Nosso editorial de verão “Viajar em Portugal” tem me mostrado alguns lugares escondidos de Portugal que só agora, por conta desse projeto, vim a descobrir.
De norte a sul, de leste a oeste, nosso propósito é mostrar um Portugal muito diferente do que os guias de turismo e as redes sociais insistem em mostrar, muitas vezes não fazendo justiça à essência desse país e de lugares que merecem ser vistos ou revisitados.
Esta semana, a coluna conta a história de um hotel nos arredores de Évora que me chamou a atenção não apenas pela beleza, mas principalmente pela história de sua recuperação: a Imani Country House.
Évora: uma viagem pelo ritmo do Alentejo
Mas antes de revelar essa joia do Alentejo, vale relembrar que Évora é a capital da região alentejana e fica no centro-sul de Portugal. Com mais de 50 mil habitantes, seu centro histórico foi declarado Patrimônio Mundial pela Unesco e a cidade, reconhecida mundialmente como Cidade-Museu, será a Capital Europeia da Cultura em 2027.
Dizem que não há português que se preze que não tenha pensado em um dia morar no Alentejo. Seja por conta dos seus campos verdejantes repletos de flores, seja para viver num lugar onde desfrutar a vida é a palavra de ordem.

Pois é, caro leitor, a vida nessa região do país acontece sem pressa, sem estresse e sem atropelos. É como se viajássemos numa cápsula do tempo e percebêssemos que viver dessa maneira deveria ser a ordem natural das coisas.
Se o Alentejo nos faz retomar as rédeas do relógio, a Imani Country House é o lugar ideal para quem quer se hospedar em um lugar onde a vida acontece lentamente, mesmo estando a apenas 20 km da cidade.
Uma antiga propriedade agrícola ganha nova vida
Com sete quartos com estilo contemporâneo complementados com decoração vintage e peças de antiquário, duas piscinas e jardins centenários rodeados de pomares, flores e oliveiras, o leitor não imagina que o hotel-boutique passou por um minucioso projeto de restauração.
No início do século XX, o hotel era uma propriedade agrícola e chegou a ter cinquenta trabalhadores em tempo integral. Mas, quando os seus novos donos, Mariana Roxo e Zé Pedro Vasconcelos, a encontraram, a casa estava completamente abandonada.
Apesar do mau estado, os proprietários logo perceberam que tinham ali um espaço com muito potencial a ser explorado.
O primeiro passo foi limpar o terreno, parte dos 11 hectares da propriedade que havia sido coberto pela mata selvagem. Durante a limpeza, a descoberta de um antigo tanque em perfeito estado e de bancos em pedra anunciava que bons ventos estavam por vir.


Restauração preservou a arquitetura original
Com a casa limpa, era hora de pensar em um projeto de restauração que não descaracterizasse drasticamente a quinta e pudesse propiciar aos futuros hóspedes uma verdadeira experiência de se viver em uma casa alentejana.
Apaixonados por arquitetura, arte e mobiliário, Mariana e Zé Pedro não pouparam esforços. Pesquisas, estudos ambientais e garimpos em antiquários fizeram parte dessa tarefa para fazer da Quinta de Montemuro, local onde o hotel está inserido, um local único para quem o conhecesse.
Para ajudá-los, convidaram o arquiteto australiano Andrew Shore. Encantado com o que viu, ele não só assinou o projeto de restauro como preservou ao máximo as suas características originais.
Um bom exemplo são as telhas em canudo, que foram limpas e reaproveitadas, e os beirados e chaminés, mantidos na forma original.
Em 2011, após três anos de trabalho, a Imani abriu suas portas ao público e tornou-se, logo de imediato, uma referência na região alentejana, não só pela preservação da arquitetura local, mas por dar uma nova vida à antiga propriedade agrícola.


Natureza e sustentabilidade fazem parte da experiência
Preocupados com o bem-estar de seus clientes, os proprietários buscaram propiciar aos futuros hóspedes o máximo de conforto, preservando a natureza e mantendo a tradição.
No hotel, a água é aquecida por painéis solares e a lenha provém de limpezas florestais. Há ainda uma horta orgânica que, a cada estação, abastece a cozinha com o que a natureza oferece de melhor: legumes e verduras frescas. Como era de se esperar, no hotel não há nada de pesticidas ou químicos.




Gastronomia alentejana com toque contemporâneo
Comprovando a tese de que o que é bom ainda pode melhorar, a responsabilidade gastronômica do hotel, desde 2019, fica a cargo do Chef Rui Rosário, que comanda o Restaurante Improvável.
O menu apresenta uma requintada cozinha tradicional alentejana, incorporando referências das melhores cozinhas contemporâneas do mundo.
Se as criações do talentoso chef português já atravessam fronteiras, o azeite extraído das oliveiras centenárias da propriedade é também um dos responsáveis pelo sucesso das receitas que deliciam o paladar de turistas americanos, canadenses e do norte da Europa. Nada mau, não?
Um refúgio para quem busca privacidade
Vera Rosado, recepcionista do hotel há dez anos, me conta que um dos seus grandes diferenciais é que a quinta tem um espaço tão generoso que muitos hóspedes têm a sensação de estarem praticamente sozinhos na propriedade.
E é essa busca pela exclusividade que faz da Imani destino preferido de muitas figuras públicas nacionais e internacionais, incluindo artistas e políticos, para viverem suas vidas com privacidade.
Slow living: viver sem pressa no Alentejo
Quem se hospeda no hotel percebe naturalmente o significado do conceito do movimento “slow living”, que a Imani, desde a sua abertura e de forma precursora, tem propiciado a seus clientes, bem antes de o tema ser pauta das revistas de bem-estar.
Uma vez hospedado, e estando a apenas poucos minutos de Évora, sugiro visitar alguns lugares clássicos da cidade como o Templo Romano, a Capela dos Ossos e a Sé de Évora, considerada a maior catedral medieval de Portugal.
Três lugares para descobrir em Évora
No entanto, os meus três lugares preferidos da cidade são bastante singelos, e acredito que o leitor irá gostar.
Praça do Giraldo: o coração da cidade
O primeiro deles é vagar pela Praça do Giraldo e deixar-se levar pelo tempo. As paredes brancas das arcadas e o chafariz são o coração da cidade.
Lá pode-se observar, num extremo da praça, a Igreja de Santo Antão e, do lado oposto, o Banco de Portugal.
Rua 5 de Outubro e os sabores de Évora
O segundo deles é flanar pela Rua 5 de Outubro e conhecer o comércio e o artesanato locais.
Durante o passeio, rodeado de casas pintadas de branco e amarelo, sugiro uma parada para comer as queijadas de Évora, um doce conventual típico da cidade.
Mercado Municipal: uma viagem pelos sabores do Alentejo
Por fim, uma visita ao Mercado Municipal é indispensável àqueles que não dispensam conhecer os produtos da região.


Viver o Alentejo é preciso
Se o leitor já não vê a hora de arrumar as malas, viajar e se hospedar no hotel, vale lembrar que o futuro hóspede terá boas surpresas em sua estadia, como se deparar com as ovelhas e burros que passeiam descontraidamente pela propriedade.
Um cenário bastante alentejano.
Que o leitor não se engane: viver o Alentejo é preciso.