A falta de integração entre os órgãos que atendem mulheres vítimas de violência pode dificultar a identificação de situações de risco e a prevenção de feminicídios. Por isso, especialistas defendem que delegacias, Ministério Público, Defensoria, saúde e assistência social compartilhem informações para construir um histórico mais completo de cada caso.
O tema ganhou destaque durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Entre os principais desafios estão a fragmentação dos dados, as dificuldades para fiscalizar medidas protetivas e a falta de serviços especializados em parte dos municípios.
Para a promotora Silvia Chakian, do Ministério Público de São Paulo (MPSP), cada instituição pode conhecer apenas uma parte do histórico de violência de uma mulher. Dessa forma, sem a integração dos registros, o poder público pode não perceber a sequência de ameaças, agressões e outros episódios que antecedem uma morte.
Como a informação se fragmenta
Quando os dados não circulam entre os serviços, o histórico da violência pode ficar dividido.
ajuda os serviços a enxergar o histórico da violência e identificar situações de risco.
Rede de proteção precisa compartilhar informações
A integração entre os diferentes serviços pode melhorar a identificação de situações de risco. Nesse sentido, especialistas defendem uma atuação coordenada entre os órgãos que recebem denúncias e acompanham as vítimas.
O delegado Julio Guebert, professor da Academia de Polícia Civil de São Paulo, defende que delegacias, Ministério Público, Defensoria, saúde e educação trabalhem de maneira articulada.
Assim, a proposta busca evitar que cada órgão receba apenas uma informação e conduza o atendimento de forma isolada. Com o compartilhamento dos registros, profissionais podem reconhecer sinais de agravamento da violência e adotar medidas de proteção.
Além disso, Silvia Chakian chama atenção para as dificuldades na fiscalização das medidas protetivas de urgência. Segundo a promotora, a falta de comunicação entre as instituições pode impedir que informações importantes cheguem aos profissionais responsáveis pela proteção da vítima.
Falta de serviços também dificulta atendimento
Além da integração dos dados, a estrutura disponível para atender mulheres em situação de violência representa outro desafio.
Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 72,9% dos municípios brasileiros com menos de 100 mil habitantes não possuem nenhum serviço especializado de atendimento à mulher.
O levantamento também aponta que metade dos feminicídios registrados em 2024 ocorreu em municípios com até 100 mil habitantes. Essas cidades concentram, por sua vez, cerca de 41% da população brasileira.
O estudo mostra ainda que apenas 5% desses municípios possuíam Delegacia da Mulher.
Por isso, a ausência de estruturas especializadas pode dificultar o acesso das vítimas à rede de proteção, principalmente em cidades menores.
Cenário regional reforça importância da prevenção
Nas regiões de Campinas e Piracicaba, 23 feminicídios foram registrados no primeiro semestre de 2026, segundo dados dos Departamentos de Polícia Judiciária do Interior (Deinter) 2 e 9.
O número já supera os 21 casos registrados durante todo o ano de 2025. Além disso, a média passou de um feminicídio a cada 17 dias em 2025 para aproximadamente um a cada oito dias no primeiro semestre deste ano.
Os números ajudam a dimensionar o cenário regional. Ao mesmo tempo, reforçam a importância de identificar situações de violência antes que elas evoluam para crimes letais.
Feminicídios aumentam no cenário regional
no primeiro semestre de 2026
Em 2025, a média foi de 1 caso a cada 17 dias.
Campinas registra aumento de medidas protetivas
Em Campinas, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu 1.868 medidas protetivas entre janeiro e agosto de 2026.
O número representa uma média de aproximadamente sete decisões por dia. Além disso, na comparação com o mesmo período de 2025, quando o tribunal concedeu 1.580 medidas, houve aumento de 18,2%.
O volume também representa o maior patamar registrado pelas Varas de Violência Doméstica e Familiar de Campinas desde o início da série histórica, em 2018.
Esse crescimento mostra que mulheres estão recorrendo à Justiça em busca de proteção. Entretanto, a concessão da medida não encerra o risco e exige acompanhamento e fiscalização.
Descumprimentos mostram outro desafio
Campinas registrou 1.958 ocorrências de descumprimento de medidas protetivas em 2025, segundo dados da Polícia Civil.
O número representa uma média de aproximadamente cinco casos por dia. Além disso, na comparação com 2024, houve aumento de 14,4%.
O dado regional se relaciona a uma preocupação também observada nacionalmente. Afinal, uma medida protetiva não significa, por si só, que a mulher esteja livre do risco de uma nova agressão.
Dados nacionais mostram dimensão do problema
O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número representa alta de 4,7% em relação ao ano anterior e alcança o maior patamar da série histórica iniciada em 2015.
Em outro recorte analisado pelo Fórum, envolvendo 1.127 feminicídios registrados em 16 estados, 13,1% das vítimas tinham uma medida protetiva de urgência vigente quando foram mortas.
Esse percentual não representa todos os feminicídios registrados no país. Ainda assim, o levantamento mostra um dos desafios da rede de proteção: transformar as informações disponíveis em ações capazes de reduzir situações de risco.

Primeiros sinais de violência precisam ser considerados
A delegada Cristine Costa, titular da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, defende que os serviços acolham as vítimas desde os primeiros episódios de violência.
Entre as iniciativas citadas está o boletim de ocorrência eletrônico de violência doméstica. Em São Paulo, a ferramenta também permite que a vítima solicite medidas protetivas pelo celular.
Além disso, a capacitação dos profissionais que recebem as denúncias representa outro ponto destacado. A orientação é evitar julgamentos sobre a gravidade do episódio relatado pela mulher.
Dessa maneira, ameaças, injúrias e outras formas de violência podem integrar o histórico da vítima. Assim, um episódio aparentemente isolado pode se relacionar a outros registros já existentes.
Subnotificação pode esconder histórico de violência
Outro obstáculo apontado pelos especialistas é a subnotificação.
Antes de procurar a polícia ou outro serviço, muitas mulheres enfrentam medo do agressor, dependência econômica, preocupação com os filhos, falta de informação sobre os próprios direitos e desconfiança nas instituições.
Quando a vítima não comunica a violência aos órgãos públicos, esses episódios também deixam de integrar o histórico que poderia ajudar os profissionais a identificar uma situação de risco.
A promotora Juliana Tocunduva, que atua na Casa da Mulher Brasileira, em São Paulo, também destacou as dificuldades para fiscalizar medidas protetivas.
Segundo dados apresentados por ela, mais de 621 mil medidas foram concedidas no Brasil em 2025. No mesmo período, houve cerca de 135 mil registros de descumprimento.
Medidas protetivas e descumprimentos
Dados de 2025 mostram a dimensão do desafio para proteger mulheres em situação de violência.
O registro de descumprimentos pode ajudar os serviços a identificar situações de maior risco.
Integração pode ajudar a identificar situações de risco
Para os especialistas, o enfrentamento ao feminicídio não depende apenas da criação de novas medidas. É necessário, portanto, conectar as informações que já chegam aos diferentes serviços.
Um registro de ameaça, uma agressão, um pedido de medida protetiva ou um descumprimento podem fazer parte de uma mesma trajetória de violência.
Quando esses dados permanecem separados, cada órgão pode enxergar apenas uma parte do caso. Por outro lado, quando as instituições compartilham informações, os profissionais têm mais elementos para avaliar a situação e definir medidas de proteção.
Além disso, a integração pode ajudar a direcionar recursos para locais onde a rede de atendimento ainda apresenta lacunas.
Serviço
Mulheres em situação de violência podem procurar uma Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ou uma unidade da Polícia Civil para registrar a ocorrência e buscar orientação sobre medidas protetivas.
Em situações de emergência, a Polícia Militar pode ser acionada pelo telefone 190.




