As investigações da Operação Infiltrados revelaram uma estrutura que, segundo o Ministério Público de São Paulo, conectava agentes públicos e ex-integrantes das forças de segurança a suspeitos ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Os promotores apuram suspeitas de corrupção, vazamento de informações sigilosas, extorsão e favorecimento à facção criminosa.
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) deflagrou a operação como desdobramento de duas ações realizadas em 2025. Na ocasião, os investigadores apuravam um plano para matar um promotor de Justiça e um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC.
Chefe da Dise se reuniu com suspeito antes de operação
Um dos principais focos da investigação envolve o então chefe do setor de investigação da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Campinas.
Segundo o Ministério Público, uma semana antes da Operação Pronta Resposta, um dos homens apontados como executor do plano para matar o promotor Amauri Silveira Filho se encontrou com o policial.
Além disso, vídeos obtidos pelos investigadores registraram a reunião. Agora, o Gaeco tenta descobrir se o policial compartilhou informações sigilosas sobre as investigações e qual foi a finalidade do encontro.
Enquanto isso, os promotores ainda analisam o conteúdo das conversas e a possível ligação entre a reunião e o plano de atentado.
Ex-estagiário teria usado acesso ao MP para obter dados
Outro núcleo da investigação envolve um ex-estagiário do Ministério Público que trabalhava em uma Promotoria Criminal de Campinas.
De acordo com os promotores, ele buscou se aproximar da instituição para acessar sistemas internos e bancos de dados utilizados nas investigações.
Com essas informações, o suspeito identificava integrantes do PCC com alto poder aquisitivo. Em seguida, exigia dinheiro em troca de uma suposta proteção contra operações policiais e investigações conduzidas pelo próprio Ministério Público.
A suspeita surgiu após a análise do celular de Maurício Silveira Zambaldi, conhecido como “Dragão”. Ele foi preso em 2025 por suspeita de participação no plano para matar o promotor do Gaeco.
No aparelho, os investigadores encontraram mensagens relacionadas à cobrança de R$ 500 mil. Em troca, os autores prometiam impedir que informações chegassem às autoridades.
Grupo contava com apoio de outros agentes públicos
Segundo as investigações, o ex-estagiário não atuava sozinho.
O Ministério Público afirma que ele recebia auxílio de um ex-investigador da Polícia Civil, expulso da corporação anos atrás por envolvimento em um caso de extorsão mediante sequestro. Além disso, um policial penal também aparece nas apurações.
Esses agentes tinham acesso a sistemas restritos e realizavam consultas privilegiadas. Dessa forma, conseguiam identificar integrantes da facção com maior capacidade financeira.
Com base nesses dados, os investigados escolhiam possíveis alvos para as extorsões.
Além disso, mensagens obtidas pelos promotores indicam que o ex-policial civil intermediou o encontro entre o então chefe da Dise e um empresário apontado como integrante da estrutura financeira do PCC.
Internet de escritório de advocacia também entrou na investigação
Outro elemento que chamou a atenção dos investigadores foi o uso da conexão de internet de um escritório de advocacia em parte das ações atribuídas ao grupo.
Por esse motivo, as equipes cumpriram mandado de busca e apreensão no local durante a Operação Infiltrados.
A Comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanhou as diligências para garantir as prerrogativas profissionais da advocacia.
Até agora, o Ministério Público não informou qual seria o grau de participação de eventuais envolvidos ligados ao escritório.
Plano para matar promotor deu origem às descobertas
As investigações começaram em agosto de 2025, durante a Operação Pronta Resposta. Naquele momento, o objetivo era impedir um atentado contra o promotor de Justiça Amauri Silveira Filho, integrante do Gaeco de Campinas.
Com o avanço das apurações, os investigadores identificaram indícios de vazamento de informações, corrupção e uma possível tentativa de infiltração em estruturas do sistema de Justiça e da segurança pública.
Além disso, os promotores encontraram elementos relacionados à Operação Off White. A ação investigava um esquema de lavagem de dinheiro associado a integrantes do PCC.
Entre eles estava Sérgio Luiz de Freitas, conhecido como “Mijão” ou “Xixi”. Na época, ele figurava entre os principais líderes da facção em liberdade.
Investigação continua
O Ministério Público ainda não divulgou os nomes dos investigados. Além disso, os promotores não informaram se algum integrante da facção chegou a efetuar pagamentos relacionados às supostas extorsões.
As equipes continuam reunindo provas para esclarecer o alcance do esquema. Ao mesmo tempo, os investigadores tentam identificar outros possíveis envolvidos e definir a responsabilidade individual de cada suspeito.