A Justiça converteu em preventiva a prisão de Ailton Rodrigues de Souza, acusado de sequestrar e manter a ex-companheira Emiliane Tamara Nunes Carvalho, de 24 anos, em cárcere privado por cinco dias em Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. Familiares comunicaram o desaparecimento da jovem, e policiais a localizaram na sexta-feira (21), amarrada e acorrentada a uma cama.
Ailton havia sido preso em flagrante durante o resgate. No sábado (22), ele passou por audiência de custódia, mas a Justiça negou o pedido da defesa para que respondesse ao processo em liberdade.
Além disso, o caso ganhou novos elementos nos últimos dias. Entre eles estão uma carta encontrada pela polícia, novos relatos da vítima sobre as agressões e informações sobre o histórico de violência no relacionamento.
Carta encontrada com o suspeito levanta dúvidas
Durante o resgate, os policiais encontraram uma carta manuscrita que teria sido assinada por Emiliane e estava com Ailton. O documento era destinado à mãe da jovem e trazia orientações sobre bens, dinheiro e os filhos do casal.
Em um dos trechos, a mensagem pede que a família não procure a polícia. A carta também menciona valores entre R$ 30 mil e R$ 50 mil e orienta a mãe a procurar um advogado para tratar de documentos relacionados a um carro e a uma casa.
A polícia considera a possibilidade de Ailton ter obrigado Emiliane a escrever ou assinar o documento. Até o momento, porém, a investigação não confirmou em quais circunstâncias a carta foi produzida.
Por outro lado, a defesa de Ailton questiona informações divulgadas sobre o caso e afirma que precisa analisar integralmente o inquérito antes de se manifestar sobre as acusações.
O que Emiliane relatou após o resgate
Depois de receber alta e voltar para casa, Emiliane começou a publicar vídeos nas redes sociais para relatar parte dos dias que passou presa.
Segundo a jovem, o ex-companheiro a agrediu fisicamente, a dopou e provocou ferimentos na boca e nos olhos. Ela também afirmou que Ailton colocou panos com ácido em sua boca, o que teria provocado queimaduras.
Além disso, Emiliane contou que permaneceu amarrada durante a maior parte do tempo. Segundo o relato, o ex-companheiro soltava suas mãos apenas durante as refeições.
A jovem também relatou dificuldades para lidar com os filhos depois do episódio e pediu que as pessoas evitem comentários que possam afetá-los.

Como a polícia encontrou a vítima
Emiliane estava desaparecida desde segunda-feira (17). Uma câmera de segurança registrou a jovem saindo de uma clínica e seguindo em direção a outro setor da cidade.
Durante as buscas, a mudança na rotina de Ailton chamou a atenção dos policiais. Segundo as autoridades, ele fechou o estabelecimento que administrava e deixou de frequentar os locais onde costumava estar.
A polícia identificou um imóvel alugado pelo suspeito e foi até o endereço na sexta-feira (21). O local tinha tapumes na parte externa. Ao ouvir ruídos vindos do interior da residência, os agentes entraram no imóvel e encontraram Emiliane amarrada e acorrentada.
De acordo com a Polícia Militar, a vítima tinha os braços, as pernas e o pescoço presos por cordas, algemas e correntes. Ela também apresentava dificuldades respiratórias.
Durante a ação, os policiais apreenderam uma pistola calibre 9 mm. Além disso, encontraram alimentos, água e outros itens no imóvel. Para a investigação, esses materiais podem indicar que Ailton preparou o cativeiro para manter a ex-companheira presa por mais tempo.
Relacionamento terminou em dezembro
Emiliane e Ailton mantiveram um relacionamento por cerca de seis anos e têm dois filhos. Segundo a jovem, o casal terminou a relação em dezembro de 2025.
Em entrevista, Emiliane afirmou que o ex-companheiro controlava diferentes aspectos de sua rotina, como amizades, horários e o local onde treinava. Ela também relatou episódios anteriores de violência durante o relacionamento.
A vítima afirmou ainda que sofreu agressões durante a gravidez e que chegou a pedir uma medida protetiva contra o ex-companheiro. Segundo ela, a Justiça negou o pedido.
O que falta esclarecer
Mesmo após o resgate e a prisão preventiva de Ailton, a polícia ainda investiga as circunstâncias do crime e tenta esclarecer a motivação.
Entre os principais pontos estão o que levou Ailton a sequestrar a ex-companheira, quais eram suas intenções ao mantê-la no imóvel e em que circunstâncias Emiliane escreveu ou assinou a carta.
A investigação também deve apurar os relatos da vítima sobre agressões, uso de medicamentos, substâncias químicas e outros abusos durante o período de cárcere.
Enquanto isso, a defesa de Ailton afirma que precisa analisar os elementos do inquérito antes de apresentar uma manifestação sobre as acusações. As autoridades de Goiás continuam investigando o caso.