Eles chegam em grupo com crachás pendurados, tablets nas mãos e um discurso técnico na ponta da língua, dizendo estar ali para “fazer uma pesquisa de campo”. Mas o verdadeiro objetivo passa longe da formalidade corporativa. A Polícia Civil investiga a atuação de um grupo suspeito de espionar o funcionamento de restaurantes no litoral de São Paulo.
A atuação do grupo segue um padrão que chamou a atenção das autoridades. Segundo relatos obtidos pelo VTV News, os falsos funcionários se passam por representantes da nova empresa de delivery, Keeta, e demonstram conhecer a rotina dos estabelecimentos que abordam. Em todos os casos, chegam em horários de pouco movimento e fazem perguntas detalhadas.
É como se eles fizessem parte da “equipe de integração” da plataforma. Tentam estabelecer um clima de confiança logo nos primeiros minutos e mencionam, inclusive, termos usados internamente por empresas do setor. Enquanto alguns integrantes conversam com os atendentes, outros circulam pelo ambiente, observam o fluxo de pedidos e tiram fotos. Muitas fotos.

Imagens mostram como o grupo agia dentro dos restaurantes
Em um dos comércios, a gerente – que não será identificada – contou que o “grupo de golpistas” apareceu por volta do horário de almoço. “Falaram em pesquisa, mas depois pediram informações muito específicas sobre preços e operação. A gente estranhou e percebeu que tinha algo errado”, relatou, em entrevista exclusiva ao VTV News na sexta-feira (7).
Durante a visita, os falsos representantes faziam perguntas detalhadas sobre pedidos, cardápios, formas de pagamento e taxas de comissão, além de solicitar dados de treinamento e acesso à área operacional. A empresa chinesa Meituan, que administra a Keeta, informou que as informações poderiam ser usadas para comprometer a atuação da companhia no país.
As imagens de monitoramento são chocantes. No vídeo a seguir obtido pelo VTV News, é possível ver um grupo de cerca de dez pessoas chegando a um restaurante no bairro Ponta da Praia, em Santos, próximo às 13h do dia 30 de outubro (veja abaixo). Eles afirmam estar no local para “ajustar informações” e avaliar o desempenho da plataforma de delivery.
“Tiraram foto de tudo. Me senti enganada”
“Disseram que era uma pesquisa. Primeiro, citaram o nome de uma moça com quem a gente realmente vinha tratando. Por isso, deixamos entrar”, relembra a comerciante, de 62 anos. “A minha sorte é que eu não cuido da parte financeira”.
Ainda segundo o relato da mulher, o caso coincidiu com um erro no sistema. “A loja ainda não devia estar ativa no aplicativo porque a gente ainda precisava ajustar títulos e preços. Mesmo assim, abriu no mesmo dia, sem autorização. A gente só ia começar cinco dias depois. Foi muito estranho. O primeiro golpe que eu passei. Me senti enganada”.
O grupo permaneceu cerca de 30 minutos no local e, em seguida, partiu para outro estabelecimento. Para a gerente, o episódio abalou a confiança na nova plataforma. “A gente quer continuar, mas depois desse susto fica difícil. O medo é que apareçam outros dizendo que são da empresa. A gente já não sabe mais em quem confiar”.
“Eles não se constrangem, sabem que estão sendo filmados”
Outro empresário, de 58 anos, dono de um restaurante tradicional da cidade, também recebeu o grupo, mas duas vezes. “Na primeira, [em 30 de outubro], chegaram dizendo que eram da Keeta. Nossa funcionária deixou eles entrarem atrás do balcão, olharam o sistema e fizeram várias perguntas. Até então, não achamos nada de anormal”, conta.
Dias depois, o grupo retornou. “Eles não ficam constrangidos, sabem que estão sendo filmados. Ficaram perguntando quantos pedidos saem por dia, quantos pratos, essas coisas todas. Não sabemos com quem estamos lidando”, relata. O comerciante afirma que, ao ser alertado pela Keeta, orientou a equipe a acionar a polícia em caso de nova tentativa.
“A instrução é pegar o crachá e ligar para a polícia. Vamos entregar as imagens. Mas o problema é que ninguém sabe o que eles querem. Se é clonar o estabelecimento, prejudicar a concorrência ou ameaçar alguém. Está tudo muito obscuro”, disse.

Posicionamento oficial e investigação
Por meio de nota, a Keeta informou que colabora com as autoridades e orienta os restaurantes parceiros a confirmarem a identidade de qualquer visitante diretamente com seus gerentes de conta. “Os restaurantes possuem equipes definidas e dedicadas às suas operações”, destacou a empresa.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) confirmou que o pedido de instauração de inquérito foi encaminhado à 3ª Delegacia de Polícia (DP) de Santos, responsável por analisar a documentação e verificar possíveis indícios de crime. Os responsáveis pelos restaurantes devem prestar depoimento nesta semana.
Já o Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SINHORES) afirmou que, até o momento, não foi notificado formalmente por associados nem pela Keeta sobre o caso.