O jovem de 21 anos que escondeu um celular em um banheiro feminino de um prédio comercial em Santos, no litoral de São Paulo, para filmar mulheres sem autorização, já havia sido investigado pela mesma conduta há dois anos. Segundo a Polícia Civil, ele tentou captar imagens íntimas de uma menina dentro de um restaurante.
De acordo com o relatório da investigação, o jovem teria aproveitado o momento em que a menina entrou em uma cabine do banheiro para tentar filmá-la por baixo da porta. Em seguida, a vítima contou o que havia acontecido à avó, que cobrou providências do estabelecimento. O caso ocorreu em 22 maio de 2024.
O registro policial também aponta que uma funcionária tentou convencer o jovem a deixar o banheiro feminino, mas não obteve resposta. Quando saiu do local, alegou que havia entrado para vomitar porque estava passando mal. A PM foi acionada e o caso foi registrado como crime de registro não autorizado da intimidade sexual.
“Tal circunstância demonstra que os fatos ora investigados não constituem episódio isolado, evidenciando um padrão comportamental compatível com o modus operandi empregado na presente investigação e reforçando os elementos informativos produzidos por esta Polícia Judiciária”,
escreveu o investigador Luiz Antonio Francisco Neto.
Caso recente
Como noticiado, o novo caso aconteceu no dia 3 de julho, no Edifício Praiamar Corporate, no bairro Aparecida. Duas mulheres encontraram um celular escondido entre a parede e a pia do banheiro feminino adaptado para pessoas com deficiência, com a câmera direcionada para o vaso sanitário, e acionaram a Polícia Civil.
As imagens do circuito interno de segurança permitiram reconstruir a movimentação do suspeito até o banheiro (veja abaixo). Após análise técnica e cruzamento com bancos de dados da Polícia Civil, os investigadores identificaram o jovem, que compareceu ao 3º Distrito Policial (DP) para prestar depoimento na terça-feira (14).
À polícia, o investigado reconheceu que era a pessoa registrada pelas câmeras e admitiu que o celular encontrado era de sua propriedade. Ele também confessou ter instalado o aparelho para gravar mulheres utilizando o banheiro e afirmou que o material seria destinado exclusivamente à satisfação do próprio desejo sexual.
Ainda em depoimento, o jovem afirmou apresentar comportamento voyeurístico – caracterizado pelo prazer sexual em observar pessoas em situações íntimas sem consentimento – e disse fazer acompanhamento psicológico e psiquiátrico. Segundo ele, esse comportamento teria surgido após anos de consumo excessivo de pornografia, e atualmente tenta controlar os impulsos com tratamento especializado.

O investigado também declarou fazer uso de medicamentos psiquiátricos que poderiam provocar lapsos de memória e episódios de amnésia parcial. Por esse motivo, afirmou não se lembrar de como o celular foi parar no banheiro, embora tenha admitido ser o proprietário do aparelho apreendido pela polícia.
O que diz o edifício?
Em nota, o Edifício Praiamar Corporate informou que “houve um cumprimento de mandato de prisão no empreendimento. O suspeito foi levado e conduzido a delegacia pelas autoridades responsáveis”.
Aparelhos apreendidos
Durante as buscas, os policiais apreenderam um celular, um computador, um notebook e outros dispositivos eletrônicos que passarão por perícia. Também foram encontrados quatro simulacros de arma de fogo, sendo dois deles sem a ponteira laranja obrigatória de identificação. Segundo a investigação, o próprio suspeito forneceu as senhas dos equipamentos para extração dos dados.

O relatório final conclui que há elementos suficientes para o indiciamento do jovem pelo crime de registro não autorizado da intimidade sexual, previsto no artigo 216-B do Código Penal. A análise dos dispositivos poderá esclarecer se existem outras gravações clandestinas, vítimas ainda não identificadas ou registros apagados.
Como o delito é considerado de menor potencial ofensivo, o jovem foi liberado após prestar depoimento. O procedimento foi encaminhado ao Juizado Especial Criminal (Jecrim), enquanto a perícia nos equipamentos eletrônicos dará continuidade às investigações. A defesa dele ainda não foi localizada pelo VTV News.
O que é voyeurismo?
Segundo a psicóloga Marina Tranzillo, o voyeurismo é caracterizado pela busca de excitação sexual ao observar pessoas em situações íntimas sem que elas tenham conhecimento ou deem consentimento.
A especialista explica que não existe uma causa única para esse tipo de comportamento, e o voyeurismo pode estar relacionado a uma combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, como dificuldades no controle dos impulsos, padrões de aprendizagem sexual, busca por novidades e distorções cognitivas.
Sobre a possibilidade de tratamento, Marina afirma que existem abordagens capazes de controlar os impulsos e reduzir o risco de novos episódios. “O tratamento é baseado em evidências, combinando a psicoterapia e, em alguns casos, a parte medicamentosa com acompanhamento psiquiátrico”, explicou. Segundo ela, os resultados dependem do reconhecimento do problema, da motivação do paciente e da adesão ao tratamento.
A psicóloga também ressalta que o consumo de pornografia, isoladamente, não explica esse tipo de crime. De acordo com ela, estudos indicam que o uso compulsivo pode funcionar como fator de risco em pessoas vulneráveis, mas não estabelece uma relação direta de causa e efeito. “A grande maioria das pessoas que consome pornografia nunca desenvolverá comportamentos criminosos ou invasivos”, concluiu.
