Na abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira (23) que o Brasil está sob ataque internacional “sem precedentes” e voltou a criticar o que chamou de “sanções arbitrárias” e “intervenções unilaterais”.
O discurso antecede a fala do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e marca o primeiro encontro formal entre os dois líderes, em meio ao crescente atrito diplomático entre os países.
Lula declarou que “a agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável” e condenou ações externas que, segundo ele, violam a soberania nacional. Sem citar diretamente Washington, mas em clara referência às sanções aplicadas por autoridades americanas contra membros do governo brasileiro, o presidente afirmou:
“Mesmo sob um ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia reconquistada há 40 anos pelo seu povo, após duas décadas de governos ditatoriais”.
Críticas ao multilateralismo enfraquecido
Ao abrir oficialmente os discursos da Assembleia — como é tradição para o Brasil —, Lula afirmou que a ONU vive uma “nova encruzilhada” e que os ideais que fundamentaram sua criação “estão ameaçados como nunca estiveram”. Para ele, o multilateralismo perdeu força diante de decisões unilaterais que, nas palavras do presidente, atentam contra a estabilidade global.
“O multilateralismo está diante de nova encruzilhada. A autoridade desta Organização está em xeque”, disse. “Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando regra”, completou.
O presidente reforçou que a ingerência estrangeira em temas internos do Brasil, incluindo processos judiciais, é “inaceitável” e “conta com apoio de falsos patriotas”. Segundo ele, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) teve amplo direito de defesa e não cabe a outras nações questionarem decisões tomadas no âmbito da Justiça brasileira. “Nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, afirmou.

Conflito em Gaza e homenagem a líderes humanistas
Ao abordar o conflito entre Israel e Hamas, Lula foi enfático ao declarar que “nada justifica o genocídio em Gaza”. Segundo ele, o uso da fome como arma de guerra e o deslocamento forçado de civis “é praticado impunemente”. O presidente também expressou solidariedade a judeus que se opõem à ofensiva israelense.
Lula encerrou o discurso citando as figuras do ex-presidente uruguaio José “Pepe” Mujica e do Papa Francisco, a quem descreveu como exemplos de lideranças humanistas.
“Ambos encarnaram como ninguém os maiores valores humanistas que esta Assembleia deve preservar. Precisamos de lideranças com clareza de visão que entendam que a ordem internacional não é um jogo de soma zero. O século 21 será cada vez mais multipolar. Para ser pacífico, não pode deixar de ser multilateral”, concluiu, sendo aplaudido pelos presentes.