O ex-diretor técnico da Voepass, Eric Consoli, abriu uma empresa de serviços aeronáuticos em Ribeirão Preto (SP) cerca de um ano após o acidente com o voo 2283, que matou 62 pessoas em Vinhedo. Consoli está entre os 16 investigados indiciados pela Polícia Federal no inquérito que apurou as causas da queda do ATR 72-500.
Empresa atua em diferentes áreas da aviação
Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, Consoli criou a empresa em julho de 2025. A companhia presta serviços relacionados à aviação executiva, incluindo manutenção de aeronaves, importação de peças, abastecimento, estacionamento de aviões e seguros voltados ao setor.
Apesar disso, a empresa não opera voos comerciais.
A abertura do negócio ocorreu aproximadamente um ano depois da queda do voo 2283, registrada em agosto de 2024.
PF apontou responsabilidade pela manutenção
No relatório final da investigação, a Polícia Federal atribuiu a Consoli responsabilidades pela gestão da manutenção da frota da Voepass.
De acordo com os investigadores, a companhia adotava uma postura permissiva diante de falhas técnicas, da falta de peças e do reaproveitamento de componentes entre aeronaves. Além disso, a PF identificou uma prática de não registrar determinadas panes nos documentos oficiais.
Segundo o relatório, falhas recorrentes deixavam de ser registradas para evitar atrasos e a retirada de aeronaves de operação. Dessa forma, os investigadores relacionaram a conduta à manutenção da frota em atividade.
Ex-diretor nega irregularidades
Durante o depoimento à Polícia Federal, Eric Consoli negou que a Voepass mantivesse uma política para esconder problemas técnicos.
Segundo ele, caso os pilotos tivessem registrado formalmente as falhas no sistema de degelo, a aeronave não deveria ter sido liberada para uma rota com previsão de gelo severo.
Além disso, Consoli afirmou que a pressão existente na empresa estava relacionada aos prazos de manutenção. Ele negou, portanto, que houvesse cobrança para descumprir normas de segurança.
Outros dois indiciados continuam na aviação
Além de Consoli, outros dois investigados no caso continuam trabalhando no setor aéreo.
Tiago Passucci Morani, que ocupava os cargos de gerente de engenharia e inspetor-chefe da Voepass, atualmente trabalha com planejamento de manutenção e aeronavegabilidade em uma empresa que presta serviços para companhias aéreas.
Já Oderlino de Campos Figueiredo, indiciado por participação no despacho operacional de voos, atua como despachante operacional em uma empresa de transporte de cargas sediada em Campinas.
Investigados cumprem medidas cautelares
Segundo a Polícia Federal, nenhum dos 16 indiciados está foragido. Todos prestaram depoimento e, atualmente, cumprem as medidas cautelares determinadas pela Justiça.
Entre as restrições impostas está a proibição de deixar o Brasil. Para garantir o cumprimento da medida, os nomes dos investigados foram incluídos nos sistemas de controle migratório.
Enquanto isso, o delegado André Ribeiro, responsável pela investigação em Campinas, afirmou que a PF não considerou necessário pedir a prisão preventiva dos investigados neste momento. De acordo com ele, todos estão colaborando com o andamento do caso.
Relatório aponta falhas no sistema de degelo
A Polícia Federal concluiu que a queda do voo 2283 resultou de uma combinação de falhas técnicas, decisões operacionais inadequadas e omissões em registros relacionados principalmente ao sistema de degelo do ATR 72-500.
A partir dessas conclusões, a PF indiciou 16 pessoas, entre dirigentes, gerentes, mecânicos, despachantes e pilotos. Entre os nomes estão o controlador da empresa, José Luiz Felício Filho, e os diretores Eric Consoli, Marcel Sarquis Moura e David da Costa Faria Neto.
Além deles, os investigadores apontaram responsabilidades de profissionais ligados à manutenção, ao treinamento de pilotos e ao despacho operacional.
Investigados podem responder por crimes
Todos os 16 investigados respondem por atentado contra a segurança do transporte aéreo, com agravamento pela morte das 62 pessoas que estavam a bordo.
Em alguns casos, a Polícia Federal também apontou possível falsidade ideológica relacionada à omissão de informações em registros técnicos.
Por outro lado, os investigados negam irregularidades. Eles sustentam que a empresa seguia os procedimentos exigidos pelas normas da aviação civil.
MPF vai analisar denúncia
Depois de concluir o inquérito, a Polícia Federal encaminhou o relatório ao Ministério Público Federal (MPF). Agora, o órgão deverá analisar as conclusões e decidir se apresenta uma denúncia criminal à Justiça.
Caso o MPF apresente a denúncia e a Justiça aceite a acusação, os investigados poderão se tornar réus. A partir daí, o caso seguirá para a fase de ação penal.