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O brasileiro está deixando o arroz de lado? Consumo despencou mais de 40% em 27 anos

Queda foi impulsionada por mudanças nos hábitos alimentares, envelhecimento da população e busca por refeições mais práticas
Mesa com refeições como arroz, hambúrguer e frango, com gráfico em queda e texto sobre consumo de arroz no Brasil despencando mais de 40% em 27 anos

Durante décadas, o arroz ocupou um lugar quase incontestável na alimentação dos brasileiros. Presente diariamente na mesa de milhões de famílias, o cereal ajudou a construir a identidade alimentar do país e se consolidou como uma das principais bases nutricionais da população. Mas os números mostram que algo mudou.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o consumo per capita de arroz beneficiado no Brasil caiu de aproximadamente 48,7 quilos por habitante ao ano em 1997 para cerca de 28,5 quilos em 2024. Trata-se de uma redução superior a 40% em pouco mais de duas décadas.

O dado chama a atenção porque ocorreu justamente em um período em que a população brasileira cresceu significativamente. O país ganhou quase 80 milhões de habitantes desde meados da década de 1980, mas o mercado interno de arroz não acompanhou esse avanço na mesma proporção.

A primeira reação pode ser atribuir a queda aos preços ou à concorrência de outros alimentos. No entanto, uma análise mais ampla mostra que a mudança é muito mais profunda e está relacionada a transformações sociais, demográficas e culturais.

Mudança de hábitos explica perda de espaço do cereal

Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que os brasileiros vêm reduzindo gradativamente o consumo de alimentos preparados em casa e ampliando a participação de refeições prontas, lanches rápidos e alimentos ultraprocessados na dieta. O fenômeno é mais evidente nos centros urbanos, onde o tempo disponível para cozinhar se tornou cada vez mais escasso.

A busca por conveniência talvez seja a principal explicação para a perda de espaço do arroz. O prato tradicional preparado diariamente exige planejamento, tempo de cozimento e organização doméstica. Em contrapartida, aplicativos de entrega, refeições prontas, sanduíches, massas instantâneas e opções congeladas oferecem praticidade imediata para uma população que enfrenta jornadas de trabalho mais longas e deslocamentos cada vez maiores.

Mas a conveniência não é a única força em movimento.

População envelhece e famílias menores cozinham menos

Outro fator importante está nas mudanças demográficas do país. Projeções do IBGE indicam que o Brasil está envelhecendo rapidamente. A população acima de 60 anos cresce em ritmo acelerado e, naturalmente, tende a consumir menos calorias do que as faixas etárias mais jovens. Isso impacta diretamente alimentos básicos consumidos em grandes volumes, como arroz, feijão e massas.

Há ainda uma transformação silenciosa relacionada ao tamanho das famílias. Dados do Censo Demográfico mostram que o número médio de moradores por domicílio caiu de forma consistente nas últimas décadas. Famílias menores cozinham menos, desperdiçam menos alimentos e tendem a buscar embalagens menores e refeições mais práticas.

Prato retangular com porção de arroz branco, carne assada e salada verde ao lado de um molho em uma mesa de madeira, retratando consumo de arroz no Brasil.
Tendência de consumir menos calorias e usos de medicamentos para controlar a obesidade contribuem para a queda – Foto: Canva

Medicamentos para obesidade podem acelerar a tendência

Uma terceira tendência começa a ganhar força e pode alterar ainda mais esse cenário nos próximos anos. Estudos publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela revista científica The Lancet apontam um crescimento acelerado do uso de medicamentos da classe GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes.

Esses medicamentos reduzem significativamente o apetite e o volume de alimentos consumidos. Embora seus impactos sobre o mercado alimentar ainda estejam sendo estudados, especialistas já observam mudanças no padrão de compra de alimentos em países onde seu uso se popularizou.

Setor aposta em inovação para reconquistar consumidores

Paradoxalmente, enquanto o consumo diminui, a cadeia produtiva do arroz vive um dos momentos mais avançados de sua história. Pesquisas da Embrapa demonstram que a produtividade das lavouras brasileiras cresceu de forma consistente nas últimas décadas graças à evolução genética, ao manejo de irrigação e ao uso de tecnologias de precisão. O Brasil produz mais e melhor do que no passado.

Esse contraste cria um novo desafio para o setor. Durante muito tempo, a preocupação era aumentar a produção para atender à demanda. Agora, a questão central passa a ser como reconquistar o consumidor.

A resposta pode não estar apenas no grão tradicional. Assim como ocorreu em outros segmentos do agronegócio, a saída talvez esteja na inovação. Produtos prontos para consumo, embalagens individuais, linhas premium, versões integrais, snacks à base de arroz e soluções voltadas para diferentes perfis de consumidores podem representar oportunidades para reposicionar o cereal diante das novas exigências do mercado.

O que os números mostram é que o arroz não está sendo abandonado por falta de qualidade, preço ou disponibilidade. Ele está enfrentando uma mudança de comportamento da sociedade brasileira.

E talvez essa seja a transformação mais difícil de enfrentar. Afinal, aumentar a produtividade depende de tecnologia. Recuperar hábitos de consumo exige compreender como as pessoas vivem, trabalham e se alimentam. O futuro do arroz brasileiro dependerá cada vez menos da lavoura e cada vez mais da capacidade do setor de se adaptar à nova realidade da mesa dos brasileiros.


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Autor

  • Elcio Ramos

    Elcio Ramos é jornalista, fundador da Newslink Comunicação, empresa especializada em comunicação e relacionamento empresarial e diretor da Haka 360, consultoria especializada em estratégias de marketing.

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