O influenciador Felca revelou que desenvolveu dependência de álcool ao tentar lidar com a fobia social. Segundo seu relato, a bebida passou a fazer parte da rotina antes de entrevistas, gravações e eventos, situações em que sentia dificuldade para interagir com outras pessoas.
Caracterizado pelo medo intenso de ser julgado ou rejeitado, o transtorno de ansiedade social pode comprometer relacionamentos, oportunidades profissionais e atividades cotidianas. Especialistas explicam como identificar a condição e os riscos de recorrer ao álcool para enfrentar o desconforto.
Fobia social vai além da timidez
A fobia social pode provocar sintomas físicos diante de situações que envolvem exposição ou avaliação por outras pessoas.

“É muito diferente de uma simples timidez. O paciente pode apresentar taquicardia, tremores, sudorese, náuseas, sensação de falta de ar e até crises de pânico diante de situações sociais”, explica a psiquiatra Jessica Martani.
O medo também pode levar à antecipação de situações constrangedoras e à revisão constante das próprias atitudes após uma interação.
“A pessoa pode passar dias antecipando uma reunião, ensaiar mentalmente o que vai dizer, evitar entrevistas ou sair de uma situação social com a sensação de que fez tudo errado. Mesmo quando ninguém a critica, ela pode continuar revivendo a interação e procurando falhas no próprio comportamento”, afirma a psicóloga Anastácia Barbosa.
Álcool pode agravar o problema
Embora a bebida possa provocar desinibição temporária, utilizá-la repetidamente para enfrentar situações sociais pode favorecer a dependência.
“O problema é que o alívio imediato pode ensinar ao cérebro uma associação perigosa: ‘Só consigo fazer isso se beber’. Quando essa associação se fortalece, a pessoa deixa de enxergar o álcool apenas como uma bebida e começa a utilizá-lo como uma ferramenta para enfrentar situações que provocam ansiedade”, alerta Anastácia.

A psicóloga e neuropsicóloga Cristiane Belmonte, diretora da Belmonte Saúde, destaca que a principal diferença entre timidez e transtorno de ansiedade social está no sofrimento e nos prejuízos causados à rotina.
“A timidez pode deixar a pessoa desconfortável, mas não necessariamente impede que ela faça o que precisa. Já na ansiedade social, o medo começa a limitar a vida. A pessoa pode evitar entrevistas de emprego, reuniões, eventos, encontros e até situações do cotidiano”, afirma.
Rejeição e exposição pública
Experiências de rejeição, bullying e humilhação podem contribuir para o desenvolvimento do transtorno. Segundo a psicóloga Daisy Cangussú, fundadora da Wapiya, evitar situações sociais reduz o desconforto momentaneamente, mas pode reforçar o medo.
“Experiências de exposição, críticas constantes ou situações de humilhação podem fazer com que a pessoa desenvolva uma percepção de ameaça diante do olhar do outro. Ela começa a acreditar que será julgada negativamente e passa a se proteger evitando situações sociais. O problema é que essa esquiva oferece alívio imediato, mas mantém o medo e reduz progressivamente sua autonomia”, explica Daisy.
No caso de quem trabalha com exposição pública, críticas e comentários hostis também podem intensificar o sofrimento. Para Jessica Martani, esse tipo de situação pode reforçar o medo de avaliações negativas.
“Uma das características centrais da fobia social é justamente o medo da avaliação negativa. Portanto, receber milhares de comentários hostis pode intensificar a ansiedade, aumentar a sensação de ameaça e reforçar comportamentos de isolamento”, alerta.
Tratamento da fobia social
O tratamento pode envolver psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, e acompanhamento psiquiátrico quando necessário. Quando há uso problemático de álcool, as duas condições precisam ser avaliadas.
“O objetivo do tratamento não é transformar alguém em uma pessoa extrovertida, mas permitir que ela tenha liberdade para escolher como deseja viver, sem que o medo ou a bebida decidam por ela”, conclui Anastácia Barbosa.




