capital paulista, para dar início à graduação em moda, no Senac de Santo Amaro. Para ela, a mudança de ares também significou mudanças de comportamentos.
Diferentemente de como fazia antes, agora ela precisa seguir um novo ritual ao sair de casa:posiciona a bolsa à frente do corpo, onde seus olhos possam vigiar, e guarda o celular em um compartimento menos acessível à “mãos leves”. Depois de conferir a rua duas vezes, segue para a faculdade.
“A gente sempre tem que estar atento o tempo inteiro quando é cidade grande. É cansativo, porque precisa manter os sentidos apurados”, afirmou a estudante ao VTVNews.
No Brasil, sair de casa tornou-se um exercício mental como o da estudante. O receio de assaltos, furtos e outros crimes molda hábitos, sobretudo nos grandes centros, mesmo que de maneira inconsciente. Muros elevados, cercas elétricas, portões automatizados, alarmes, bolsas antifurto e até celulares utilizados como isca, integram estratégias para evitar problemas.Mesmo ao comprar um celular caro, o seguro contra roubo já é oferecido como uma antecipação do que pode acontecer.
Multiplicam-se os métodos, enquanto questionar as causas da violência, e como isso molda nossos comportamentos, parece menos comum. O medo, antes difuso, tornou-se componente objetivo da vida do brasileiro.
“As praças públicas, as ruas, os lugares do ir e vir da população, que é um direito, se tornam cada vez mais perigosos e cria a restrição também da circulação espontânea dos indivíduos nas ruas, procurando lugares privados, como shoppings, suas próprias casas, condomínios cercados, murados”, disse o sociólogo da FESPSP, Paulo Niccoli Ramirez.
Segundo o levantamento do Datafolha, a segurança pública é um dos principais problemas para os brasileiros (Foto: Imagem cedida / @_Raccoon_holmes)
Segundo o sociólogo, a cultura do medo acaba criando processos políticos e sociais de isolamento dos indivíduos, além de modificar hábitos. Um levantamento recente do Datafolha divulgado no fim de 2025, aponta que 72% dos brasileiros já alteraram a rotina por causa da violência.
Na opinião das pessoas ouvidas pela pesquisa, a segurança pública aparece entre os principais problemas do País, atrás apenas da saúde. Entre as mudanças mais citadas:
56% disseram ter deixado de usar o celular na rua nos últimos 12 meses.
Outros 36% afirmaram ter modificado trajetos diários por receio de violência, enquanto 31% passaram a evitar o uso de objetos de valor ao sair de casa.
“Se você está à noite em São Paulo, você já fica com aquele medo, principalmente se você é mulher. Eu tenho muito receio até de ficar de fone de ouvido. Se eu estiver fora do metrô, para fazer alguma coisa ou andar pela cidade, eu não fico de fone. É uma distração que pode te levar a não perceber uma possível perseguição”, finalizou Melissa.
Na psicologia, esclarecem os especialistas ouvidos pela reportagem, observa-se que esse estado de receio costuma refletir vivências acumuladas, e não necessariamente uma fragilidade pessoal. Além disso, as mídias sociais também cumprem funções políticas de como a violência é retratada, e a maneira que isso afeta os nossos aspectos sociocomportamentais.
“Vivemos hoje uma epidemia de violência urbana, que nos traz uma sensação de estarmos numa guerrilha, com o botão de alerta ligado”, afirmou Paula Carvalhaes, psicóloga especialista da área clínica e hospitalar.
A origem do “medo líquido”
Por isso o receio da Melissa não é descabido, e a leitura clássica do sociólogo polonês, Zygmunt Bauman, ajuda a dar introdução acerca da insegurança contemporânea. Bauman sustenta que os medos modernos — como violência urbana, desemprego e exclusão social — tornaram-se difusos,banalizados e corriqueiros no dia-a-dia, quase que intrínseco ao cotidiano. Há diferentes dimensões do medo para Bauman, sendo eles:
O medo da morte como arquétipo de todos os temores;
A ideia subjetiva do que é o mal; apontando a crise de confiança e a fragilidade dos vínculos sociais em um mundo onde não há fronteiras claras entre o “bem e mal”;
Frustração da promessa moderna de controle por meio da tecnologia, pois os esforços para tornar o mundo previsível acabaram gerando novas formas de incerteza.
O medo, segundo suas obras, assumea característica da chamada “modernidade líquida”, sendo redistribuído socialmente, e podendo ampliar desigualdades e inseguranças.
Paula Carvalhaes, narrou uma experiência pessoal de quando trabalhava em um ambulatório de saúde: “Trabalhei em ambulatório da rede SUS, localizado numa região de tráfico e uso de drogas. Cotidianamente ocorriam furtos de equipamento e de carros. Viver assim gera um estado hiper vigilância, e um estágio de stress sempre em alerta que não é saudável e compromete a saúde mental.”
Crédito: (Foto: Imagem cedida / @_Raccoon_holmes)
O que diz a psicologia?
Na mesma linha de Bauman, Mônica Gurjão, Psicóloga, Drª. em Psicologia Social pela PUC-SP, argumenta ainda que, viver em estado constante de alerta pode causar efeitos além do psicológico, indo também para o estado físico, como o aumento da ansiedade, tensionamento do corpo além de desgastar relações.
Ela ainda reforça que esse medo não é apenas um problema individual; ele é atravessado por experiências sociais, como violência, desigualdade, racismo e machismo, que mantêm muitas pessoas em vigilância contínua, especialmente às que estão em situação de vulnerabilidade.
“Não podemos analisar esse comportamento de forma isolada,como se o medo surgisse do nada ou fosse apenas um ‘problema individual’. O medo não se cria aleatoriamente. Ele é produzido e intensificado por experiências sociais”, disse a profissional à reportagem do VTVNews.
Segundo ela, mais importante do que o diagnóstico, é também compreender a base do medo.
Isto é, como dito pela psicóloga, “a sensação contínua de ameaça produz um ‘medo constante do mundo’. E quando o mundo é percebido como perigoso o tempo todo, muitas pessoas tendem a se fechar: diminuem a confiança, evitam vínculos, restringem a circulação e a convivência.”
A leitura da psicóloga encontra respaldo nos dados do Integrated Values Surveys (IVS), que apontam o Brasil entre os países com menor índice de confiança social do mundo. Segundo levantamento global publicado em 2024, com base em 90 economias avaliadas, apenas 7% dos adultos brasileirosconcordam com a afirmação de que “a maioria das pessoas ao redor pode ser confiável”, ou seja, a maioria dos brasileiros não confiam em seus semelhantes.
O Brasil aparece ao lado de Egito (7%), Chipre (7%), Equador (6%) e Colômbia (5%). Em contraste, os países nórdicos lideram o ranking global, e a China aparece em quarto lugar, com 63%, sendo o único país não ocidental entre os dez primeiros colocados.
Medo do crime contra o patrimônio
O medo dos brasileiros está implicado principalmente nos crimes patrimoniais, que têm impacto direto na rotina urbana. Em 2024, o Brasil contabilizou cerca de 2,16 milhões de casos de estelionato, alta de 7,8% em comparação com 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública do ano passado. Nos últimos seis anos, o crescimento acumulado foi de 408%.
No campo dos roubos e furtos, os dados mostram movimentos distintos. Na capital paulista, foram registrados 51.266roubos no primeiro semestre de 2025, redução aproximada de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já os furtos somaram cerca de 210 mil ocorrências nos primeiros dez meses do ano, crescimento de 4,6%, com destaque para subtração de celulares.
Em âmbito nacional, 850.804 aparelhos celulares foram levados em 2024. Em 2023, o total havia sido de 969.197. A proporção de furtos dentro do conjunto de registros aumentou ao longo dos anos: representavam 43,7% em 2018 e passaram a 53% em 2023 e 56% em 2024.
Apesar dos dados, alguns especialistas argumentam que punir quem é pego não produz mudanças duradouras, como argumentou Gurjão:
“Enfrentar a desigualdade implica discutir aspectos estruturais da sociedade: a convivência entre extrema riqueza e extrema pobreza, a exclusão histórica de determinados grupos, o acesso desigual a direitos humanos. Quando trazemos esses elementos à tona, percebemos o quanto frases como ‘bandido bom é bandido morto’ simplificam uma questão complexa e reforçam a ideia de que mais violência ou mais punição resolveria o problema.”
Apesar dos dados, alguns especialistas argumentam que punir quem é pego não produz mudanças duradouras (Foto: Arquivo pessoal)
Apesar da contrariedade à lógica punitivista, Mônica não nega a responsabilização individual, mas reconhece que “para reduzir o medo e a insegurança, é preciso ir além da lógica exclusivamente punitiva”.
Mônica conclui afirmando que a mídia e as redes sociais também exercem uma função política ao definir quais episódios de violência ganham destaque e a quem são associados. Com frequência, determinadas pessoas e locais são alvos do estigma, alimentando um medo difuso direcionado a grupos inteiros, como mulheres e pessoas negras. Na mesma linha, o sociólogo Ramirez argumentou:
“Políticas à direita defendem uma solução simples, mas ignorante, que seria reforçar com mais violência as forças policiais para combater o crime organizado e, para o outro lado, cria uma sensação de mal-estar sobre as políticas de segurança da esquerda.”
O sentimento de impunidade, concluiu Ramirez, ronda a sociedade é, em grande medida, reflexo da incapacidade dos governantes de enfrentamento e resolução dos problemas sociais estruturais, independentemente de sua orientação ideológica. A ausência de soluções consistentes e duradouras não faz outra coisa senão perpetuar ciclos de violência.
Investimento na segurança particular
O receio da violência urbana, das perdas e da exclusão passa a integrar a rotina, moldando inclusive comportamentos econômicos, e redefinindo a forma como os indivíduos ocupam o espaço público. Bauman argumentava que nesse contexto, a busca incessante por dispositivos de proteção — grades, câmeras, blindagens, distanciamento — não elimina a ansiedade, mas pode reforçar a percepção de ameaça, criando um ciclo em que o medo se retroalimenta e se naturaliza no cotidiano.
Bauman argumentava que a busca incessante por dispositivos de proteção não elimina a ansiedade (Foto: Divulgação)
O setor de segurança eletrônica no Brasil deixou de operar apenas em ciclos reativos a picos de criminalidade e passou a registrar crescimento consistente, com planejamento estruturado de longo prazo. Do ponto de vista econômico, Oscar Hilgert, diretor comercial da Positivo SEG, argumentou que o setor passou a dialogar de forma direta com áreas como infraestrutura urbana, mercado imobiliário, tecnologia da informação e gestão condominial.
“Cada vez mais essas soluções são compreendidas como investimento patrimonial e não como despesa emergencial. Empreendimentos que integram tecnologia de segurança desde a fase de projeto tendem a apresentar maior atratividade comercial, especialmente em grandes centros urbanos”, argumentou.
Uma pesquisa da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias aponta que 64% dos compradores consideram a “maior segurança do condomínio” um fator determinante para pagar valor acima da média por um imóvel.
Já um estudo publicado na Revista Brasileira de Segurança Pública, que analisou o período de 24 meses antes e 24 meses após a implantação do videomonitoramento em Guararema, identificou redução significativa de furtos na área central monitorada, indicando impacto localizado da tecnologia na diminuição de crimes contra o patrimônio. Hilgert finalizou, argumentando que a segurança eletrônica não é apenas respostas à crises, mas já integra o planejamento de empreendimentos, residências e projetos, e que compõe a economia nacional:
“O setor de segurança privada e eletrônica já representa um componente relevante da economia brasileira, tanto pela geração de empregos diretos e indiretos quanto pela sua cadeia produtiva, que envolve indústria, tecnologia, serviços, telecomunicações e software.”
Jornalista formado em junho de 2025, atuando desde 2023 com foco em reportagens de profundidade, gestão de projetos, fotografia e pesquisa. Autor de obra sobre temas sociais e políticos, com análise crítica da democracia e da sociedade.