Um médico da rede pública de Piracicaba, no interior de São Paulo, incluiu a palavra “igreja” em uma receita destinada a um paciente de 22 anos que procurou atendimento por dores abdominais e paralisia facial. O profissional relacionou os sintomas a um quadro de ansiedade e condicionou o uso do antidepressivo ao cumprimento de outras recomendações, como alimentação adequada, exercícios físicos, autocuidado, terapia e participação em atividades religiosas. A Prefeitura de Piracicaba informou que avaliará a conduta adotada.
Receita repercutiu nas redes sociais
O atendimento ocorreu na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Vila Sônia. Na prescrição, o médico indicou fluoxetina 20 mg e acrescentou orientações voltadas ao estilo de vida. Ao final, registrou que o paciente deveria utilizar a medicação apenas se seguisse todas as recomendações.
Após a divulgação do documento nas redes sociais, o caso repercutiu e gerou debates sobre os limites entre aconselhamento pessoal e orientação médica.
Jovem diz que não tem histórico de ansiedade
Segundo o paciente, que preferiu não se identificar, ele enfrenta dores há mais de um mês e ainda não recebeu um diagnóstico conclusivo. Além disso, afirmou que nunca apresentou histórico de ansiedade e que não abordou questões religiosas durante a consulta.
Antes disso, o jovem procurou a UPA por causa de fortes dores no abdômen, na cabeça e no ouvido, além de apresentar paralisia facial. Em um primeiro atendimento, uma médica identificou alterações em exames e orientou o retorno à unidade para uma nova avaliação.
No dia seguinte, outro profissional realizou a consulta. Conforme o relato do paciente, o médico atribuiu os sintomas a ansiedade e depressão. O jovem também afirmou que o profissional minimizou suas dores físicas e passou a conversar principalmente com a mãe que o acompanhava.
Depois da consulta, ele procurou atendimento em outra unidade de saúde. Atualmente, faz uso de corticoides, realiza sessões de fisioterapia facial e aguarda consultas com especialistas em neurologia e gastroenterologia.
Prefeitura vai analisar a conduta
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que o paciente recebeu atendimento clínico completo, incluindo avaliação médica, administração de medicamentos e encaminhamentos para continuidade do tratamento.
Além disso, a pasta explicou que o médico inseriu a recomendação sobre atividades religiosas como uma medida complementar voltada ao fortalecimento de hábitos saudáveis, suporte emocional e manutenção de vínculos sociais.
A administração municipal destacou que a orientação não substituiu o tratamento convencional. Também reafirmou o compromisso com a ética profissional, a liberdade de crença, a autonomia dos pacientes e a laicidade do serviço público.
Agora, a área técnica da secretaria analisará se as orientações registradas seguem as diretrizes adotadas pela rede municipal de saúde.
Cremesp ainda não se pronunciou
Até a publicação desta reportagem, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) não havia se manifestado sobre o caso. O órgão foi procurado para esclarecer quais são os limites desse tipo de recomendação e informar se existe algum procedimento envolvendo o profissional.