A possibilidade de um El Niño 2026/2027 entrar para a história dos registros climáticos não deve ser encarada apenas como mais uma notícia meteorológica. Trata-se de um sinal de alerta para governos, produtores rurais, cadeias de abastecimento e mercados globais de alimentos.
As projeções mais recentes do Instituto Internacional de Pesquisa para Clima e Sociedade (IRI), divulgadas pela Meteored, indicam que as anomalias de temperatura na superfície do Oceano Pacífico Equatorial podem ultrapassar 2,5°C nos próximos meses, patamar compatível com os chamados “super El Niños”. Caso se confirme, o fenômeno poderá figurar ao lado dos eventos históricos de 1982/83, 1997/98 e 2015/16, responsáveis por secas severas, enchentes, perdas agrícolas bilionárias e impactos econômicos em escala global.
O aspecto mais preocupante não é apenas a intensidade projetada. É o contexto em que esse possível fenômeno surge. O planeta atravessa um período de aquecimento global sem precedentes, com oceanos registrando temperaturas recordes e sistemas climáticos cada vez mais instáveis. Isso significa que os efeitos de um El Niño extremo podem ser amplificados por uma atmosfera já mais quente e carregada de energia.
Uma pesquisa publicada na revista científica Nature Communications concluiu que os impactos econômicos do El Niño são muito maiores e mais duradouros do que se imaginava. O estudo calculou que os eventos extremos de 1997/98 e 2015/16 provocaram perdas globais equivalentes a US$ 2,1 trilhões e US$ 3,9 trilhões, respectivamente. Mais preocupante ainda é a conclusão de que os prejuízos continuam sendo sentidos durante vários anos após o encerramento oficial do fenômeno, afetando produtividade, crescimento econômico e segurança alimentar.
Outra pesquisa publicada também na Nature Communications aponta que o aquecimento das camadas profundas dos oceanos pode favorecer eventos de El Niño mais intensos no futuro. Segundo os pesquisadores, as mudanças observadas no sistema climático global estão alterando mecanismos naturais do Pacífico, aumentando a probabilidade de fenômenos extremos e dificultando previsões baseadas exclusivamente nos padrões históricos.
Como o El Niño afeta a agricultura mundial
Para a agricultura, os riscos são particularmente relevantes. A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou recentemente um levantamento baseado em 41 anos de imagens de satélite que identifica regiões agrícolas com maior vulnerabilidade aos efeitos do El Niño. O estudo mostra que os eventos fortes e muito fortes estão associados a secas prolongadas em áreas produtoras estratégicas e a alterações importantes nos regimes de chuva, comprometendo lavouras, pastagens e sistemas de abastecimento de água.
Brasil pode enfrentar extremos climáticos em diferentes regiões
No Brasil, os efeitos costumam ser desiguais. Enquanto o Sul frequentemente registra excesso de chuvas e aumento dos riscos de enchentes, parte do Norte e do Nordeste tende a enfrentar redução das precipitações e períodos de estiagem mais severos. O resultado é um cenário de maior imprevisibilidade para o planejamento agrícola, justamente em um momento em que o país se consolidou como um dos principais fornecedores globais de alimentos.
O setor agropecuário brasileiro desenvolveu avanços importantes em tecnologia, irrigação, manejo climático e agricultura de precisão. Ainda assim, nenhum sistema produtivo é completamente imune a eventos extremos. A preocupação não deve se limitar às perdas dentro das porteiras. Problemas logísticos, aumento dos custos de produção, oscilações nos preços internacionais e impactos sobre a oferta de alimentos podem gerar reflexos em toda a economia.
Segurança alimentar e economia também estão em risco
Recentemente, a Organização das Nações Unidas lançou um alerta internacional solicitando recursos emergenciais para proteger quase 9 milhões de pessoas em 22 países considerados altamente vulneráveis aos impactos do próximo El Niño. O movimento demonstra que a preocupação deixou de ser apenas científica e passou a integrar a agenda de segurança alimentar global.
A boa notícia é que, diferentemente de muitos desastres naturais, o El Niño oferece meses de antecedência para preparação. A má notícia é que o tempo disponível para transformar previsões em ações concretas está diminuindo. Se as projeções atuais se confirmarem, o mundo poderá enfrentar um dos mais intensos testes climáticos das últimas décadas.O desafio agora não é descobrir se o fenômeno será forte. É avaliar se governos, produtores e mercados estarão preparados para conviver com suas consequências.