Um áudio atribuído ao mestre de obras de uma construção mostra que as atividades no local foram suspensas após a morte de Bruno Reis dos Santos, trabalhador que desmaiou dentro de uma caixa-d’água subterrânea em Santos, no litoral de São Paulo. Na gravação, ele fala sobre estar “neurótico” com o ocorrido.
Conforme noticiado anteriormente, Bruno morreu na terça-feira (1º), após entrar na estrutura durante o expediente para realizar um “tratamento”. Outros dois funcionários passaram mal ao tentar retirá-lo do local e também precisaram de atendimento médico. A causa da morte, no entanto, ainda não foi determinada.
O VTV News teve acesso à gravação nesta sexta-feira (4), por meio de uma testemunha que não será identificada. No áudio, feito no dia seguinte à ocorrência, é possível ouvir o responsável pela obra afirmando estar “sem cabeça”, “zonzo” e “neurótico” com o ocorrido. O mestre de obras também orienta que ninguém trabalhe nos dias seguintes e que o retorno ocorra somente após o próximo feriado, na quarta-feira (9). A identidade dos envolvidos será preservada e, por isso, o conteúdo foi editado (ouça abaixo).
Transcrição do áudio
“Oh, [funcionário], amanhã nós não vamos trabalhar, não, tá? Nem amanhã. Essa semana, não. Só depois do feriado, em luto a esse rapaz, entendeu? E fica atento ao telefone porque, talvez, quinta-feira ou sexta, não sei. Amanhã não vai trabalhar ninguém, ninguém, ninguém.
Possa ser que, quinta ou sexta, eu te ligo pra você ir lá na obra, [além de nomes citados], pra ver alguma coisa lá, tá bom? Pra poder proteger as coisas. Mas, a princípio, não vai trabalhar ninguém.
Pode ligar. Se você tiver o telefone de alguém, pode ligar e avisar também, que eu tô sem cabeça. Eu tô aqui zonzo, eu tô aqui neurótico. Eu tô… Avisar que, pra quem tu conhecer, pra quem tu tiver o número, que não vamos trabalhar por esses dias, não, tá bom? E eu vou te ligar pra você voltar, pra fazer alguma proteção, mas no dia certo, na hora certa, junto com o [nome] e comigo”.
Morte dentro de caixa-d’água
O trabalhador entrou na caixa-d’água subterrânea por volta das 8h20 de terça-feira (1º), durante o primeiro dia dele na obra. Segundo apurado pelo VTV News, ele havia acabado de entregar os documentos para o setor de administração da De.sign Construções e Incorporações e ainda não havia sido registrado em carteira.
Um colega tentou retirá-lo e também passou mal. Outro funcionário entrou no local para ajudar e igualmente perdeu a consciência. Os três foram retirados da estrutura por equipes de resgate. A suspeita inicial é de que eles possam ter inalado algum gás ou produto químico presente dentro da caixa-d’água. O primeiro laudo do Instituto Médico Legal (IML) foi inconclusivo, e novos exames foram solicitados.
Falta de EPIs
Funcionários também relataram à reportagem que não havia equipamentos de proteção individual (EPIs), como máscaras ou cilindros de oxigênio, adequados para a entrada na estrutura. Segundo o funcionário Tiago Matheus, uma caixa com máscaras foi encontrada pela Polícia Militar (PM) após a corporação ser acionada para o local, mas os trabalhadores não teriam tido acesso ou conhecimento da presença dos itens antes do ocorrido.
“Não tinha máscara, não tinha nada. Isso daí é tudo mentira. Pra descer ali, tinha que ter pelo menos um técnico de segurança pra [antes] visitar o local e [ver] se podia descer ou não. E não tinha nada disso”,
afirmou.
Outro trabalhador ouvido pela VTV SBT, Adriano Coelho, também denunciou problemas relacionados à segurança na empresa. Ele afirmou que, desde o início da obra, teria presenciado situações em que equipamentos não eram fornecidos e os funcionários precisavam buscar os itens por conta própria.
“Muita coisa aí está irregular. Nós não ‘tem’ EPI, acho que para economizar. Não dá máscara, luva [o mestre de obras] dá, quando nós ainda pede fica negando. Pra nós pegar uma bota tem que insistir em muita coisa, a gente tem que trabalhar de sapato com bota rasgada. A luva, também, ele fala que tem que durar uns três mês” (sic),
complementou.
O velório e o sepultamento da vítima aconteceram na tarde desta quinta-feira (3). O velório foi realizado na OSAN Funerária Praia Grande, e o sepultamento ocorreu no Cemitério Grande Planície.

Versões distintas
Tanto a forma como Bruno morreu quanto a falta de equipamentos de proteção são contestadas pelo mestre de obras, segundo o boletim de ocorrência (BO). Ele afirmou que os trabalhadores teriam entrado nas caixas-d’água sem autorização e antes da chegada do técnico de segurança responsável pela orientação do serviço.
O técnico, por sua vez, confirmou que as caixas-d’água estavam lacradas e afirmou que, por conta disso, poderiam gerar gases – que não foram especificados no documento policial. Ele também declarou que não foi consultado pelo mestre de obras antes da entrada dos funcionários nas estruturas.
Por meio de nota à imprensa, a De.sign Construções e Incorporações SPE Ltda., responsável pela obra, informou que apura as circunstâncias do acidente e presta suporte às famílias das vítimas. A empresa também declarou estar colaborando com as autoridades responsáveis pela investigação.




