A coluna dessa semana segue firme e forte e traz uma reflexão que acredito todo o imigrante, quando sai de seu país natal para escrever um novo capítulo em sua história, acaba por ter.
Não, não pretendo falar do óbvio. E me recuso a tratar as saudades de forma ligeira, porque esse sentimento é nobre demais para ser tratado de forma banal.
Esqueça, também, a lista das comidas preferidas que já não mais existem, ou as reclamações sobre a falta do sol tropical, ou ainda, a disponibilidade que o brasileiro tem em acolher o próximo de forma calorosa e, que muitos europeus diriam ser até invasiva.
Quando se reescreve uma nova história em outro país, deixa-se pra trás não só os familiares e os amigos que amamos, mas deixa-se pra trás um pouco de quem fomos com eles. Um sentimento muito parecido com o luto, mas de forma distópica.
E é aqui que muitos imigrantes não percebem o salto existencial que se acaba por dar. Já não somos mais quem fomos, nosso cenário é outro e nossa rede de proteção é composta por pessoas que talvez nunca seriam nossos amigos em nosso país de origem.
O imigrante, mais do que nunca, está em construção. E esse trabalho não é nada fácil. Há facetas que nunca imaginávamos ter, há necessidades de socialização que nos são postas à prova e, também, há a árdua tarefa de preservar memórias e afetos mesmo que à distância de muitas horas.
Segundo a psicóloga Renata Visani (@renata.visani), que atua em Faro: “Migrar não é apenas mudar de país; é aprender a reconstruir quem se é longe de tudo aquilo que um dia nos disse quem éramos.”

Sempre digo que um imigrante será sempre considerado um imigrante no país que escolheu e o acolheu, independentemente do tempo que more nele. E, estranhamente, se sentirá sempre um “intruso” no seu país de origem, quando volta ocasionalmente para visitar seus amigos e familiares.
O sentimento de pertencimento de quem sai e não volta, ou de quem sai e volta, de tempos em tempos, rompe-se de forma natural. E cabe a cada um de nós lidar com ele.
E não são poucos os imigrantes que, apesar dos pesares e de todos os esforços e táticas de sobrevivência, precisam de ajuda psicológica.
E há uma legião de psicólogos que atua nessa área. As queixas são sempre as mesmas: falta de integração na comunidade local, socialização deficitária, xenofobia, racismo e falta de pertencimento.
Renata Visani ainda diz: “Do ponto de vista psicológico, o processo migratório envolve uma espécie de luto identitário. A pessoa não perde apenas um território geográfico, mas também referências afetivas, papéis sociais e a rede de pertencimento que ajudava a sustentar quem ela era. Migrar exige elaborar essas perdas silenciosas enquanto se constrói, pouco a pouco, uma nova forma de existir no mundo. É um processo profundamente humano, muitas vezes invisível, que pede tempo, acolhimento e, em alguns casos, apoio psicológico para que a pessoa consiga integrar o passado que deixou com a vida que tenta construir.”
Se navegar é preciso, pertencer também o é. Façamos a nossa parte.