A recuperação judicial ganhou espaço entre empresas brasileiras em meio aos juros altos, crédito mais caro e pressão sobre o consumo. No varejo, o número de companhias nessa situação passou de 819, em junho de 2025, para 986 em junho de 2026, uma alta de 20,4%, segundo dados do Monitor RGF-BIZDOC.
O movimento ficou ainda mais em evidência nos últimos dias, com pedidos envolvendo redes conhecidas pelos brasileiros, como Casas Bahia e Marabraz. Mas entrar com esse tipo de processo não significa, necessariamente, que uma empresa faliu.
Recuperação judicial cresce no varejo: o que explica a alta?
Para Marina Prieto, professora e coordenadora do curso de Ciências Contábeis da Estácio, o aumento mostra que o setor enfrenta um cenário financeiro mais difícil.
“O crescimento no número de empresas do varejo em recuperação judicial nos últimos 12 meses é um sinal importante de que o setor vem enfrentando um ambiente econômico bastante desafiador”, explica.
Um dos principais problemas está no custo do crédito. Empresas que dependem de empréstimos, capital de giro ou antecipação de recebíveis passaram a enfrentar despesas financeiras maiores.
No varejo, a situação fica ainda mais delicada porque as companhias precisam manter estoques e financiar parte da operação. Ao mesmo tempo, juros elevados também atingem o consumidor e podem reduzir as vendas.
Além disso, o avanço dos marketplaces e das plataformas digitais aumentou a concorrência e colocou mais pressão sobre preços e margens.
Casas Bahia, Marabraz e Tok&Stok: casos recentes chamam atenção
O cenário ganhou novos exemplos em agosto. O Grupo Casas Bahia protocolou um pedido de recuperação judicial em 16 de agosto, buscando reorganizar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A companhia afirmou que pretende manter lojas físicas, e-commerce e outros canais em funcionamento enquanto busca uma solução para o endividamento.
Pouco antes, em 15 de agosto, a Marabraz também procurou a Justiça. A tradicional rede de móveis e eletrodomésticos informou dívidas de aproximadamente R$ 140 milhões e citou fatores como juros altos, retração do consumo e dificuldades de acesso ao crédito.
Outro caso de 2026 envolve o Grupo Toky, controlador das marcas Tok&Stok e Mobly. A empresa pediu recuperação judicial em maio, com dívida superior a R$ 1 bilhão. A Justiça posteriormente aceitou o processamento do pedido e determinou medidas para permitir a continuidade das operações durante a reestruturação.
Os casos ajudam a mostrar que a pressão financeira não está restrita a pequenas empresas e tem atingido nomes tradicionais do varejo.
Recuperação judicial significa que a empresa faliu?
Não. A recuperação judicial existe justamente como uma tentativa de evitar a falência e permitir que uma empresa em crise reorganize suas dívidas.
“A empresa recorre à Justiça quando está diante de uma crise econômico-financeira e precisa reorganizar suas dívidas para tentar preservar a atividade empresarial”, explica Marina.
Segundo a especialista, uma companhia pode continuar com clientes, funcionários, vendas e capacidade operacional, mas enfrentar dificuldades para pagar compromissos no curto prazo.
Nesse cenário, o processo cria condições para negociar dívidas com credores enquanto a empresa apresenta um plano para tentar recuperar sua saúde financeira.
“Mais do que olhar apenas para o número de recuperações judiciais, é importante acompanhar o que está por trás delas, como o nível de endividamento das empresas, o custo do crédito, a evolução do consumo, as margens de lucro e a capacidade de geração de caixa”, conclui Marina.