Após mais de duas décadas de tratativas diplomáticas, os 27 países da União Europeia autorizaram nesta sexta-feira (9) a assinatura do acordo de livre comércio com o Mercosul, estabelecendo as bases para a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com compromissos em áreas como comércio, meio ambiente e cooperação política.
A decisão foi tomada durante reunião de embaixadores em Bruxelas, com maioria qualificada, mesmo diante de resistência explícita de França, Polônia e Irlanda. Com a autorização política do Conselho da União Europeia, o tratado poderá ser formalmente assinado, mas ainda não entrará em vigor.
A proposta inclui dois instrumentos principais:
- Acordo de Parceria Abrangente, que vai além da pauta comercial e abrange cooperação institucional;
- Compromissos multilaterais, e um acordo interino, que antecipa parte das medidas comerciais antes da ratificação pelos parlamentos nacionais.
A Comissão Europeia e países como Alemanha e Espanha defendem o acordo como estratégico para reduzir dependências externas e garantir acesso a matérias-primas consideradas críticas.
O texto prevê redução progressiva de tarifas, unificação de normas técnicas e proteção a setores considerados sensíveis, sobretudo o agrícola. A União Europeia reforçou que foram incorporadas cláusulas ambientais e mecanismos de salvaguarda para atenuar os efeitos sobre produtores locais.
Dia histórico para o multilateralismo. Após 25 anos de negociação, foi aprovado o Acordo entre Mercosul-União Europeia, um dos maiores tratados de livre comércio do mundo. A decisão chancelada pelo lado europeu une dois blocos que, juntos, somam 718 milhões de pessoas e um PIB de…
— Lula (@LulaOficial) January 9, 2026
Reações divergentes nos blocos
A aprovação gerou reações contrastantes. No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a decisão como “um dia histórico para o multilateralismo”, ao destacar que o acordo une dois blocos que somam cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB conjunto estimado em US$ 22,4 trilhões.
Segundo ele, a medida representa um contraponto ao avanço de agendas protecionistas e unilaterais no cenário global.
Estudos internos do governo brasileiro apontam que o principal beneficiado será o setor agroindustrial, com crescimento adicional estimado em 2% ao longo de 17 anos, segundo projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

No mesmo período, os setores de serviços, extração mineral e indústria de transformação também devem apresentar variações positivas, ainda que modestas. Algumas áreas específicas, contudo, tendem a registrar perdas pontuais — entre elas, os segmentos de equipamentos elétricos e máquinas.
Na Europa, o avanço das tratativas mobilizou protestos. Produtores rurais realizaram manifestações e bloqueios em países como França, Bélgica e Polônia, denunciando que o acordo tende a pressionar o mercado interno com a entrada de alimentos mais baratos, como carne bovina e açúcar, vindos da América do Sul. A França, maior potência agrícola do bloco, lidera a oposição ao tratado, mesmo após a inclusão de cláusulas protetivas.
Apesar do sinal verde, o acordo ainda depende de novas etapas institucionais. O Parlamento Europeu precisará ratificar o texto, e no caso do Acordo de Parceria Abrangente, será necessário o aval de parlamentos nacionais dos países-membros da UE, além das respectivas instâncias legislativas dos países do Mercosul. Só então o tratado poderá entrar plenamente em vigor.
Setores celebram oportunidade estratégica
Representantes da indústria brasileira celebraram a sinalização europeia como um passo relevante para a integração produtiva e o fortalecimento do comércio baseado em regras. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (ABIT) se manifestou a favor do tratado, apontando que o acordo viabiliza expansão do comércio com países de práticas justas, cooperação tecnológica, diálogo sobre sustentabilidade e fortalecimento de setores criativos.
“A ABIT celebra essa evolução no relacionamento multilateral e reafirma seu compromisso com iniciativas que promovam crescimento econômico, geração de emprego, modernização da indústria e integração produtiva global”, escreveu a entidade.
A entidade também destacou os efeitos esperados na qualificação de mão de obra e na inserção internacional da indústria nacional.