A confirmação da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato desencadeou forte aversão ao risco no mercado financeiro nesta segunda-feira (26). A reação negativa elevou a cotação do dólar hoje a R$ 5,60 e derrubou o Ibovespa, que acionou o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020.
A turbulência reflete a reversão imediata das apostas de investidores, que precificavam vitória do senador Flávio Bolsonaro após o primeiro turno. O aumento da percepção de risco fiscal, dúvidas sobre a equipe econômica e contestações políticas alimentam a volatilidade nas mesas de operação.
Circuit breaker interrompe negociações na B3
O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores, registrou perdas expressivas logo no início do pregão. O recuo superou 10% e atingiu cerca de 17% após a reabertura, oscilando perto dos 171 mil pontos, bem abaixo dos 205.082 pontos registrados na sessão anterior.
A queda brusca forçou a B3 a acionar o circuit breaker às 9h57 (horário de Brasília). O mecanismo paralisou as negociações por 30 minutos para permitir que operadores e investidores recalibrassem suas ordens em meio ao pânico inicial.
No mercado internacional, o fundo EWZ já antecipava o tamanho do tombo antes da abertura local, ao recuar cerca de 27% no pré-mercado de Nova York.
| Indicador / Ativo | Cotação Anterior | Cotação Atual | Variação |
|---|---|---|---|
| Ibovespa (B3) | 205.082 pts | ~171.000 pts | -15,88% a -17% |
| Dólar Comercial | R$ 4,99 | R$ 5,60 | +12% |
| EWZ (Bolsa de NY) | US$ 42,59 | US$ 31,20 | -26,74% |
| Dólar Futuro (CME Chicago) | Não informado | R$ 5,58 | +11,9% |
Dólar sobe mais de 11% e juros futuros disparam
No câmbio, o dólar comercial subiu mais de 12% em relação aos R$ 4,99 da última sessão e atingiu o patamar de R$ 5,60. No mercado futuro de Chicago, os contratos de real com vencimento em novembro cederam mais de 10%, com cotação equivalente a R$ 5,58.
O movimento cambial reflete o choque das urnas. No primeiro turno, Flávio Bolsonaro liderou com 47,03% contra 45,16% de Lula. Na votação definitiva, o petista virou o placar e venceu com 51,79% dos votos válidos, ante 48,21% do adversário.
A curva de juros futuros acompanhou a disparada da moeda americana:
- Janeiro de 2027: subiu para 13,97%;
- Janeiro de 2031: saltou de 12,57% para 14,46%;
- Janeiro de 2033: avançou cerca de 1,9 ponto percentual, alcançando quase 14,6%.
Economistas alertam que a alta das taxas encarece o crédito para empresas e famílias, além de frear o consumo e os investimentos produtivos.
Bancos estão entre os setores mais afetados
O setor bancário concentrou as maiores perdas no início do dia. Por reunirem os papéis mais líquidos da B3, as instituições financeiras funcionam como a primeira porta de saída para investidores estrangeiros que reduzem exposição ao Brasil.
A abertura registrou fortes quedas nas principais ações:
| Instituição Financeira | Variação na Abertura | Motivo Principal da Reação |
|---|---|---|
| Banco do Brasil | -31,0% | Controle estatal e dependência direta das diretrizes do governo. |
| Bradesco | -24,5% | Alta concentração de investidores estrangeiros saindo da bolsa. |
| Itaú | -15,6% | Papel líquido vendido rapidamente para corte de exposição ao Brasil. |
| Santander | -3,6% | Menor concentração das apostas prévias montadas no primeiro turno. |
A desvalorização expressiva do Banco do Brasil decorre de sua condição de estatal, diretamente ligada às decisões do acionista controlador. Além disso, a escalada dos juros longos reduz o valor dos títulos públicos mantidos em carteira pelas instituições e encarece o custo de captação.
Empresas endividadas sofrem com avanço do CDI
As companhias com maior volume de dívidas também enfrentaram forte onda de vendas. Papéis de Vamos, Cosan, Localiza e Casas Bahia anotaram desvalorizações entre 40% e 50%. Outras empresas com endividamento alto frente à geração de caixa, como Ânima e Ecorodovias, também registraram perdas severas.
A alta dos juros futuros penaliza essas empresas por três vias principais:
- Despesa financeira: a maior parte das dívidas corporativas acompanha o CDI;
- Custo de rolagem: o crédito corporativo encarece em momentos de estresse de liquidez;
- Taxa de desconto: o mercado aplica taxas maiores sobre os lucros futuros esperados.
O que dizem os analistas sobre o cenário fiscal e institucional
Especialistas avaliam que o mercado exige agora um prêmio de risco superior ao cobrado antes do pleito eleitoral.
Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos, destaca que a decisão extraordinária do STF de prorrogar a votação até 19h gerou questionamentos jurídicos. A contestação formal dos resultados anunciada pela candidatura derrotada adiciona ruído institucional às incertezas sobre as contas públicas.
Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, projeta volatilidade persistente ao longo de toda a semana. Para a consultoria, o anúncio rápido da equipe econômica e a escolha do titular do Ministério da Fazenda trarão previsibilidade aos investidores. A Suno estima avanço do PIB em 1,3% para 2027, mas alerta para inflação resistente e dólar próximo de R$ 5,40 de forma contínua.
William Castro Alves, estrategista-chefe da Avenue, acrescenta que os compromissos fiscais mantidos ou ampliados criam desafios pesados para o orçamento a partir de 2027.
Correção abre oportunidades de compra seletiva
Apesar do pessimismo generalizado, gestores apontam que as vendas em bloco criam distorções no preço de ativos sólidos e abrem oportunidades de compra.
Rohan Daswani, da Gavekal Research, destaca que o país preserva fundamentos relevantes, como taxas reais de juros atrativas, forte presença no mercado global de commodities e papel estratégico na oferta de minerais críticos. Daswani ressalta ainda que a composição conservadora do Congresso Nacional impõe limites institucionais a mudanças radicais na condução da economia.
A analista Maria Carolina Luchesi, da Hike Capital, mapeou três segmentos com potencial de resiliência:
- Grupo Simpar (Simpar, Movida e Vamos): concluiu um ciclo rápido de desalavancagem, fechou o trimestre com dívida líquida em 2,8 vezes o Ebitda e reforçou o caixa com R$ 3 bilhões em aumentos de capital.
- Farmácias (Pague Menos): atua em segmento essencial, possui múltiplos atrativos de negociação e requer atenção apenas quanto à fase de transição da nova escala trabalhista.
- Construtoras de baixa renda (Cury, Direcional e Tenda): mantêm proteção operacional por utilizarem recursos do FGTS via programa habitacional Minha Casa, Minha Vida, o que reduz o impacto direto das altas na taxa Selic.