Não é de hoje que o Carnaval, uma das manifestações culturais mais tradicionais do país, é alvo de críticas que misturam religião, opinião pessoal e desinformação. Fantasias e enredos das escolas de samba acabam associados a interpretações distorcidas, e um debate que antes ficava restrito a conversas agora ganha força nas redes sociais.
Com a ampliação do alcance digital, discursos sobre um suposto “lado oculto” da folia passaram a circular na internet com mais engajamento. Em plataformas como TikTok, X e Instagram, postagens acumulam milhares de visualizações e frases como “Vou te explicar por que o Carnaval é espiritualmente perigoso” e “O que ninguém te conta sobre o Carnaval” alimentam um debate que vai além da festa.
Nos vídeos que circulam nas redes, criadores de conteúdo afirmam que o Carnaval abriria “portais espirituais” e libertaria entidades que estariam “presas” ao longo do ano. Outros associam a festa a supostos rituais de “magia sexual”, relacionando suor, beijo, consumo de bebida e até a batida dos atabaques a práticas espirituais ocultas.
Parte dos conteúdos também direciona as teorias a artistas que se apresentam nos blocos e desfiles. Recortes de shows são usados para sugerir que cantores estariam “invocando espíritos” ou “recebendo entidades” para ganhar força no palco. Gestos cênicos, expressões corporais e momentos de intensidade musical passam a ser interpretados como sinais de manifestações espirituais.
As publicações, muitas vezes acompanhadas de linguagem alarmista, teor conspiratório e uso de IA, sugerem que foliões estariam se expondo a riscos espirituais ao participar do Carnaval. Em alguns casos, o discurso chega a afirmar que frequentadores levariam “entidades” de volta para igrejas ou para dentro de casa após os dias de festa.
Especialistas em religião e cultura apontam que esse tipo de narrativa mistura desconhecimento sobre manifestações afro-brasileiras, moralismo e estratégias típicas de engajamento digital. Ao associar elementos culturais como samba, percussão e expressões corporais à rituais ocultos, os conteúdos acabam reforçando estigmas históricos e preconceitos, especialmente contra religiões de matriz africana.