“Você tá bem? Deus está te cobrindo”, escreveu Jéssica Araújo às 10h57 da manhã de terça-feira (28) ao marido, o 3º sargento do Bope, Heber Carvalho da Fonseca, de 39 anos, durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro. “Estou bem. Continua orando”, respondeu o policial. Foi a última mensagem trocada entre os dois. Minutos depois, Jéssica tentou ligar insistentemente, sem sucesso. Heber foi atingido no confronto e não resistiu.
Além dele, outros três agentes foram mortos na ação — Rodrigo Cabral, Marcus Vinícius Cardoso e Cleiton Serafim Gonçalves. O enterro do sargento está marcado para esta quinta-feira (30). Ele deixa a esposa, uma filha de 12 anos e dois enteados.
Mensagens e homenagens
As últimas conversas foram divulgadas por Jéssica em uma rede social. “E você não falou mais. E agora? O que vou falar pra Sofia?”, escreveu, em referência à filha do casal. Em outra publicação, ela afirmou: “Você era maravilhoso, obrigada por esses anos ao meu lado. Você é o meu eterno herói, ETERNO 33.”

Segundo Jéssica, o marido costumava dizer que carregava uma “senha” nas mãos — símbolo silencioso de quem perde colegas em combate. “Ele dizia que o dia que acontecesse com ele, seria fazendo o que mais amava. E a gente nunca acredita. Esse dia chegou.”
A filha também prestou homenagem: “Pai, não tenho palavras pra descrever o quão maravilhoso era estar ao lado do senhor. O tempo que tive com você foi perfeito. Saiba que eu te amo infinitamente.”
A operação mais letal da história do Rio
A ação mobilizou cerca de 2.500 policiais civis e militares, em cumprimento a mandados de busca e prisão contra lideranças do Comando Vermelho. Ao todo, 121 pessoas morreram, sendo 4 policiais. O número supera os 28 mortos da operação no Jacarezinho (2021) e os 24 da Vila Cruzeiro (2022), ambas durante o atual governo.
Durante os confrontos, ruas foram bloqueadas com barricadas, houve incêndio de objetos e trocas intensas de tiros. Moradores encontraram corpos em áreas de mata, e a contagem oficial subiu gradualmente. O Instituto Médico Legal (IML) segue recebendo cadáveres e a letalidade ainda pode aumentar.
O secretário da PM, Marcelo de Menezes, informou que o Bope cercou a Serra da Misericórdia, montando o chamado “Muro do Bope”, com o objetivo de empurrar os suspeitos para áreas de mata, onde as equipes estavam posicionadas.
A operação, parte da chamada Operação Contenção, também resultou em 113 prisões e 118 armas apreendidas. O governo do Estado afirma que o objetivo foi desarticular estruturas criminosas e enfraquecer rotas de fuga.