O gestor de trânsito de Mongaguá, Francisco Xavier, de 44 anos, foi denunciado sete vezes pelos crimes de assédio, abuso, importunação sexual e estupro, entre crianças, adolescentes e mulheres adultas. Segundo relatos, ele também administra uma academia e teria se aproveitado de uma sala do local para cometer abusos durante um programa de emagrecimento por cerca de dois anos.
O caso veio à tona após a empreendedora Kassia Lopes, de 28 anos, madrasta de uma das crianças que teriam sido abusadas, tomar conhecimento da situação. A partir disso, novas denúncias surgiram depois que Kassia decidiu expor o caso nas redes sociais e, com a ajuda de uma amiga, conseguiu reunir outros relatos de vítimas. “É por todas as mulheres”, afirmou.
A reportagem teve acesso aos boletins de ocorrência por meio da advogada das vítimas, Rosângela de Oliveira, e procurou a Prefeitura de Mongaguá e o denunciado para se manifestarem. Em nota, a administração municipal afirmou que “não compactua com nenhum tipo de violência” e informou que Francisco Xavier foi exonerado do cargo (entenda a seguir).
AVISO: esta reportagem contém relatos de violência sexual e pode causar desconforto. Se você ou alguém próximo precisar de ajuda, procure os canais oficiais de apoio e denúncia. Leitura não recomendada a menores de idade.
Para entender:
- Kassia – madastra da criança
- Companheiro de Kassia – pai da criança [identidade preservada]
- Francisco – padrasto da criança
- Companheira de Francisco – mãe da criança [identidade preservada]
Denúncia partiu de violência doméstica
Tudo começou na última semana de novembro do ano passado, quando o companheiro de Kassia – pai de uma menina de 12 anos, cuja identidade será preservada – recebeu mensagens da mãe biológica da criança. Na conversa, a mulher pediu um encontro para relatar que algo grave havia acontecido. Como eles estavam em cidades diferentes, o relato foi feito por telefone.
Segundo Kassia, durante a ligação, a mãe contou que a menina havia denunciado ter sido abusada pelo padrasto, Francisco Xavier, com quem mantém um relacionamento há cerca de seis anos. Diante da gravidade da situação, o pai da criança orientou que fosse registrado um boletim de ocorrência, o que ocorreu no dia seguinte. No documento, a mulher afirmou que tentou encerrar o relacionamento, mas passou a sofrer ameaças.
Ainda conforme o registro policial, a denúncia foi formalizada após a mulher relatar ter sido enforcada durante uma discussão e ter objetos quebrados dentro de casa. Com medo, ela deixou a residência levando as duas filhas mais novas, de 2 e 4 anos. O boletim também aponta que o suspeito possui arma de fogo e costuma andar armado. Apesar disso, a vítima optou por não solicitar abrigo junto à Polícia Civil.

‘Não contar a ninguém’
No momento do telefonema, a menina estava com o pai e a madrasta em uma festa de casamento. Kassia relata que, ao questionar a criança sobre os abusos, ouviu um relato detalhado do que teria ocorrido e que a menina afirmou que a mãe chegou a tomar conhecimento, mas que foi “orientada a não contar a ninguém, após o padrasto negar as acusações”.
“Imagina receber um esporro da própria mãe dizendo que o padrasto não faria isso, porque ele é uma pessoa boa?”, desabafou Kassia.
O pai da criança afirmou que, há cerca de três meses, vinha percebendo mudanças no comportamento da filha, que passou a ficar mais fechada e triste e chegou a pedir para morar com ele. Diante dos sinais, a criança iniciou acompanhamento psicológico. Para Kassia, no entanto, a demora na denúncia reforça que a mãe teria sido conivente com o possível abuso.
‘Sala do sexo’
Foi a partir disso que Kassia decidiu apagar conteúdos pessoais que mantinha nas redes e transformar o perfil em um espaço dedicado ao compartilhamento de denúncias, em busca de justiça, ao lado da advogada, que é tia da criança. A exposição alcançou milhares de pessoas e passou a reunir relatos de outras mulheres que afirmam também ter sido vítimas dos abusos.
Segundo a advogada, os depoimentos apontam para um modus operandi recorrente: as vítimas relatam que iniciaram um programa de emagrecimento oferecido na academia administrada por Francisco, em Mongaguá, na Baixada Santista, conhecido como “Pen”, que consiste em uma rotina de exercícios físicos, orientações alimentares e estímulos motivacionais.
Ainda conforme relatos, dentro da academia há uma sala onde Francisco conduzia as mulheres individualmente para medições corporais e avaliação dos resultados. Nesses momentos, ele solicitava que as vítimas retirassem as roupas e se aproveitava da situação para tocá-las em partes íntimas intencionalmente, além de ouvirem comentários de cunho sexual.
Modus operandi
Relatos reunidos na investigação apontam que o homem teria praticado atos sexuais mais graves, como chupar os seios das vítimas e masturbá-las, mesmo diante de tentativas de afastamento e pedidos para que parasse. Ele ainda teria afirmado à vítima que a própria companheira teria conhecimento do que acontecia e que ninguém acreditaria nas denúncias. Em um dos casos, uma vítima relatou ter gritado durante o abuso, mas ouviu do suspeito que ninguém a escutaria por causa do volume alto da música na academia.
Outra mulher afirmou que deixou o local imediatamente após ser abusada e pediu a uma amiga que cancelasse sua matrícula na academia. Porém, disse ter recebido ligações da companheira de Francisco, que teria solicitado seu retorno ao estabelecimento, com a promessa de isenção das mensalidades por alguns meses, sob o argumento de que a interrupção do programa poderia levá-la a recuperar o peso perdido.
Uma terceira mulher relatou que, após demonstrar não ter interesse por homens, ouviu do suspeito a frase: “você gosta de mulher porque nunca viu um homem de verdade”. Já uma quarta vítima afirmou que foi alvo de comentários de cunho sexual explícito, ao ouvir que tinha uma “bucet@ gorda” e que ele dizia gostar de “bucet@s de todas as formas”, especialmente quando estavam suadas. As declarações constam nos depoimentos prestados à autoridade policial.
Apesar de ocorrerem em contextos distintos, as vítimas relataram situações semelhantes e concordam que as ofertas teriam como objetivo abafar os casos e evitar que os abusos viessem a público. Diante disso, decidiram formalizar as denúncias na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Os boletins de ocorrência, aos quais o VTV News teve acesso nesta sexta-feira (9), apontam que todas as mulheres descreveram o mesmo modo de atuação do suspeito.

O que diz a Prefeitura?
O VTV News procurou a Prefeitura de Mongaguá, que informou que Francisco foi nomeado para o cargo em 12 de maio de 2025, ainda durante a gestão do prefeito interino. Segundo a administração municipal, em razão dos resultados apresentados na área de trânsito, ele foi mantido na função quando a prefeita assumiu o Executivo, em julho do mesmo ano.
A Prefeitura afirmou, no entanto, que só tomou conhecimento das denúncias na terça-feira (6), após a divulgação do caso nas redes sociais. Diante disso, adotou como medida imediata a exoneração do então gestor, efetivada na quarta (7). A decisão, segundo a Prefeitura, será publicada no Diário Oficial ainda nesta sexta-feira.
Em nota, o órgão destacou que “não compactua com nenhum tipo de violência”, mas ressaltou que as denúncias dizem respeito à esfera pessoal de Francisco. Ainda de acordo com a Prefeitura, o município não foi oficialmente notificado pela Justiça nem pela Polícia Civil sobre as acusações e não figura como parte no processo. “O que a Prefeitura poderia fazer, foi feito. Esperamos que a Justiça seja feita e que tudo venha a ser devidamente esclarecido”, afirmou a administração.
Investigação
Em nota, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o caso é apurado por meio de inquérito policial instaurado na DDM. Segundo a pasta, o suspeito já foi ouvido e a autoridade policial segue realizando diligências para esclarecer os fatos. Acrescentou ainda que as vítimas manifestaram interesse na concessão de medidas protetivas, deferidas pela Justiça.
Por esse motivo, o VTV News também procurou o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), que informou que pedidos de medidas protetivas e processos que envolvem crimes sexuais tramitam sob segredo de Justiça e, por isso, não há informações disponíveis para divulgação.
Posicionamento
Francisco Xavier foi procurado pela reportagem e criticou o compartilhamento de informações relacionadas ao processo, afirmando que “eventuais esclarecimentos serão prestados exclusivamente no âmbito judicial”. Leia, a seguir, a íntegra da nota.
Em razão da divulgação e do compartilhamento indevidos de conteúdos relacionados a um processo que tramita sob segredo de justiça e que envolve meu nome, presto o seguinte esclarecimento.
A legislação brasileira é expressa ao vedar a divulgação de informações referentes a processos protegidos por segredo de justiça, justamente para preservar a intimidade das partes, a regularidade da apuração e o devido processo legal. A Constituição Federal também assegura a presunção de inocência, impedindo julgamentos antecipados ou exposições públicas indevidas.
Ressalta-se que a responsabilidade pela violação não recai apenas sobre a fonte original, mas também sobre quem reproduz, divulga ou compartilha esse tipo de conteúdo, ainda que de forma indireta.
Eventuais esclarecimentos serão prestados exclusivamente no âmbito judicial, nos autos do processo. As medidas legais cabíveis já estão sendo adotadas para apuração das responsabilidades decorrentes da exposição indevida.
Reitera-se a solicitação de respeito à privacidade das pessoas envolvidas e aos limites legais que regem procedimentos submetidos ao segredo de justiça.
Para denunciar casos de violência contra a mulher
- Disque 190 (Polícia Militar)
- Disque 180 (Polícia Militar – Central de Atendimento à Mulher)
- Disque 181 (Disk Denúncia)
- Delegacias de Defesa da Mulher (veja os endereços)
- Delegacia Eletrônica da Polícia Civil (acesse aqui)
- Atendimento presencial em delegacias de polícia e salas DDM Online (veja lista de endereços aqui)