Mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro indicam que ele organizou e pagou uma festa com garotas de programa e um chef de cozinha para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques. O encontro teria ocorrido em fevereiro de 2025, no apartamento de Vorcaro, em São Paulo.
As conversas, trocadas pelo WhatsApp e apreendidas pela Polícia Federal (PF), foram divulgadas pela revista piauí. O material reúne 125 mensagens relacionadas aos preparativos e à realização do evento, incluindo referências à chegada de mulheres, à presença de um ministro e ao pagamento por serviços prestados.
Nunes Marques, que também preside o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), negou irregularidades, ressaltando que nunca beneficiou Vorcaro em suas decisões. As mensagens, por si só, não esclarecem todas as circunstâncias do encontro nem demonstram que o magistrado tivesse conhecimento prévio dos preparativos relatados.
Preparativos
Em 25 de fevereiro de 2025, três dias antes da festa, Vorcaro procurou Rayanna – uma mulher que agenciava garotas de programa – para combinar a presença delas no evento. Ao perguntar se ela estaria disponível na sexta-feira, recebeu uma resposta positiva e pediu que ela providenciasse mais uma mulher.

No dia seguinte, o desembargador do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) Newton Ramos entrou em contato com um agente de viagens ligado a Vorcaro. Na mensagem, pediu a reserva de um quarto no hotel Fasano para Nunes Marques, a quem identificou como “KN”. Ramos é amigo do ministro.
Ainda em 26 de fevereiro, Vorcaro acertou a contratação de um chef de cozinha. Ao profissional, escreveu: “Sexta churrasco animado. Com min e [sic]”. O banqueiro também avisou ao arquiteto que receberia um ministro em seu apartamento e pediu que um sofá rasgado fosse retirado da varanda antes da chegada do convidado.

Na manhã do evento, o chef enviou a lista de compras para a festa. Segundo a piauí, os produtos custaram R$ 21.121,90 e incluíam carnes, cinco latas de caviar e trufas. Os registros mostram que Vorcaro acompanhava detalhes da organização, desde a preparação do imóvel até a contratação dos serviços.
Chegada de mulheres e ministro
Na tarde do dia 28, Rayanna avisou a Vorcaro que não conseguiria comparecer pessoalmente e perguntou se poderia enviar duas mulheres de sua confiança. Após concordar com a substituição, o banqueiro fez uma ressalva: “Só lembra que sem celular” – a conversa não esclarece se todos os presentes cumpriram a orientação.
Por volta das 14h, um homem identificado como motorista na agenda do celular de Vorcaro avisou que as mulheres estavam começando a chegar. O banqueiro autorizou a entrada e orientou o funcionário a acompanhar a chegada dos convidados. Pouco depois, o mordomo responsável pelo apartamento informou que um convidado havia chegado.

Já à noite, às 20h56, o mordomo informou que havia emprestado um quarto ao ministro para que ele ficasse com cinco mulheres. Vorcaro autorizou o uso do cômodo e orientou o funcionário a fechar seu próprio quarto. Em seguida, o mordomo relatou que todos haviam ficado juntos no mesmo ambiente.

Mais tarde, o funcionário descreveu a situação no apartamento. Segundo a mensagem enviada ao patrão, algumas pessoas estavam nuas na piscina e uma mulher havia passado mal, mas já estava bem. O mordomo também afirmou que o ministro não demonstrava pressa para ir embora e que havia comentado sobre renovar o encontro. Às 23h17, o funcionário avisou que ele estava saindo.

Agenciadora cobrou R$ 10 mil
Depois da festa, o mordomo enviou fotos a Vorcaro mostrando objetos deixados no apartamento. Em uma das imagens, havia preservativos usados sobre um tapete; em outra, uma calcinha de renda preta encontrada entre o lençol e a fronha. O funcionário comentou que uma das mulheres parecia ser “artista”.
Em 7 de março, uma semana depois do evento, Rayanna voltou a procurar o banqueiro para perguntar sobre o serviço prestado por uma das mulheres. “Ela disse que ficou com o kassio! Ela tá me cobrando aqui”, escreveu a agenciadora. Vorcaro pediu os dados e o valor a ser pago. Rayanna respondeu “10 né!” e enviou uma chave Pix para receber o dinheiro.

À imprensa, Nunes Marques negou irregularidades e afirmou que nunca favoreceu Vorcaro em suas decisões.
Entenda o Caso Vorcaro
A investigação sobre Daniel Vorcaro começou após o Banco Central identificar suspeitas de irregularidades nas operações do Banco Master. Segundo a PF, o banco vendia títulos financeiros e, depois de fiscalizações, trocava os ativos por outros sem análise técnica considerada adequada pelos órgãos de controle.
As apurações apontam que a instituição operava em situação de alto risco financeiro, com dívidas próximas ou superiores ao patrimônio. A PF também suspeita que o banco concedia empréstimos considerados arriscados, com juros elevados.
Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. A medida foi ampliada nos meses seguintes para outras empresas ligadas ao grupo, como o Will Bank e o Banco Pleno. Segundo investigadores, o prejuízo estimado ultrapassa R$ 50 bilhões.
O caso ganhou repercussão política após atingir investigações sobre empréstimos consignados do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). A CPMI instalada no Congresso passou a apurar possíveis irregularidades envolvendo contratos ligados ao banco. No STF, o ministro André Mendonça assumiu a relatoria do caso após a saída de Dias Toffoli.




